Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 20 de abril de 2010

"Desvio para o vermelho" - Cildo Meireles - Inhotim

De todas as obras que vi quando fui a Brumadinho, a mais difícil foi Desvio para o vermelho, de Cildo Meireles. A galeria Cildo Meireles, com três instalações do artista, faz parte do acervo permanente do museu, onde se encontra uma variedade muito grande de propostas estéticas, e o próprio lugar, com o paisagismo e os jardins de Burle Marx, esteticamente funciona como arte. Ao adentrar-se a instalação Desvio, percebe-se de imediato a saturação pela cor vermelha, nos três ambientes, em diferentes tonalidades. Segue um release fornecido pelo site: "Desvio para o Vermelho é um de seus trabalhos mais complexos e ambiciosos – concebido em 1967, montado em diferentes versões desde 1984 e exibido em Inhotim desde 2006. Formado por três ambientes articulados entre si, no primeiro deles (Impregnação) nos deparamos com uma exaustiva coleção monocromática de móveis, objetos e obras de arte em diferentes tons, reunidos 'de maneira plausível mas improvável' por alguma idiossincrasia doméstica. Nos ambientes seguintes, Entorno e Desvio, tem lugar o que o artista chama de explicações anedóticas para o mesmo fenômeno da primeira sala, em que a cor satura a matéria, se transformando em matéria. Aberta a uma série de simbolismos e metáforas, desde a violência do sangue até conotações ideológicas, o que interessa ao artista nesta obra é oferecer uma seqüência de impactos sensoriais e psicológicos ao espectador: uma série de falsas lógicas que nos devolvem sempre a um mesmo ponto de partida." Só me lembro que, sensorialmente, o espectador vai sendo impregnado pela cor, até saturar, e naturalmente as ressonâncias vão se produzindo. O terceiro ambiente, Desvio, é uma espécie de câmara escura que vai derivando do segundo, escurecendo aos poucos, e aí se começa a ouvir um barulho de algo pingando, e no final tem-se um lavatório branco onde uma torneira aberta deixa escoar um líquido vermelho. Claro que apenas entrevi isso, não cheguei a adentrar a câmara toda, meus amigos sim, chegaram bem perto. Havia também um espécie de líquido derramado pelo chão, no percurso até a pia. Segue uma análise que encontrei, feita por Tiago Macedo: Voltando à instalação 'Desvio’, deixando a primeira parte ‘Entorno’, vamos nos ater à segunda fase da instalação chamada ‘Impregnação’, na qual nos deparamos com um frasco caído no chão: uma estrutura vinílica sugere o derramamento de líquido superior ao valor de volume possível dentro do frasco, essa estrutura desemboca, depois de andarmos, numa penumbra em direção a uma pia que derrama água vermelha de sua torneira. O liquido vermelho que sai pela pia entra pelo vidro ou vice-versa. Seria esta a causa disso tudo? Podemos chegar a um raciocínio no qual o líquido vermelho derramado impregna o entorno da obra. Mas viria da pia ou do vidro? Cildo completa em entrevista que: 'você tem uma garrafa de onde sai uma quantidade enorme de líquido vermelho, que parece ser a explicação para a sala pintada de vermelho, mas o que ela introduz é a noção de horizonte perfeito que é a superfície de qualquer líquido sem movimento. E na terceira fase tem um líquido em movimento saindo de uma torneira. A pia está inclinada, o que contradiz a relação da queda d’água, mas o líquido é vermelho, o que nos conduz à primeira sala. (...) Enfim a idéia era criar uma circularidade onde uma coisa fosse jogando para outra, uma fase jogasse para outra, mas não explicasse nada.’” (link). Claro que não experenciei nada disso dessa forma, pela via intelectual, mas sim pelo sensorial mesmo, daí a fuga do terceiro ambiente, em que o contraste entre a penumbra e a cor vermelha termina por acentuá-la, até fazê-la insuportável, sem contar o isolamento de cada um desses elementos em relação ao conjunto saturado que se viu no primeiro ambiente.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Inhotim, Brumadinho, 2007


