Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

a língua universal

imagem daqui

“Nesse imenso, desconjuntado, sonoro, truncado, melodioso e desafinado, infinito diálogo da humanidade com a humanidade, saltando séculos e milênios, voltando, se esquecendo, ziguezagueando, se interpolando nessa gigantesca malha universal, a língua é uma só: a tradução. É ela a língua, o pluribus unum integrando tempo e espaço. E antes dela o próprio verbo, ao se fazer, já se fez traduzido e se traduzindo.

Denise Bottmann em não gosto de plágio.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

outra tradução para "The Fascination of What's Difficult" (Yeats)

THE FASCINATION OF WHAT'S DIFFICULT

 The fascination of what's difficult

 Has dried the sap out of my veins, and rent
 Spontaneous joy and natural content
 Out of my heart. There's something ails our colt
 That must, as if it had not holy blood
 Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
 Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
 As though it dragged road metal. My curse on plays
 That have to be set up in fifty ways,
 On the day's war with every knave and dolt,
 Theatre business, management of men.
 I swear before the dawn comes round again
 I'll find the stable and pull out the bolt.

Conforme já postado aqui, a tradução de Augusto de Campos traz como título "O Prazer do Difícil", formulação que parece padecer de certo preciosismo, quando a palavra fascinação tem outra vibração, em consonância com o espírito do poema e seus enigmas. No entanto, a tradução de Augusto de Campos é muito bonita, pela fluidez que o poema ganhou. O que surpreende, comparando as duas traduções, é que são, praticamente, dois poemas diferentes. Segue tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

A FASCINAÇÃO DO QUE É DIFÍCIL

A fascinação do que é difícil, a fascinação
Secou-me as veias e alugou o júbilo
Espontâneo e o prazer do coração.
Nosso potro, algo tem-no incomodado.
Fingindo não possuir sangue sagrado
Ou de nuvem em nuvem não saltar no Olimpo,
Ele tem de tremer com relho, esforço, tranco e suor,
Como a puxar pedra britada. Ergo o clamor
Contra as peças que hão de montar-se de cinquenta jeitos,
A guerra diária aos toleirões e maus sujeitos.
O negócio do teatro, o gerenciar homens.
Juro que antes de nova aurora despontar
Encontrarei o estábulo e o ferrolho hei de puxar.

Poemas de W. B. Yeats. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Art Editora, 1987, p.66-67.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

THE HAND THAT SIGNED THE PAPER

The hand that signed the paper felled a city;   
Five sovereign fingers taxed the breath,   
Doubled the globe of dead and halved a country;   
These five kings did a king to death.

The mighty hand leads to a sloping shoulder,   
The finger joints are cramped with chalk;   
A goose’s quill has put an end to murder   
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,   
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand that holds dominion over   
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften   
The crusted wound nor stroke the brow;   
A hand rules pity as a hand rules heaven;   
Hands have no tears to flow.


A mão que assina o ato assassina a cidade.
Cinco dedos reais taxam o ar ― é a lei.
Cevam o morticínio e ceifam um país;
Os cinco reis que dão cabo de um rei.

A mão que manda mana de um ombro em declínio,
Cãibras deduram nós nos dedos que a cal cala.
Penas de ganso firmam o assassínio
Que pôs fim a uma fala.

A mão que assina o pacto traz a peste,
Praga e devastação, o gafanhoto e a fome;
Grande é a mão que pesa sobre o homem
Ao rabisco de um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não curam
A crosta da ferida e o rosto já sem cor.
A mão rege a clemência como a outra os céus.
Mãos não têm lágrimas a expor.

CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.332-333.


A mão que assinou o papel derrubou uma cidade;
Cinco dedos soberanos tributaram a respiração,
Duplicaram a esfera dos mortos e reduziram um país à metade;
Esses cinco reis levaram um rei à morte.

A poderosa mão chega a um ombro arqueado,
As juntas dos dedos foram imobilizadas pelo gesso;
Uma pena de ganso pôs um fim ao crime
Que deu fim à troca de palavras.

