Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 1 de dezembro de 2012

culpa

A literatura tem uma força de iniciação na vida que não pode ser subestimada. Ela age em camadas nem sempre disponíveis ao estoque consciente de conexões possíveis. Esta noite eu sonhei com o conto “Lacuna”, de que falei ontem antes de dormir. Sei que o sonho foi deflagrado pelo enredo que as imagens do sonho acabaram por assumir, quem sabe sugeridas, em nível consciente, pelo próprio conto. E daí? Daí que fiquei sabendo um pouco mais sobre culpa, a minha.

domingo, 31 de julho de 2011

as portas da ficção

No ensaio “Ficções do sujeito moderno”, Julio Ramos abre muitas portas, especialmente aquela a partir da qual a literatura latino-americana pode se enxergar. Se na modernidade tardia a própria realidade se converteu em um narcótico, na síntese que faz sobre o impacto da eterna novidade da mercadoria sobre o consumidor dependente e dela intoxicado, Julio Ramos abre, por assim dizer, as portas da ficção. Pergunta-se ele, sem qualquer pretensão de encontrar uma resposta imediata: “como se dá a passagem da escrita teórica para a ficcional? ‘Fumando haxixe’, me responderá alguém. Não necessariamente ― prossegue Ramos ―, porque é mais do que sabido que quem fuma haxixe raramente escreve, ou escreve pouco e dorme. O haxixe retira de circulação o sujeito; a escrita, por outro lado, o insere numa economia de dívidas e intercâmbios, uma economia simbólica, que ― mais que a ‘morte’ sob o peso da lei ― pode muito bem implicar uma ética do desejo.”

Julio Ramos alude à morte de Walter Benjamin após ter ingerido uma dose elevada de morfina, para não cair nas mãos do nazismo. Mas sua análise é bem mais ampla e sutil, focalizando, nos muitos labirintos trilhados pelas hipóteses que descortina, intoxicações que produziram o mito moderno do criador que se autodestrói para poder criar: “A arqueologia do mito do artista autodestrutivo nos leva para uma referência mais próxima da literatura latino-americana, ao clássico relato de Julio Cortázar sobre Charlie Parker, El perseguidor, em que o pudor de Cortázar o leva a substituir a heroína de Charlie pela marijuana de Johnny Carter. O anverso do mito aparece também em outros campos da literatura latino-americana.”

De Benjamin a Pessoa, do haxixe ao ópio, dos interditos às ficções pessoanas, Julio Ramos vai conduzindo o leitor a uma nova visida do projeto estético da modernidade: “Se para Benjamin o fármaco operava como o parapeito de uma (hiper) sensibilidade exacerbada e excessivamente exposta ao shock do estímulo moderno, e ― se como assinalava Adorno em sua sutil despedida do amigo morto ― o próprio parapeito estético apenas imitava a lei do fetichismo das mercadorias e sua máquina compulsiva de produção e consumo de novas sensações, em Pessoa encontramos uma opção mais criativa: a ficcionalização literária. A literatura desvencilha o eu da sobrecarga e do trauma hipersensorial, produzindo, mediante a novidade da ficção, um laboratório de mundos e sensações possíveis, sem o engate ― o hook ― do ego submetido à compulsão regressiva e narcisista do uso e consumo de drogas ou objetos.”

Que se escreva, pois. E se leia, engendrando laboratórios de possibilidades de fuga ao curto-circuito-cicuta do capitalismo.

RAMOS, Júlio. Ficções do sujeito moderno: um diálogo improvável entre Walter Benjamin e Fernando Pessoa. Trad. Rômulo Monte Alto. ___. SOUZA, Eneida Maria; MARQUES, Reinaldo (Orgs.). Modernidades alternativas na América Latina. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p.32-55.

terça-feira, 26 de abril de 2011

aparência e essência, duas farsantes da mesma família

Semanalmente vou à zona sul, em virtude da análise. Procurando um lugar diferente para almoçar hoje, deparei-me com um buffet de saladas. Lá pelas tantas, chega um grupo que se distinguia por portar uma câmera filmadora profissional. Bulício geral: reportagem da TV Globo com a Renata Ceribelli para um quadro do Fantástico sobre alimentação light, "Medida Certa". A moça que estava ao meu lado foi que me informou isso, eu não reconheceria a cuja, tão diferente estava do que aparece na televisão. Ninguém que estava por lá comendo deu muita bola, exceto os funcionários do restaurante. Terminei de comer, paguei e saí. Ainda tinha um tempo disponível, entrei numa pequena livraria em frente, nada muito especial. Folheia daqui, folheia de lá, acabei esbarrando na biografia de Clarice Lispector, li alguns trechos das páginas iniciais e não gostei: essa obsessão biográfica, esse devassar da intimidade do autor/criador acaba respingando na obra, porque não sobram frinchas por onde o mistério possa ainda ser entrevisto. No fundo, é a mesma malfadada vontade de explicar a obra pela biografia, justificar a criação pelo eu biográfico. De outro modo, como se explicaria esse surto editorial em torno de Clarice Lispector: cartas trocadas com as irmãs, escritos de revistas femininas, correio feminino, fotografias e agora uma biografia ricamente detalhada. Não parece interessante essa devassa na intimidade de alguém, parece antes um voyerismo sem freios, que não consegue se saciar. Esse furor biográfico trai a crença romântica na unidade do eu. E a obra de Clarice Lispector questiona radicalmente isso. Basta ler "O ovo e a galinha." Qual a conexão disso com o episódio das saladas? Nenhuma, exceto que de um lado da rua a preocupação era com a aparência e do outro com a essência.

