Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Picasso, arte, política e polícia

Prosseguindo no relato, Nicolau Sevcenko brinda o leitor com a seguinte pérola:

"A afinidade de Picasso com as esculturas ibéricas do período anterior ao romano vinha desde suas ligações com o movimento autonomista da Catalunha, também sediado em Barcelona. Escavações recentes haviam descoberto esse material, que foi rapidamente incorporado como evidência de uma cultura catalã autônoma e antiga nos meios irredentistas, ao mesmo tempo que era exibido publicamente em Paris como curiosidade exótica. Picasso possuía algumas dessas estatuetas, compradas de um amigo, um traficante de arte belga, que dividia o aposento com Apollinaire, e que as roubava assiduamente à coleção do Museu do Louvre." (SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 195.) Neste ponto do relato, Sevcenko insere uma nota e remete o leitor às páginas finais do livro: "Esse traficante belga de arte era um típico exemplar da boemia parisiense. Seu nome era Gery Pieret, e trabalhava como uma espécie de secretário para Apollinaire como pagamento por compartilhar o alojamento com o poeta. Ao que parece, ele tinha obscuras origens anarquistas e veleidades artísticas, que o levaram a contínuas visitas ao Louvre. Ali ele se apercebeu da precariedade geral do sistema de vigilância, passando a roubar pequenos objetos. Que ele roubasse precisamente o que interessava a Picasso, em cujas mãos os objetos iam sempre acabar, parece ser indicativo de que suas atividades clandestinas eram orientadas a partir do Bateau-Lavoir. Um belo dia, precisamente no dia 22 de agosto de 1911, Gery Pieret decidiu mudar o curso de sua vida e partiu para um golpe mais ousado: ele roubou a Monalisa. Roubou e sumiu-se de Paris. Logo que iniciadas, as investigações levaram a Apollinaire e Picasso. Os dois tentaram jogar as estatuetas roubadas no Sena durante a madrugada, mas acabaram depositando as obras numa caixa de correio, endereçadas ao diário Paris Journal. Na sequência, Apollinaire seria detido na prisão de Santé, onde ficaria cerca de um mês até ser libertado, enquanto Picasso se refugiava no interior do país, para evitar ser deportado e entregue ao Exército espanhol, em cujas mãos muito provavelmente teria sido executado como anarquista e desertor." (Idem, p. 336, nota 103)

O surgimento do Cubismo em Picasso, narrado por Nicolau Sevcenko

O episódio narra o contexto de criação do quadro Les demoiselles d' Avignon (1907), que instaura o Cubismo. Segue o relato de Sevcenko: 

"Picasso viera de Barcelona entusiasmado com o realismo de denúncia da miséria e desagregação social, que tinha ali um dos seus principais núcleos de difusão. Essa fora a linguagem de seus primeiros anos em Paris, durante as chamadas fases azul e rosa, voltada para a representação dos párias dos arrebaldes a primeira e as personagens das artes populares mambembes a segunda. Foram a boemia parisiense e Jarry [idealizador do balé multiartístico "Parade"] que fundaram a revolução Picasso. // Essa revolução ocorreu em 1907 e se chamou Les demoiselles d' Avignon. Picasso a criou em sua casa-estúdio, chamada Bateau-Lavoir por sua semelhança com as embarcações-residências de madeira das lavadeiras do Sena. O Bateau-Lavoir era um foco da elite boêmia e anarquista, sendo alvo de vigilância e batidas policiais, com a grossa maioria de seus frequentadores, inclusive Picasso, fichados na polícia. Depois de um amplo período de ensaios e experiências, Picasso partiu para criar as "demoiselles", com o objetivo propício de compor uma obra de impacto. (...) As fontes de que Picasso hauriu para compor o quadro foram várias e díspares e a todas ele proviu uma reformulação e um contexto originais. A amplitude de alcance do seu empenho catalítico ia desde um acadêmico festejado, como Jean-Auguste Dominique Ingres, de quem ele absorveu a modelagem anticonvencional dos nus, até as ousadias cromáticas, o chapamento bidimensional das formas assinaladas pelo contorno desenhado e a decomposição do espaço em campos de cores justapostas sem profundidade ou perspectiva dos fauves, sobretudo Matisse. Cézanne, homenageado após sua morte com uma grande exposição retrospectiva em 1906, forneceu principalmente a geometrização elementar das formas, a volumetria do espaço, o adensamento, homogenia e autonomia plástica da composição. A pantomima, o teatro popular, mas acima de tudo o cinema cômico-experimental de Méliès, a coqueluche da população suburbana de Montmartre, sugeriram a mobilidade do foco, a múltipla perspectiva, o desdobramento das imagens, a simultaneidade cronológica e a livre intercambialidade de todos os elementos da composição entre si e com elementos externos. Foi o que propiciou a abertura para a introdução desses dois elementos heteróclitos que implodiriam o gênero pintura tal como se conhecia até então: a arte ibérica arcaica e arte negra africana." (SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 194-195.)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Raízes do Brasil: o homem cordial

"Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - daremos ao mundo o 'homem cordial'. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter do brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados pelo meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar 'boas maneiras', civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilização há qualquer coisa de coercitivo - ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças. Entre os japoneses, onde, como se sabe, a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social, chega a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa. (...) // Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência - e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no 'homem cordial': é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. Além disso a polidez é, de alguma forma, organização de defesa ante a sociedade. Detém-se na parte exterior, epidérmica do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar inatas sua sensibilidade e suas emoções. // (...) No 'homem cordial', a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro - como bom americano - tende a ser a que mais importa. Ela é antes um viver nos outros. Foi a esse tipo humano que se dirigiu Nietzsche, quando disse: 'Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro'. " (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 146-147.)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Uma fala histórica de Caetano Veloso - III Festival Internacional da Canção

MAS É ISSO QUE É A JUVENTUDE QUE DIZ QUE QUER TOMAR O PODER... Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado. São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. VOCÊS NÃO ESTÃO ENTENDENDO NADA, NADA, NADA, ABSOLUTAMENTE NADA! Hoje não tem Fernando Pessoa [Caetano refere-se ao poema que fazia parte da apresentação da música “É proibido proibir”] Hoje eu vim dizer aqui que quem teve a coragem de assumir a estrutura do Festival, não com medo do Sr. Chico de Assis pediu [trecho confuso], mas com a coragem, quem teve essa coragem, de assumir essa estrutura, e fazê-la explodir, foi Gilberto Gil e fui eu, não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu! VOCÊS ESTÃO POR FORA! [segue trecho inaudível] MAS QUE JUVENTUDE É ESSA?! QUE JUVENTUDE É ESSA?... VOCÊS JAMAIS VENCERÃO NINGUÉM! Vocês são iguais sabe a quem? Vocês são iguais sabe a quem? Àqueles que foram na [peça] “Roda-viva” e espancaram os atores. Vocês não diferem em nada deles. Vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker!!! Estou comprometido a dar a este [trecho inaudível] aqui. Não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: VOCÊS ESTÃO QUERENDO POLICIAR A MÚSICA BRASILEIRA [trecho inaudível] americana... Mas eu e Gil já abrimos o caminho. O que que vocês querem? Eu vim aqui pra acabar com isso. Eu quero dizer uma coisa ao júri: me desclassifiquem, eu não tenho nada  a ver com isso, nada a ver com isso. Gilberto Gil está aqui comigo para nós acabarmos com o Festival, COM TODA A IMBECILIDADE QUE REINA NO BRASIL, acabar com isso tudo de uma vez. Nós só entramos no Festival pra isso [trecho confuso]. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja o Festival, não. NINGUÉM NUNCA ME OUVIU FALAR ASSIM... Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby, sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? E vocês? SE VOCÊS FOREM EM POLÍTICA COMO SÃO EM ESTÉTICA, ESTAMOS FEITOS!

uma historieta do millôr, cheia de humor

O SOCORRO
Millôr Fernandes

Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profissão – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia um som humano, embora o cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: “O que é que há”?
O coveiro então gritou, desesperado: “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!” “Mas, coitado!” – condoeu-se o bêbado – “Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho!” E, pegando a pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.