A mão que assinou o tratado fez brotar a febre,
E cresceu a fome, e vieram os gafanhotos;
Grande é a mão que mantém o seu domínio
Sobre um homem por ele ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos, mas não aplacam
A ferida cicatrizada nem acariciam a fronte;
Há mãos que regem a piedade como outras o céu;
As mãos não têm lágrimas para derramar.

Dylan Thomas. Poemas reunidos. Trad. Ivan Junqueira. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, p.105.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Dylan Thomas: trabalhar a partir das palavras

Com o perdão antecipado dos puristas, mais um Dylan Thomas traduzido. Não resisto.

DIR-SE-Á QUE OS DEUSES

Dir-se-á que os deuses esmurram as nuvens
Quando o trovão as amaldiçoa?
Dir-se-á que choram quando urra a atmosfera?
Serão os arco-íris a cor de suas túnicas?

Quando chove, onde estão os deuses?
Dir-se-á que fazem brotar a água
Dos vasos do jardim, ou que desatam as torrentes?

Dir-se-á que, à maneira de Vênus, as tetas
De um velho deus são ordenhadas e mordidas,
Ou que a úmida noite me censura como alguma ama-de-leite?

Dir-se-á que os deuses são pedra.
Ecoará sobre a terra uma pedra que caiu,
Ressoará o seixo arremessado? Deixa que as pedras falem
Com as línguas que falam todas as línguas.

Dylan Thomas. Poemas reunidos. Trad. Ivan Junqueira. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, p.105.

Na introdução que faz à coletânea, Ivan Junqueira transcreve o trecho de uma carta enviada por Dylan Thomas a Pamela Hansford Johnson: “Meus versos, todos os meus versos, são de uma intensidade de décima ordem. As palavras que expresso não são as que desejo expressar; são apenas palavras que consigo encontrar para chegar à metade do que estou dizendo. E isso não é bom. Sou um excêntrico usuário de palavras, não um poeta. Essa é a única verdade. Nada de piedade para comigo mesmo. Um excêntrico usuário de palavras, não um poeta. Isso é terrivelmente verdadeiro.” (p.24). À parte o excesso de rigor e certa performance, esta concepção revela a poesia como tradução. E é claro que Dylan Thomas era um poeta, não um usuário de palavras. Tanto que tinha elevada consciência de seu ofício. Alguém que sabia que pedras podem falar conhecia por dentro a linguagem:  “It shall be said that gods are stone. / Shall a dropped stone drum on the ground, / Flung gravel chime? Let the stones speak / With tongues that talk all tongues.”

quinta-feira, 7 de julho de 2011

recusa

Acabo de receber em casa o livro Poesia da recusa, projeto de Augusto de Campos de tradução de certa estirpe de poetas/poemas que o tradutor assim apresenta: “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas (...) A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo.” (p.16). Cansa, antes mesmo de começar a conferir o volume, esta pomposa declaração de princípios: não informa nada que não já se saiba. Dou uma passada de olho, detenho-me em Hart Crane, a quem Mário Faustino teria homenageado em sua Balada (cuja dedicatória é ainda matéria de controvérsia) e me deparo com isso: “Em 1956, Faustino traduziu dois poemas de Crane, ‘Praise for na Urn’ e ‘Garden Abstract’. Não são, porém, traduções criativas. Antes, versões quase literais, de cunho didático, para a sua ‘Página-Experiência’ no Suplemento Literário do Jornal do Brasil.” (p.294). É cômodo desqualificar o trabalho de quem não está mais aqui para se defender... Só há um porém: a tradução de Mário Faustino pareceu-me mais bonita, entre outros porque primeiro me trouxe o poema em seu frescor e novidade. Traduções são traduções ― disse-me alguém versado, e em versos versado, na questão ― cada uma atende uma demanda própria ― desde que recubra o que cabe na palavra tradução. Há várias possibilidades de recusa. Pode-se pensar que não há literatura ou poesia fora do espectro que recobre a palavra recusa ― de quê? O leitor também costuma ter suas recusas, nem sempre é fácil contorná-las, mas se elas encontram expressão na arte, isso pode sinalizar que não há uma poesia da recusa pairando acima das contingências que a ensejaram: porque uma hora vai sempre aparecer alguém que necessita dela. Na palavra recusa está pressuposta a palavra escolha: escolhemos os poetas que amamos; traduzir é escolher. Se Dylan Thomas nasceu falando uma língua diferente da minha, isso não impede que sinta necessidade de sua poesia. Aí vem sempre alguém lembrar, pelo menos aqui no Brasil, que a melhor leitura é a que se faz no original, que poesia não se traduz (cansei de ouvir isso nos eventos de que participei na Universidade), que as traduções que pratica "procuram preservar as características formais do original. São, nesse sentido, estudos de dicção e estilo. Mas o meu lema é oferecer ao público somente poemas que efetivamente continuem poemas depois de traduzidos. Daí a necessidade de captar, além da sua forma, a sua 'alma', o que traz para o tradutor o problema de identificar-se com o texto e abdicar de uma programação inteiramente premeditada." (p.17). E traz para o leitor uma enorme sensação de incompetência, para qualquer coisa, inclusive ler poesia. Será preciso lembrar tanto a própria erudição para alcançar a vontade de poesia do outro? Um poema que não continue poema depois de traduzido foi bem traduzido? É passível de tradução? Não sei responder a estas questões. O que sei é que se há quem se proponha a traduzir é porque existe, na outra ponta, a demanda de leitura. E se as melhores traduções, as mais desejadas, são ainda as bilingues, é porque o leitor quer, por ele mesmo, quando pode, fazer a comparação. A título de, segue a versão que Augusto de Campos propôs para o poema de Hart Crane:

JARDIM ABSTRATO

A maçã no seu galho é tudo o que ela quer, ―
Suspensão cintilante, mímica do sol.
O ramo arrebatou-lhe o sopro, e sua voz,
mudamente cingida aos declives e alturas
De ramo a ramo acima, turva-lhe a visão,
Prisioneira da árvore e seus dedos verdes.

E ela se sonha enfim a própria árvore.
O vento, que a possui, tece-lhe as veias jovens,
Retendo-a para o céu e seu rápido azul,
E afoga a febre de suas mãos no sol.
Ela não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e sombras a seus pés.

CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.300-301.

domingo, 13 de março de 2011

tradução: o trabalho de Denise Bottmann

Ontem, ao comprar pela internet um livro há muito acalentado, deparei-me com um nome conhecido na tradução: Denise Bottmann. Sempre sondo, antes de adquirir uma obra em língua estrangeira, o nome do tradutor. O livro é este:


Acompanho, como posso, o trabalho que Denise Bottmann desenvolve em seu blog não gosto de plágio, trabalho que vem lhe acarretando inclusive processos judiciais, movidos por editoras que se sentem lesadas pelas colocações de Denise. No entanto, a outra face da moeda é o apoio que ela vem recebendo de outros tradutores e de setores ligados à universidade, compilados no blog apoiodenise. Sobretudo, vale destacar que a discussão sobre a qualidade das traduções foi corajosamente levantada, fora dos circuitos acadêmicos, e isso é um dado importante, ao propiciar um contato mais direto com o leitor, levando-o a questionar a qualidade das traduções que lê. No campo teórico, os estudos sobre tradução no Brasil envolvem discussões avançadas, e contamos com excelentes tradutores. Na prática, editoras muito focadas no mercado acabam comprometendo esse trabalho. Esse post visa tão somente situar uma questão que acompanho tangencialmente, mas que me diz respeito na hora de escolher uma boa tradução de obra em língua estrangeira que desejo ler. 

domingo, 9 de janeiro de 2011

Gottfried Benn: "As palavras marcam mais profundamente que seu próprio conteúdo"

"A palavra é o centro criador do espírito, centro no qual enterra suas raízes e, direi ainda mais, as enterra no espírito da própria nação: quadros, estátuas, sonatas, sinfonias são internacionais: a poesia, nunca. Podemos definir a poesia como o intraduzível. A consciência prolifera nas palavras; a consciência transcende as palavras. 'Esquecer': que significam essas letras? Nada, nada que se possa compreender. Mas a consciência ressoa nessas letras, através delas se dirige a um determinado destino: e essas letras, colocadas uma ao lado da outra, ressoam acústica e emotivamente dentro de nós. É por isto que oublier não é jamais esquecer. Nem never more com suas duas sílabas iniciais graves e fechadas seguidas do taciturno e fluente more (no qual ressoa para nós 'das Moor' e para os franceses 'la Mort') é nimmermehr (jamais), 'never more' é mais belo. As palavras marcam mais profundamente que seu próprio conteúdo. Por um lado são espírito, por outro possuem a essencialidade das coisas da natureza."