terça-feira, 12 de abril de 2011

esquinas

Há uma canção brasileira a que sempre recorro quando quero ensinar o emprego do porquê com o valor de pronome relativo: "Só eu sei as esquinas por que passei." Está claro que não gosto da música nem de seu compositor/intérprete. Gosto só deste enunciado. Por muitas razões já o tomei para mim. Por outras tantas, não é difícil vê-lo sair da boca de um personagem de romance russo, transmutado, por exemplo, em "Só eu sei os infernos que atravessei." Já um personagem de Kafka não diria jamais tal frase, pois não há espaço para remissão em suas narrativas, exceto, talvez, Carta ao pai. Um personagem de Machado de Assis lamentaria suas esquinas (tenho servido de agulha a muita linha ordinária...), mas não surtiria efeito, pois viria em seguida alguém dizer que é assim mesmo. Um personagem de Guimarães Rosa diria que o sertão está cheio de veredas a confundir a pessoa comum mortal, mas que há uma promessa de arco-íris a quem por elas se aventurar sem se perder. Não imagino Stephen Dedalus dizendo tal frase, ele era confiante demais na própria força: o pesadelo estava na História, incidindo aí na subjetividade, o que não parece fazer muita diferença, haja vista que admitir-se confinado aos labirintos da História é colocar o homem numa estranha prisão, a linguagem. Paulo Honório diria a frase, e mandaria todos para o inferno como uma forma de responsabilizá-los pelos seus infortúnios. Os personagens de Borges não a diriam, mesmo os heróis infelizes de "O jardim dos caminhos que se bifurcam" ou "A morte e a bússola". Mas os que não consigo imaginar, em absoluto, lamentando-se por qualquer coisa à maneira de "só eu sei..." são os personagens de Clarice Lispector. É que não existe propriamente um eu em suas narrativas, no sentido mais convencional da subjetividade. Eles (ou elas) têm a altivez dos que nunca darão explicações nem a eles mesmos. Então a literatura ensina a dobrar esquinas, mas as esquinas e vãos da subjetividade. Foi preciso escrever isso até o final para que eu pudesse me dar conta das armadilhas da subjetividade, sua rarefação.  

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O espelho cego - Cildo Meireles

imagem obtida aqui

"O trabalho produzido em 1970 apresenta uma textura cinzenta, enquadrada em uma moldura. A observar a peça, o espectador é confrontado com uma massa que, de modo ambivalente, está entre a forma e o informe. Acostumados com a ideia de que um espelho devolva nossa imagem tal como é, vivemos situação similar à do protagonista do conto "O espelho", de Guimarães Rosa. (...) A obra não apenas sugere que o espelho seja cego por ser incapaz de retribuir como esperado pela retina. É a própria visão do espectador que, pela vivência do choque, se vê ameaçada por uma contemplação que provoca tensão na estabilidade do olhar. (...) O espectador, se sustentar o olhar, se perguntará pelos limites da própria percepção, limites que estabelecem uma impossibilidade de deixar fluir a visão. O que está sendo visto, o que pode ser visto? É a própria visão do espectador que percebe seu limite, sua incapacidade de ver. A obra aponta para uma forma de subjetividade que exige atenção. Contrariando as heranças vindas do pensamento cartesiano e do Iluminismo, encontramos aqui a projeção da imagem de um sujeito que não tem condições de organizar a produção do conhecimento. Essa limitação faz com que se volte sobre si, atingido pela própria incompreensão. É um sujeito que, descobrindo uma distância entre sua auto-imagem habitual e inesperadas imprecisões, está aquém de si mesmo."