MORAL: nos momentos de necessidade é preciso olhar muito bem pra quem se pede ajuda.

Fábulas fabulosas. São Paulo: Círculo do Livro, s/d, p. 13.

Décio Pignatari: "terra"

(http://www.poesiaconcreta.com.br/poetas.php?poeta=dp#)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Clarice Lispector

A quinta história

Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.
A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.
A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de...” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.
A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem “adeus”, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.
A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas.

Melhores contos de Clarice Lispector. Org. Walnice Nogueira Galvão. Rio de Janeiro: Global, 2001, p. 18-20. 

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Chapeuzinho Vermelho e Dom Quixote num conto de Guimarães Rosa

FITA VERDE NO CABELO
(Nova velha estória)

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou”.  A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
“Quem é?”
“Sou eu...” – e Fita-Verde descansou a voz. – “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.”
Vai, a avó, difícil, disse: – “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.”
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.”
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
“Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!”
“É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta...” – a avó murmurou.
“Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!”
“É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta...” – a avó suspirou.
“Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?”
“É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha...” – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: – “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!...”
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

ROSA, João Guimarães. Ave palavra. In: Ficção completa, v. 2. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 981-982.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

belle époque carioca: Lapa / Pasárgada (Manuel Bandeira)

Entre as leituras de obrigação do doutorado, deparei-me com o livro de memórias de Luís Martins, Noturno da Lapa, o melhor itinerário para quem quer conhecer o que foi a vida noturna e boêmia da Lapa nos anos 30. Martins teve uma vida movimentada, caiu em desgraça com o governo Vargas por conta de seu romance Lapa, e foi se refugiar em São Paulo, na fazenda de Tarsila do Amaral, com quem se casou. O trecho que segue é interessante por assinalar o fim da belle époque brasileira, quando Luis Martins começa a frequentar a Lapa:

"Ao contrário do que aconteceu na Europa ... no Brasil, país de economia rudimentar, que até bem pouco tempo tudo importava ... a belle époque foi um reflexo tardio da européia, tendo durado até 1930, ano da revolução política que derrubou a República Velha e fez sentir, com maior dramaticidade, os efeitos da grande crise do café. ... A belle époque brasileira (ou carioca, se o quiserem), são os vinte e cinco anos que vão do governo de Rodrigues Alves à deposição de Washington Luís. No tempo, portanto, em que eu, meninote e adolescente, me perdia em excursões solitárias pelas ruas da Lapa, essa belle époque ia chegando ao fim. Ora, mais ou menos por essa época, exatamente nesse período, um grupo ilustre, que reunia algumas das figuras mais brilhantes e expressivas do modernismo brasileiro, antes e depois da Semana de Arte Moderna, enchia, com o tumulto de sua mocidade inquieta, os clubes noturnos, os cabarés, os botequins, as rues chaudes do famoso bairro. Eu tenho para mim que foi esse grupo que verdadeiramente “descobriu” a Lapa e criou sua legenda romântica de versão montmartriana dos trópicos. Uns dez anos antes de nós. Chamavam-se, esses boêmios de talento, Raul de Leôni, Ribeiro Couto, Jaime Ovalle, Caio de Mello Franco, Di Cavalcanti, Oswaldo Costa. Nos últimos tempos, Sérgio Buarque de Holanda e Dante Milano, os benjamins da turma. E, em fugazes aparições, aparece, esquivo, intermitente e raro, porque a saúde frágil e comprometida não lhe permitia excessos de vida desregrada, Manuel Bandeira, que morava no Curvelo, no morro de Santa Teresa ... Aliás Ribeiro Couto já morava no Curvelo, antes mesmo de para lá se mudar o grande poeta de Libertinagem, o que este fez em 1920, depois que perdeu o pai." (Noturno da Lapa, 2004, p. 49-51).