BENN, Gottfried. Problemas da lírica. Trad. Fábio Weitraub. Rio de Janeiro, Cadernos Rioarte, Ano I, n.3, 1985, p.8. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Traduções de Alice no Brasil (encontrado no site Abril Educação)

Segue, conforme disponibilizado pelo site Abril Educação (aqui), comentário breve sobre três traduções de Alice no Brasil:

Alice no país das maravilhas (Tradução: Nicolau Sevcenko. Editora: Cosac Naify) Lançada recentemente, esta ótima tradução chega para acrescentar mais beleza ao mundo de Alice em português. Nicolau Sevcenko preocupou-se em transpor o espírito de Carroll, mantendo rimas e nonsense e eliminando referências à Inglaterra vitoriana que já não fazem nenhum sentido para o leitor. Houve aqui um trabalho de adaptação sério e artístico. Vale a pena conhecer.


Aventuras de Alice no país das maravilhas Alice através do espelho e o que Alice encontrou lá (Tradução: Sebastião Uchoa Leite. Editora: Summus). Considerada por muitos a melhor tradução de Carroll já feita no Brasil. O tradutor Uchoa Leite, que também era poeta e estudioso de teoria literária, dedicou-se a um trabalho minucioso de transposição fiel, mas não literal. Portanto, como fez Nicolau Sevcenko agora, também Uchoa Leite buscou não perder o sentido e o espírito do texto original. Para quem quer conhecer os contos de "Alice" em sua plenitude, sem dúvida é uma das melhores opções.



Alice - Edição Comentada, de Martin Gardner (Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges. Editora: Jorge Zahar). A grande vantagem deste lindo livro, além de reunir os dois contos de "Alice" em um só volume, é trazer comentários detalhados e interessantíssimos sobre o texto de Carroll, as circunstâncias em que foi escrito e as referências obscuras contidas nele. A tradução de Maria Luiza Borges também é admirável. 

Vale a pena conferir também as ponderações de Jorge Furtado, outro tradutor de Alice no Brasil (aqui).

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"traduzir aprende-se traduzindo" (Paulo Rónai)

Há um blog que sigo, que descobri inteiramente por acaso, nomeado não gosto de plágio, e que presta um enorme serviço de utilidade pública, não só ao confrontar traduções e tradutores, como ao discutir o ofício da tradução. É o que se passa no post que reproduzo a seguir, remetendo para aqui:

encontro hoje uma encantadora palestra de paulo rónai, nos idos de 1985, no departamento de letras da universidade federal do paraná. gosto muito e partilho dessa visão da tradução como ofício artesanal.

Traduzir aprende-se traduzindo. Os artesões de antigamente formavam-se como aprendizes ao lado de um mestre, com quem passavam longos anos. É muito difícil encontrar um mestre tradutor que aceite aprendizes. Os cursos de tradução ensinam os conhecimentos básicos indispensáveis ao métier, mas o modo de fazer é objeto de aprendizado individual. Cada tradutor deve ser seu próprio mestre. Ele mesmo deve inventar seus exercícios, confrontar um original com alguma tradução impressa, comparar a sua própria tradução com uma dessas versões, justapor duas ou mais versões do mesmo texto, organizar sua relação de falsos-amigos, de expressões idiomáticas, de equivalentes sintáticos. É preciso resignar-se à gratuidade desses exercícios antes de se atrever a fazer traduções remuneradas. O lema horaciano – Multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit ("muito fazer e suportar em jovem, suar e tremelicar") – aplica-se ao tradutor como a ninguém.

a palestra foi publicada pela revista letras, n. 34 (1985), às pp. 186-195, com o título cascas de banana no caminho do tradutor. Disponível aqui.

