Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Cristina Peri Rossi

OS FILHOS DE BABEL 

Deus está dormindo 

e em sonhos balbucia. 

Somos as palavras desse Deus 

confuso 

que em eterna solidão 

fala para si mesmo. 

 

ROSSI, Cristina Peri.  Nossa vingança é o amor. Antologia poética (1971-2024). Org. e trad.  Aylén Medail e Cide Piquet. São Paulo: Ed. 34, 20025, p. 81.