Há uma sugestão interessante, que li num crítico autorizado na obra de Manuel Bandeira, de que a Pasárgada do poema na verdade seria uma imagem mítica da própria Lapa, quer dizer, a Pasárgada que todos nós aprendemos a projetar no terreno da utopia talvez fosse a elaboração de experiências vividas na concretude de uma vida noturna fora do radar das moças de família. E vividas de forma intermitente, dado os problemas de saúde do poeta. Afirma o crítico: "... a Lapa literária, tecida entre todos, lembra Pasárgada, com sua consistência de desejo e sonho, feita do tecido da imaginação, mas correspondendo a realidades profundas da alma e a aspectos concretos da vida material. Na verdade, se percebe o quanto a própria Pasárgada bandeiriana tem a ver com a atmosfera da Lapa literária e boêmia dos anos 20, de modo que as aspirações singulares do poeta, barradas pela vida madrasta, se descobrem de repente realizáveis no mundo próximo e libertário da vida boêmia, no mais prosaico dia-a-dia do ambiente carioca." (Arrigucci Jr., Davi. Humildade, paixão e morte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 66). 

Um conto de Monteiro Lobato

Meu conto de Maupassant

Conversavam no trem dois sujeitos. Aproximei-me e ouvi:
― "Anda a vida cheia de contos de Maupassant; infelizmente há pouquíssimos Guys..."
― "Por que Maupassant e não Kipling, por exemplo?"
― "Porque a vida é amor e morte, e a arte de Maupassant é nove em dez um enquadramento engenhoso do amor e da morte. Mudam-se os cenários, variam os atores, mas a substância persiste – o amor, sob a única face impressionante, a que culmina numa posse violenta de fauno incendiado de luxúria, e a morte, o estertor da vida em transe, o quinto ato, o epílogo fisiológico. A morte e amor, meu caro, são os dois únicos momentos em que a jogralice da vida arranca a máscara e freme num delírio trágico."
― "?"
― "Não te rias. Não componho frases. Justifico-me. Na vida, só deixamos de ser uns palhaços inconscientes a mentirmos à natureza quando esta, reagindo, põe a nu o instinto hirsuto ou acena o ‘basta’ final que recolhe o mau ator ao pó. Só há grandeza, em suma, e ‘seriedade’, quando cessa de agir o pobre jogral que é o homem feito, guiado e dirigido por morais, religiões, códigos, modas e mais postiços de sua invenção – e entra em cena a natureza bruta."
― "A propósito de que tanta filosofia, com este calor de janeiro?..."
O comboio corria entre São José e Quiririm. Região arrozeira em plena faina do corte. Os campos em sega tinham o aspecto de cabelos louros tosados à escovinha. Pura paisagem europeia de trigais.
A espaços feriam nossos olhos quadros de Millet, em fuga lenta, se longe, ou rápida, se perto. Vultos femininos de cesta à cabeça, que paravam para ver passar o trem. Vultos de homens amontoando feixes de espigas para a malhação do dia seguinte. Carroções tirados a bois recolhendo o cereal ensacado. E como caía a tarde e a Mantiqueira já era uma pincelada opaca de índigo a barrar a imprimadura evanescente do azul, vimos em certo trecho o original do "Angelus"...
― "Já te digo a propósito de que vem tanta filosofia."
E, enfiando os olhos pela janela, calou-se. Houve uma pausa de minutos. Súbito, apontando um velho saguaraji avultado à margem da linha e logo sumido para trás, disse:
― "A propósito dessa árvore que passou. Foi ela comparsa no ‘meu conto de Maupassant’".
― "Conta lá, se é curto."
O primeiro sujeito não se ajeitou no banco, nem limpou o pigarro, como é de estilo. Sem transição, foi logo narrando.
― "Havia um italiano, morador destas bandas, que tinha vendola na estrada. Tipo mal-encarado e ruim. Bebia, jogava, por várias vezes andou às voltas com as autoridades. Certo dia – eu era delegado de polícia – uns piraquaras vieram dizer-me que em tal parte jazia o ‘corpo morto’ de uma velha, picado à foice.
Organizei a diligência e acompanhei-os. ‘É naquele saguaraji’, disseram ao aproximarem-se da árvore que passou. Espetáculo repelente! Ainda tenho na pele o arrepio de horror que me correu pelo corpo ao dar uma topada balofa num corpo mole. Era a cabeça da velha, semi-oculta sob folhas secas. Porque o malvado a decepara do tronco, lançando-a a alguns metros de distância.
Como por sistema eu desconfiasse do italiano, prendi-o. havia contra ele indícios fortes. Viram-no sair com a foice, a lenhar, na tarde do crime.
Entretanto, por falta de provas, foi restituído à liberdade, mau grado meu, pois cada vez mais me capacitava da sua culpabilidade. Eu pressentia naquele sórdido tipo – e negue-se valor ao pressentimento! – o miserável matador da pobre velha."
― "Que interesse tinha no crime?"
― "Nenhum. Era o que alegava. Era como argumentava a logicazinha trivial de toda a gente. Não obstante, eu o trazia de olho, certo de que era o homicida.
O patife, não demorou muito , traspassou o negócio e sumiu. Eu do meu lado deixei a polícia e do crime só me ficou, nítida, a sensação da topada mole na cabeça da velha.
Anos depois o caso reviveu. A polícia obteve indícios veementes contra o italiano, que andava por São Paulo num grau extremo de decadência moral, pensionista do xadrez por furtos e bebedices. Prenderam-no e remeteram-no para cá, onde o júri iria decidir da sua sorte."
― "Os teus pressentimentos..."
O sujeito sorriu com malícia e continuou.
― "Não resistiu, não reagiu, não protestou. Tomou o trem no Brás e veio de cabeça baixa, sem proferir palavra, até São José; daí por diante (quem o conta é um soldado de escolta), metia amiúde os olhos pela janela, como preocupado em ver qualquer coisa na paisagem, até que defrontou o saguaraji. Nesse ponto armou um pincho de gato e despejou-se pela janela fora. Apanharam-no morto, de crânio rachado, a escorrer-lhe a couve-flor dos miolos perto da árvore fatal."
― "O remorso!"
― "Está aqui o ‘meu conto de Maupassant’. Tive a impressão dele nas palavras do soldado da escolta: ‘veio de cabeça baixa até São José, daí por diante enfiou os olhos pela janela até enxergar a árvore e pinchou-se’. No progresso ingênuo da narrativa, li toda a tragédia íntima daquele cérebro, senti todo um drama psicológico que nunca será escrito..."
― "É curioso", comentou o outro, pensativamente.
Mas o primeiro sujeito acendeu o cigarro e concluiu sorridente, com pausada lentidão:
― "O curioso é que mais tarde um dos piraquaras denunciadores do crime, e filho da velha, preso por picar um companheiro a foiçadas, confessou-se também o assassino da velhinha, sua mãe..."
― "?"
― "Meu caro, aquele pobre Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde disse muita coisa, quando disse que a vida sabe melhor imitar a arte do que a arte imitar a vida."