GINZBURG, Jaime. Cegueira e literatura. In: VECCHI, Roberto; FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Formas e mediações do trágico moderno: uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco, 2004, p.89-90.

sábado, 16 de outubro de 2010

amor, casamento e algumas questões de gênero no ocidente cristão

Na sociedade ocidental, há papeis sociais mais ou menos delimitados para homem e mulher, que preveem, a dada altura da vida, o casamento. No entanto, é interessante observar que esse desenho, ou projeção, de um universo essencialmente heterossexual é apenas uma mistificação para o assentamento social da instituição do casamento, de história recente, aliás. É o que mostra Ronaldo Vainfas no livro Casamento, amor e desejo no ocidente cristão (São Paulo: Ática, 1992): “O modelo matrimonial da igreja triunfou nos séculos XII e XIII. Impôs-se ao clero o celibato, e aos leigos ― nobres ou camponeses  o casamento monogâmico e indissolúvel. No bojo desse processo, a Igreja afirmou-se como o poder supremo do Ocidente. A sacramentalização do casamento foi a base, portanto, do triunfo político da Igreja, e matéria privilegiada da codificação moral da cristandade.” Mais adiante: “Na antiguidade clássica, os filósofos e os poetas imaginaram o amor como ascese, entrega mútua, sentimento entre iguais. Sensível e sexualizado, o amor era um privilégio dos homens e excluía o casamento. Muito mais tarde idênticos valores seriam transferidos para a relação entre o homem e a mulher e, sobretudo, para o casamento. As raízes dessa mudança encontram-se espalhadas no tempo. [...] No entanto, o amor conjugal não se imporia como valor ideal do casamento antes do século XIX, ou talvez, do XX.” Ou seja: conflue no século XIX certo modelo de família assentado na relação sensível e sexualizada entre um homem e uma mulher, pautada pelo amor mútuo. Não é coincidência que esse modelo, que é uma construção histórica, e não uma necessidade natural, tenha surgido exatamente quando o capitalismo se afirma como modo de produção, que tem a burguesia como principal agente desse processo. Também as derivações do movimento romântico jogam um papel importantíssimo nisso. Em princípio contestador da ordem social, o Romantismo vai produzir narrativas que colocam o amor como o sentimento mais importante da vida de um ser humano, seja ele homem ou mulher. Mas é claro que o casamento é um contrato, antes de mais nada. Se o amor fosse esse porto seguro todo que as pessoas apregoam aos quatro ventos não haveria necessidade de ir ao cartório registrá-lo (não cabe aqui entrar no mérito de questões da mais alta relevância, como bens e filhos, não é disso que se trata, mas do fato de uma construção histórica ser tomada como necessária, na falta de termo melhor). A questão é outra: amor e casamento não são a mesma coisa, nunca foram. E as mulheres quase sempre arcam com o ônus desse equívoco, ao aceitarem docilmente, quase buscando-o, o papel a elas reservado pelas narrativas do patriarcado. Então, uma terapêutica para isso talvez seja desconfiar desses modelos prontos, como receitas, que são oferecidos pela sociedade, e principalmente da ilusão heterossexual criada pelo patriarcado. Desconfiar, sempre, e observar, bastante, principalmente as mulheres. Enquanto elas continuarem a fazer o jogo dos homens, vai ficar difícil. Não faltam arquétipos masculinos a enfeitar o jardim de sonhos das mulheres, sonhos que muitas vezes acabam por se converter em pesadelos. O amor é um encontro, não um comércio de afetos. Já faz tempo que os tempos estão mudando, a velha estrada está rapidamente ficando obsoleta, o que foi presente no passado não é o futuro de agora. Mas as pessoas insistem em não enxergar, insistem em querer ser as últimas a apagar a luz, acreditando que ainda há alguma luz a apagar. Há luz a pagar, apenas, e é difícil enxergar na escuridão. 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

o "eu" e seus desvãos

Quanto mais o tempo passa, mais me parece pertinente aquele dito da Clarice, num de seus contos mais herméticos, "O ovo e a galinha": "...'eu' é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada." Salvo engano, acho que entendi. Trata-se de um olhar oblíquo sobre a hipertrofia do EU que acomete as pessoas numa dada fase de suas vidas, especialmente quando estão sofrendo: "eu", "porque eu", "mas eu", "senão eu", "pois eu", "então eu"... e por aí vai - um "eu" que não dá trégua: "As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um 'eu' sem trégua", diz a narradora no mesmo conto. Por isso gosto tanto das letras minúsculas, das coisas que podem ser ditas em minúsculas: parte da importância delas é retirada. Quando assisti ao monólogo "Simplesmente eu: Clarice Lispector", uma das partes que mais me chamou a atenção foi quando a atriz (na verdade parecia a própria Clarice, sem qualquer heresia) falava mais ou menos assim: como querem saber quem eu sou? como posso dizer quem sou eu? eu não sei quem eu sou... É pretensão querer saber quem a gente é. O "eu" é uma estranha armadilha em que inadvertidamente caímos, ao acreditarmos que há um centro organizador de nós mesmos. Nos achatamos num suposto "eu", e dele fazemos uma identidade. E aqui é bom não confundir literatura e vida - a mesma Clarice que advertia acerca dos limites do que se chama "eu" em seus textos era, de certa forma, um "eu" atormentado. Talvez por isso escrevesse com tanta propriedade sobre a questão.