Excelente passeio! Inhotim é o nome do Museu de Arte Contemporânea localizado em Brumadinho-MG, próximo a BH. Segue o link do site oficial. O único porém é a alimentação - na época, o único lugar que se podia chamar de restaurante estava muito além de nosso poder aquisitivo, e a gente (a turminha do doutorado, quer dizer, a turminha do doutorado que eu invadi, a de 2007, pois a minha, de 2006, se desintegrou) se distraiu com uns lanches. Mas também um dia só não mata, né? Foto da turminha? Ficou tremida... Imagens de Inhotim? Aos montes na net. Claro que me deitei numa das redes da instalação abaixo, e fiquei sentindo, ou curtindo, o ambiente e sua estranha sonoridade: 

Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, Cosmococa 5 Hendrix War, 1973

Jardins

domingo, 18 de abril de 2010

No Direction Home: Bob Dylan

Assisti ao documentário "No Direction Home", de Martin Scorsese, sobre Bob Dylan, abarcando suas origens como garoto de classe média e as primeiras influências musicais até o momento em que estoura, e faz uma mudança radical de trajetória, ao abandonar a "canção de protesto" para explorar a sonoridade de suas próprias criações. Preciso assistir novamente para apreender melhor aquela riqueza toda, os detalhes. Trata-se de um documentário i-m-p-e-r-d-í-v-e-l para aqueles que têm curiosidade e interesse em saber como se forjou um dos maiores ícones do rock. Segue uma pequena resenha pelo UOL cinema.


quinta-feira, 8 de abril de 2010

um trecho de "Raízes do Brasil"

"A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem." (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 31).

Obs: este é o parágrafo introdutório de Raízes do Brasil, cuja primeira edição data de 1936. Nas edições seguintes, foi modificado pelo autor. A noção de desterro vai aparecer numa canção célebre assinada pelo seu filho, Francisco Buarque de Holanda, em parceria com Tom Jobim - Sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá 