LOBATO, Monteiro. Meu conto de Maupassant. Urupês. 37.ed.  São Paulo Brasiliense, 1994, p.83-86.

Franz Kafka (narrativas do espólio)

O SILÊNCIO DAS SEREIAS

Prova de que até meios insuficientes ― infantis mesmo ― podem servir à salvação:
Para se defender das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente ― e desde sempre ― todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses porém não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos.
As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do seu silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante ― que tudo arrasta consigo ― não há na terra o que resista.
E de fato, quando Ulisses chegou, as poderosas cantoras não cantaram, seja porque julgavam que só o silêncio poderia conseguir alguma coisa desse adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses ― que não pensava em outra coisa a não ser em cera e correntes ― as fez esquecer de todo e qualquer canto.
Ulisses no entanto ― se é que se pode exprimir assim ― não ouviu o seu silêncio, acreditou que elas cantavam e que só ele estava protegido contra o perigo de escutá-las. Por um instante, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, mas achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis em torno dele. Logo, porém, tudo deslizou do seu olhar dirigido para a distância, as sereias literalmente desapareceram diante da sua determinação, e, quando ele estava no ponto mais próximo delas, já não as levava em conta.
Mas elas ― mais belas do que nunca ― esticaram o corpo e se contorceram, deixaram o cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam as garras sobre os rochedos. Já não queriam seduzir, desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses.
Se as sereias tivessem consciência, teriam sido então aniquiladas. Mas permaneceram assim e só Ulisses escapou delas.
De resto, chegou até nós mais um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astucioso, uma raposa tão ladina, que mesmo a deusa do destino não conseguia devassar seu íntimo. Talvez ele tivesse realmente percebido ― embora isso não possa ser captado pela razão humana ― que as sereias haviam silenciado e se opôs a elas e aos deuses usando como escudo o jogo de aparências acima descrito. 