Fecha aspas. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Queda que as mulheres têm para os tolos - edição Unicamp (trecho)


A pesquisadora Ana Cláudia Suriani da Silva propôs uma versão bilíngue para o texto Queda que as mulheres têm para os tolos, uma tradução de Machado de Assis para De l’amour des femmes pour les sots, de Vicro Hénaux. Já foi postado aqui a parte inicial do texto, conforme editado por Oséias Silas Ferraz.  Segue o mesmo trecho conforme edição da Unicamp. 


ADVERTÊNCIA

Este livro é curto, e talvez devera sê-lo mais.
Desejo que ele agrade, como me sai das mãos; mas é com pesar que me vanglorio por esta obra.
Falar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a maioria de um e outro sexo?
Diz-se que a matéria é rica e fecunda; eu acrescento que ela tem sido tratada por muitos. Se tenho, pois,  a pretensão de ser breve, não tenho a de ser original.
Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas páginas conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escritos. Propriamente falando, é uma comparação científica, e eu obteria a mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores a idéia de aprofundar um tão importante exemplo.
Quanto à imparcialidade que presidiu a redação deste trabalho, creio que ninguém a porá em dúvida.
Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espírito, é com um desinteresse, cuja extensão facilmente se compreenderá.



QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS

  Il est des nouds secrets, Il est des sympathies.


I


Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em matéria de fazendas, pérolas e rendas, e que, desde que adotam uma fita, deve-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausíveis.
Partindo deste principio, entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emitiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituído por outro, não tinha esse outro senão o mérito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceu por muito tempo este sistema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobriu: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nele a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!


HÉNAUX, Victor. Queda que as mulheres têm para os tolos. Trad. Machado de Assis. Estabelecimento do texto Ana Cláudia Suriani da Silva. Campinas, SP: Ed. Unicamp, 2008, p.41-47.

sábado, 9 de outubro de 2010

"Queda que as mulheres têm para os tolos" – Machado de Assis (1861)

Nota do editor Oséias Silas Ferraz:

A declaração de que se tratava de tradução seria um artifício para disfarçar a autoria [...]. José Paulo Paes não entra em detalhes, mas é dos únicos a falar em tradução, a partir do original de um certo Olona, autor satírico espanhol que escreveu peças com o mesmo tema. A dúvida, no entanto, existia e só foi esclarecida pelo professor francês Jean Michel Massa, em Machado de Assis traducteur, ensaio que compõe a segunda parte de sua tese de doutoramento [...]. Apenas a primeira parte da tese foi publicada no Brasil, A juventude de Machado de Assis. Devido talvez às questões embaraçosas (para a crítica) levantadas sobre as traduções de Machado, o ensaio nunca foi publicado e permanece pouco divulgado. [...] Pesquisador atento, Massa enumera os textos que serviram de base a Queda... O Petit traité de l’amour des femmes pour les sots (1788), de autoria presumida de Champcenets (citado na parte XII de Queda...) apresentaria afinidades, mas não seria ainda o texto traduzido. Esse é finalmente identificado por Massa: De l’amour des femmes pour les sots, publicação anônima atribuída a Victor Henaux [...]. Encerra-se, assim, a polêmica sobre a originalidade do texto: ao contrário do que ficou estabelecido pela crítica machadiana, Queda que as mulheres têm para os tolos é uma tradução.” (FERRAZ, Oséias Silas. Nota do Organizador. In: ASSIS, Machado de. Queda que as mulheres têm para os tolos e outros textos. Belo Horizonte: Crisálida, 2003, p.9-10.)

A pesquisadora da Unicamp Ana Cláudia Suriani da Silva afirma que o estudioso francês não forneceu dados conclusivos que sustentem seu argumento, mas corrobora a tese da tradução, propondo uma versão bilíngue com o original e a versão machadiana: “A edição bilíngue de Queda que as mulheres têm para os tolos que eu publico pela Editora da Unicamp neste ano do centenário da morte do escritor segue intencionalmente os princípios tradicionais da crítica textual para oferecer uma base mais segura para pesquisas futuras. Estabelece definitivamente o texto traduzido por Machado e traz em espelho o texto de Victor Hénaux, o que permite que original e tradução sejam lidos lado a lado por um público que agora não se restringe mais ao próprio Machado e a uma meia dúzia (ou menos) de críticos.(Jornal da Unicamp).