Fonte: site oficial de Chico Buarque de Holanda

domingo, 4 de abril de 2010

Millôr


NÓS, OS TEMULENTOS: Guimarães Rosa

NÓS, OS TEMULENTOS

"Entendem os filósofos que nosso conflito essencial e drama talvez único seja mesmo o estar-no-mundo. Chico, o herói, não perquiria tanto. Deixava de interpretar as séries de símbolos que são esta nossa outra vida de aquém-túmulo, tãopouco pretendendo ele próprio representar de símbolo; menos, ainda, se exibir sob farsa. De sobra, afligia-o a corriqueira problemática quotidiana, a qual tentava, sempre que possível, converter em irrealidade. Isto, a pifar, virar e andar, de bar a bar.
Exercera-se num, até as primeiras duvidações diplópicas:  ‘Quando... — levantava doutor o indicador — ... quando eu achar que estes dois dedos aqui são quatro’... Estava sozinho, detestando a sozinhidão. E arejava-o, com a animação aquecente, o chamamento de aventuras. Saiu de lá já meio proparoxítono.
E, vindo Noé, pombinho assim, montado-na-ema, nem a calçada nem a rua olhosa lhe ofereciam latitude suficiente. Com que, casual, por ele perpassou um padre conhecido, que retirou do breviário os óculos, para a ele dizer: — Bêbado, outra vez... — em pito de pastor a ovelha. — É? Eu também... — o Chico respondeu, com, báquicos, o melhor soluço e sorriso.
E, como a vida é também alguma repetição, dali a pouco de novo o apostrofaram: — Bêbado, outra vez? E: — Não senhor... — o Chico retrucou —... ainda é a mesma.
E, mais três passos, pernibambo, tapava o caminho a uma senhora, de paupérrimas feições, que em ira o mirou, com trina espetos. — Feia! — o Chico disse; fora-se-lhe a galanteria. — E você, seu bêbado!? — megerizou a cuja. E, aí, o Chico: — Ah, mas... Eu?... Eu, amanhã, estou bom...
E, continuando, com segura incerteza, deu consigo noutro local, onde se achavam os copoanheiros, com método iam combeber. Já o José, no ultimado, errava mão, despejando-se o preciosíssimo líquido orelha adentro. — Formidável! Educaste-a?  — perguntou o João, de apurado falar. — Não. Eu bebo para me desapaixonar... Mas o Chico possuía outros iguais motivos: — E Eu para esquecer...  Esquecer o quê?  Esqueci.
E, ao cabo de até que fora-de-horas, saíram, Chico e João empunhando o José, que tinha o carro. No que, no ato, deliberaram, e adiaram, e entraram, ora em outra porta, para a despedidosa dose. João e Chico já arrastando o José, que nem a um morto proverbial. — Dois uísques, para nós... — Chico e João pediram — e uma coca-cola aqui para o amigo, porque é ele quem vai dirigir...
E — quem sabe como e a que poder de meios — entraram no auto, pondo-o em movimento. Por poucos metros: porque havia um poste. Com mais o milagre de serem extraídos dos escombros, salvos e sãos, os bafos inclusive. — Qual dos senhores estava na direção? — foi-lhes perguntado. Mas: — Ninguém nenhum. Nós todos estávamos no banco de trás...
E, deixado o José, que para mais não se prezava, Chico e João precisavam vagamente de voltar a casas. O Chico, sinuoso, trambecando; de que valia, em teoria, entreafastar tanto as pernas? Já o João, pelo sim, pelo não, sua marcha ainda mais muito incoordenada. — Olhe lá: eu não vou contar a ninguém onde foi que estivemos até agora... — o João predisse, epilogava. E ao João disse o Chico: — Mas, a mim, que sou seu amigo, você não podia contar?
E, de repente, Chico perguntou a João: — Se é capaz, dê-me uma razão para você se achar neste estado?! Ao que o João obtemperou: — Se eu achasse a menorzinha razão, já tinha entrado em lar — para minha mulher ma contestar...
E, desgostados com isso, João deixou Chico e Chico deixou João. Com o que, este penúltimo, alegre, embora física e metafisicamente só, sentia o universo: chovia-se-lhe. — Sou como Diógenes e as Danaides... — definiu-se, para novo prefácio. Mas, com alusão a João: — É isto... Bêbados fazem muitos desmanchos... — se consolou, num tambaleio. Dera de rodear caminhos, semi-audaz em qualquer rumo. E avistou um avistado senhor e com ele se abraçou: — Pode-me dizer onde é que estou?  Na esquina de 12 de setembro com 7 de outubro.  Deixe de datas e detalhes! Quero saber é o nome da cidade...
E atravessou a rua, zupicando, foi indagar de alguém: — Faz favor, onde é que é o outro lado?  Lá... — apontou o sujeito. — Ora! Lá eu perguntei, e me disseram que era cá...
E retornou, mistilíneo, porém, porém. Tá que caiu debruçado em beira de um tanque, em público jardim, quase com o nariz na água — ali a lua, grande, refletida: — Virgem, em que altura eu já estou!... E torna que, se-soerguido, mais se ia e mais capengava, adernado: pois a caminhar com um pé no meio-fio e o outro embaixo,na sarjeta. Alguém, o bom transeunte, lhe estendeu a mão, acertando-lhe a posição. — Graças a Deus! — deu. — Não é que eu pensei que estava coxo?
E, vai, uma árvore e ele esbarraram, ele pediu muitas desculpas. Sentou-se a um portal, e disse-se, ajuizado: — É melhor esperar que o cortejo todo acabe de passar...
E, adiante mais, outra esbarrada. Caiu: chão e chumbo. Outro próximo prestimou-se a tentar içá-lo. — Salve primeiro as mulheres e as crianças! — protestou o Chico. — Eu sei nadar...
E conseguiu quadrupedar-se, depois verticou-se, disposto a prosseguir pelo espaço o seu peso corporal. Daí, deu contra um poste. Pediu-lhe: — Pode largar meu braço, Guarda, que eu fico em pé sozinho... Com susto, recuou, avançou de novo, e idem, ibidem, itidem, chocou-se; e ibibibidem. Foi às lágrimas: — Meu Deus, estou perdido numa floresta impenetrável!
E, chorando, deu-lhe a amável nostalgia. Olhou com ternura o chapéu, restando no chão: — Se não me abaixo, não te levanto. Se me abaixo, não me levanto. Temos de nos separar, aqui...
E, quando foi capaz de mais, e aí que o interpelaram: — Estou esperando o bonde... — explicou. — Não tem mais bonde, a esta hora. E: — É? Então, por que é que os trilhos estão aí no chão?
E deteve mais um passante e perguntou-lhe a hora. Daí: — Não entendo... — ingrato resmungou. — Recebo respostas diferentes, o dia inteiro.
E não menos deteve-o um polícia: — Você está bebaço borracho!  Estou não estou...  Então, ande reto nesta linha do chão.  Em qual das duas?
E foi de ziguezague, veio de zaguezigue. Viram-no, à entrada de um edifício, todo curvabundo, tentabundo. — Como é que o senhor quer abrir a porta com um charuto?  É... Então, acho que fumei a chave...
E, hora depois, peru-de-fim-de-ano, pairava ali, chave no ar, na mão, constando-se de tranquilo terremoto. — Eu? Estou esperando a vez da minha casa passar, para poder abrir... Meteram-no adentro.
E, forçando a porta do velho elevador, sem notar que a velha cabine se achava para lá em cima, caiu no poço. Nada quebrou. Porém: — Raio de ascensorista! Tenho certeza que disse: — Segundo andar!
E, desistindo do elevador, embriagatinhava escada acima. Pode entrar no apartamento. A mulher esperava-o de rolo na mão. — Ah, querida! Fazendo uns pasteizinhos para mim? — o Chico se comoveu.
E, caindo em si e vendo mulher nenhuma, lembrou-se que era solteiro, e de que aquilo seriam apenas reminiscências de uma antiquíssima anedota. Chegou ao quarto. Quis despir-se, diante do espelho do armário: — Quê?! Um homem aqui, nu pela metade? Sai, ou te massacro!
E, avançando contra o armário, e vendo o outro arremeter também ao seu encontro, assestou-lhe uma sapatada, que rebentou com o espelho nos mil pedaços de praxe. — Desculpe, meu velho. Também, quem mandou você não tirar os óculos? — o Chico se arrependeu.
E, com isso, lançou; tumbou-se pronto na cama; e desapareceu de si mesmo.