KAFKA, Franz. Narrativas do espólio. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.104-106.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Aí pelas três da tarde" - Raduan Nassar

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Moriconi, Ítalo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p.310-311.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

um primor de ambiguidade: Grande sertão: veredas

Sempre disse ao senhor, eu atiro bem.
E esses dois homens, Fancho-Bode e Fulorêncio, bateram a bota no primeiro fogo que se teve com uma patrulha de Zé Bebelo. Por aquilo e isso, alguém falou que eu mesmo tinha atirado nos dois, no ferver do tiroteio. Assim, por exemplo, no circundar da confusão, o senhor sabe: quando bala raciocina. Adiante falaram que eu aquilo providenciei, modo de evitar que mais tarde eles quisessem vir com alguma tranquibérnia ou embusteira, em fito de tirarem desforra. Nego isso, não é verdade. Nem quis, nem fiz, nem praga roguei. Morreram, porque era seu dia, deles, de boa questão. Até, o que morreu foi um só. O outro foi pego preso – eu acho – deve de ter acabado com dez anos em alguma boa cadeia. A cadeia de Montes Claros, quem sabe. Não sou assassino. Inventaram em mim aquele falso, o senhor sabe como é esse povo. Agora, com uma coisa, eu concordo: se eles não tivessem morrido no começo, iam passar o resto do tempo me tocaiando, mais Diadorim, para com a gente aprontarem, alguma traição ou maldade. Nas estórias, nos livros, não é desse jeito? A ver, em surpresas constantes, e peripécias, para se contar, é capaz que ficasse muito e mais engraçado. Mas, qual, quando é a gente que está vivendo, nos costumeiro real, esses floreados não servem: o melhor mesmo, completo, é o inimigo traiçoeiro terminar logo, bem alvejado, antes que alguma tramóia faça. Também, sei o que digo: em toda a parte, por onde andei, e mesmo sendo de ordem e paz, conforme sou, sempre houve muitas pessoas que tinham medo de mim. Achavam que eu era esquisito. 

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 177.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mário Faustino - [JUVENTUDE]


...

Juventude —
a jusante a maré entrega tudo —

maravilha do vento soprando sobre a maravilha
de estar vivo e capaz de sentir
maravilhas no vento —
amar a ilha, amar o vento, amar o sopro, o rasto —
maravilha de estar ensimesmado
(a maravilha: vivo!),
tragado pelo vento, assinalado
nos pélagos do vento, recomposto
nos pósteros do tempo, assassinado
na pletora do vento —
maravilha de ser capaz,
maravilha de estar a postos,
maravilha de em paz sentir
maravilhas no vento
e apascentar o vento,
encapelado vento —
mar à vista da ilha,
eternidade à vista
do tempo —
o tempo: sempre o sopro
etéreo sobre os pagos, sobre as régias do vento,
do montuoso vento —
e a terna idade amarga — juventude —
êxtase ao vivo, ergue-se o vento lívido,
vento salgado, paz de sentinela
maravilhada à vista
de si mesma nas algas
do tumultuoso vento,
de seus restos na mágoa
do tumulário tempo,
de seu pranto nas águas do mar justo —
maravilha de estar assimilado
pelo vento repleto
e pelo mar completo — juventude —

a montante a maré apaga tudo —

...

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009. p.114-115. Mário Faustino faleceu em 1962, aos 32 anos de idade, num acidente aéreo.