Obs: segue a transcrição das duas páginas iniciais conforme edição da Crisálida. O editor manteve a grafia original do texto.

QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS

Advertencia

Este livro é curto, e talvez devera sel-o mais.
Desejo que elle agrade, como me sahe das mãos; mas é com pezar que me vanglorio por esta obra.
Fallar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a maioria de um e outro sexo?
Diz-se que a materia é rica e fecunda; eu accrescento que ella tem sido tratada por muitos. Se tenho, pois,  a pretenção de ser breve, não tenho a de ser original.
Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas paginas conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escriptos. Propriamente fallando, é uma comparação scientifica, e eu obteria a mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores a idéa de aprofundar um tão importante exemplo.
Quanto á imparcialidade que presidio a redacção deste trabalho, creio que ninguem a porá em duvida.
Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espirito, é com um desinteresse, cuja extenção facilmente se comprehenderá.
  
I

Il est des nouds secrets, Il est des sympathies.

Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em materia de fazendas, perolas e rendas, e que, desde que adoptam uma fita, deve-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausiveis.
Partindo deste principio, entraram os philosophos a indagar se ellas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emittiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituido por outro, não tinha esse outro senão o merito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceo por muito tempo este systema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobrio: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nelle a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!

ASSIS, Machado de. Queda que as mulheres têm para os tolos. Belo Horizonte: Crisálida, 2003, p.17-19.

domingo, 3 de outubro de 2010

Anna Livia Plurabelle: fragmento inicial (tradução por Dirce Amarante)

O
Me conta tudo sobre
Anna Livia! Quero saber tudo
sobre Anna Livia. Bem, conheces Anna Livia? Claro que sim, todo mundo conhece Anna Livia. Me conta tudo. Me conta já. Cais dura se ouvires. Bem, sabres, quando o velho foolgado fallou e fez o que sabes. Sei, sim, anda logo. Lava aí não enroles. Arregaça as mangas e solta a língua. E não me baitas ― ei! ― quando te apaixas. Seja lá o que quer que tenha sido eles teentaram doiscifrar o que ele trestou fazer no parque Fiendish. É um grandessíssimo velhaco. Olha a camisa dele! Olha que suja questá! Ele deixou toda minh’água escura. E estão embebidas, emergidas tolduma ceumana. Quanto tanto já lavei isso? Sei décor os lugares que ele gosta de manchar, suujeito suujo. Esfolando minha mão e esfomeando minha fome pra lavar sua roupa suja em púlpito. Bate bem isso com teu paterdor, lavelhas. Meus pullsos estão emperrujando de tanto esfreegar as nódoas de bolor. E as porções de umildade e as gangegrenas de pecado. O que foi isso que ele fez uma estola e tanto com o Anima Sancta? E quanto tempo ele ficou trancafiado no lago? Tá nos jornais o que ele fez, do nessimento ao sacerdócio, o Rei violentocomo Humphrey, destilando ilisiões, façanhas e tudo mais. Mas a massculinidade ele cultivará. Eu o conheço bem. O tempo selvagem não pára pra ninguém. Naquilo que semenhares, colherás. O, rude raptor! Levianamente acasalando e fazendo rumor.

AMARANTE, Dirce Waltrick do. Para ler Finnegans Wake de James Joyce: seguido de “Anna Livia Plurabelle”. São Paulo. Iluminuras, 2009, p.114-115.

Trata-se da tradução, por Dirce Amarante, do primeiro fragmento do famoso capítulo de Finnegans Wake. Dois detalhes curiosos. Ao introduzir sua tradução para o português, a autora assinala: “Quanto à tradução do capítulo VIII [...] empreendi minha versão do texto, uma versão feminina (todas as outras traduções que consultei e citei neste trabalho foram assinadas por homens) do universo das duas lavadeiras.” (idem, p.111-112). O outro detalhe é o estupendo enunciado: “O tempo selvagem não pára pra ninguém.” No original: “Temp untamed will hist for no man.”