GPS

No dia 11 de setembro de 2001, eu me encontrava trabalhando na Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, já então mais como "Assessora de Assuntos Aleatórios" do que na função inicial mediante a qual havia ingressado por concurso. E sabia que aquilo seria passageiro. Bem, estávamos todos nos preparando para sair em uma visita de campo, e alguém sinalizou, por volta das 10 da manhã, que tinha alguma coisa estranha acontecendo, a televisão estava passando umas imagens esquisitas. Sei lá, não sou muito de televisão, olhei aquilo rápido, e imediatamente o grupo saiu para o campo. No local, na condição de AAA, foi-me confiada a  guarda do GPS, do qual de repente me distraí. Menos de cinco minutos dentro do carro para voltar, e o Secretário pergunta pelo GPS. Eu: "não sei; ah, sim, acho que coloquei em cima do carro". "Menina, você não tem mesmo juízo...". E todo mundo kakakakakakakaka, eu mais que todos. Tratava-se de um aparelho caro, não dava para perder assim. Parou-se imediatamente o carro, e por milagre o GPS lá estava, quietinho. Eu ainda ri muito, e acho que estou rindo disso até hoje. Bem, naquele dia trágico, da queda das torres gêmeas, o mundo ficou assim um pouco sem seu GPS, e muitas vidas se perderam por isso, no atentado e posteriormente, em virtude dos seus desdobramentos, pagando caríssimo por algo de que eram inocentes. Perder um aparelho de GPS é infinitamente menos sem importância do que perder o que um GPS, metaforicamente, pode dar. Felizmente, desde então, meu GPS tem funcionado bem, obrigada, algumas turbulências de quando em vez. Já o do mundo, lamentavelmente, não dá pra saber sequer se foi encontrado, ou se algum dia de fato funcionou.

Constelação de satélites GPS  - http://www.fc.up.pt/lic_eg/

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Edital de Incineração!?

Dando um "google" em mim mesma, descubro-me associada a um curioso "Edital de Incineração". Penso: será que já morri e esqueceram de me contar? Hahahahaha... Não, deve ser outra coisa: alguma empresa funerária me incluiu inadvertidamente na sua listagem de clientes eventuais, afinal já passei dos 40, é bom ir pensando nessas coisas desagradáveis... Mas não, ainda não é isso. É uma coisa mais simples, besta até: tempos atrás, fiz um concurso público, daqueles que te deixam "fulo da vida", quando se descobre, in media res, que um dos candidatos é autor de um dos títulos indicados na bibliografia, isso lá na Bahia, num lugar chamado Vitória da Conquista, que para mim foi antes "conquista da derrota". Coube-me um honroso segundo lugar no tal concurso, cuja vaga ficou já se sabe para quem... Voltei cabisbaixa, acabrunhada, e jurei que concurso na Bahia nunca mais. Bem, mas a lição disso tudo é que o passado, mais dia menos dia, vira uma grande piada, e podemos confortavelmente rir de nossas derrotas e fracassos. Por via das dúvidas, salvei o tal edital, afinal ele acaba de salvar meu dia. 

sábado, 30 de janeiro de 2010

Rubem Braga

É da minha terra, Cachoeiro de Itapemirim (terra de empréstimo, pois nasci na zona rural, e fui registrada num distrito do município; não importa: lá nasci, e vivi parte da infância e a adolescência) - então, como ia dizendo, é de Cachoeiro, modéstia à parte, um dos melhores cronistas que esse país já teve. Dele transcrevo uma crônica, cuja delicadeza e senso de técnica narrativa nada ficam a dever ao conto:

O compadre pobre

O coronel, que então morava já na cidade, tinha um compadre sitiante que ele estimava muito. Quando um filho do compadre Zeferino ficava doente, ia para a casa do coronel, ficava morando ali até ficar bom, o coronel é que arranjava médico, remédio, tudo.
Quase todos os meses o compadre pobre mandava um caixote de ovos para o coronel. Seu sítio era retirado umas duas léguas de uma estaçãozinha da Leopoldina, e compadre Zeferino despachava o caixote de ovos de lá, frete a pagar. Sempre escrevia no caixote: CUIDADO É OVOS — e cada ovo era enrolado em sua palha de milho com todo cuidado para não se quebrar na viagem. Mas, que o quê: a maior parte quebrava com os solavancos do trem.
Os meninos filhos do coronel morriam de rir abrindo o caixote de presente do compadre Zeferino; a mulher dele abanava a cabeça como quem diz: qual... Os meninos, com as mãos lambuzadas de clara e gema, iam separando os ovos bons. O coronel, na cadeira de balanço, ficava sério; mas, reparando bem, a gente via que ele às vezes sorria das risadas dos meninos e das bobagens que eles diziam: por exemplo, um gritava para o outro – “cuidado, é ovos”!
Quando os meninos acabavam o serviço, o coronel perguntava:
— Quantos salvaram?
Os meninos diziam. Então ele se voltava para a mulher: “Mulher, a quanto está a dúzia de ovos aqui no Cachoeiro?” A mulher dizia. Então ele fazia um cálculo do frete que pagara, mais do carreto da estação até a casa e coçava a cabeça com um ar engraçado:
— Até que os ovos do compadre Zeferino não estão me saindo muito caros desta vez.
Um dia perguntei ao coronel se não era melhor avisar ao compadre Zeferino para não mandar mais ovos; afinal, para ele, coitado, era um sacrifício se desfazer daqueles ovos, levar o caixote até a estação para despachar e para nós ficava mais em conta comprar ovos na cidade.
O coronel me olhou nos olhos e falou sério:
— Não diga isso. O compadre Zeferino ia ficar muito sem graça. Ele é muito pobre. Com gente pobre a gente tem de ser muito delicado, meu filho.
Novembro, 1952.

BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. 29. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 399-400.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

São Bernardo

São Bernardo talvez seja o meu livro preferido, o que li e releio com mais prazer. Quando fui trabalhá-lo no ensino médio, ao tentar elaborar uma lista de questões "norteadoras" para os alunos, percebi que o livro era quase inesgotável, tantas as entradas. Nesse percurso, aprendi a gostar de Paulo Honório. É doloroso o modo deformado com que ele acaba por ver a si próprio e aos seus semelhantes. E daí também se percebe o quanto, apesar de negar, Graciliano Ramos tirou proveito das vanguardas. Também o fato de dedicar dois capítulos, supostamente perdidos, a discutir como seria a fatura do livro, é notadamente moderno ― salvo engano, enunciado e enunciação convergem mais de uma vez no percurso do texto e da leitura. Muita tinta já correu sobre esse casal ― fazendo de Madalena quase sempre um objeto que serviria aos interesses econômicos de Paulo Honório ― algumas leituras sofisticadas, outras resvalando para a vulgaridade. Mas negar a Paulo Honório um fiapo que seja de amor por Madalena não é brutalizá-los ainda mais? Pois ele claramente fez uma escolha, entre a professora lourinha e D. Marcela, vizinha de posses e filha do juiz, pronta a ser escolhida como a fêmea reprodutora (pelos atributos físicos e pela conjugação de interesses políticos e econômicos). Paulo Honório recua, se encanta por Madalena, e trata logo de trazê-la, na condição de esposa, para a fazenda, onde descobre horrorizado que não conhecia a mulher com quem apressadamente se casara. A suspeita, logo confirmada, de que Madalena era uma "intelectual" deixa-o assustado e possesso, e por mais que ambos ainda tentassem aparar as arestas (não sei, estou lembrando do enredo assim por alto), a partir daí o casamento não tinha mais salvação. Intelectual era uma condição inaceitável para uma mulher escolhida, não sem algum afeto, para ser progenitora, a mãe do herdeiro. Foi uma armadilha em que ambos caíram, ao acreditarem que com boas intenções contornam-se diferenças e edifica-se um lar. Daí o caráter trágico da obra, a confissão resignada e infeliz de Paulo Honório de que se lhes fosse dada outra chance, os mesmos erros seriam cometidos. Fatalismo? Difícil saber. O que é certo é que se trata de uma obra-prima, talvez o melhor livro que Graciliano escreveu.