ROSA, João Guimarães. Tutaméia: terceiras estórias. Ficção completa, vol. II. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1995, p. 623-625.  

sábado, 3 de abril de 2010

"Lá, nas campinas" - trecho de um conto de Guimarães Rosa

"Tudo era esquecimento, menos o coração. — 'Lá, nas campinas!...' — um morro de todo limite. O sol da manhã sendo o mesmo da tarde. / Então, ao narrador foge o fio. Toda estória pode resumir-se nisto: — Era uma vez uma vez, e nessa vez um homem. Súbito, sem sofrer, diz, afirma: — 'Lá...' Mas não acho as palavras." 


ROSA, João Guimarães. Tutaméia: terceiras estórias. Ficção completa, v. II. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995, p. 607.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

"O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo" - um conto de Guimarães Rosa

Famigerado
João Guimarães Rosa

Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranquilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.
Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.
Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos — coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.
Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:
"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."
Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.
— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."
Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:
— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."
Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:
— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é:     fasmisgerado...    faz-megerado...   falmisgeraldo...    familhas-gerado...?
Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?
— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."
Se sério, se era. Transiu-se-me.
— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:
 Famigerado?
— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:
— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."
Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
 Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...
— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"
 Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...
— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"
Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...
— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.
Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.
(Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d, p. 13-17)

sábado, 20 de março de 2010

"Através" - Cildo Meireles - Inhotim

O Museu de Arte Contemporânea de Inhotim (Brumadinho-MG) possui uma galeria exclusiva para o artista plástico Cildo Mireles, em caráter permanente. Uma de suas instalações mais intrigantes é "Através". Segue a imagem:

Cildo Meireles, Através, 1938-1989, materiais diversos, 600 x 1500 x 1500 cm, foto: Pedro Motta

Trata-se de uma obra em que se é convidado a entrar, com sapatos fechados, em virtude dos cacos de vidro espalhados pelo chão, em que diferentes barreiras - feitas com os materiais mais distintos - são atravessadas, ou não. E é claro que o impacto fica por conta de reconhecer naquelas barreiras diferentes situações pelas quais se passa no cotidiano - muros, grades, cortinas, cercas, portas, portões etc. Atravessá-las é uma experiência de auto-reconhecimento. Segue a sinopse tal qual fornecida pelo site:

"Através está entre as obras de Cildo Meireles nas quais, por meio de jogos formais com materiais cotidianos, o artista lida com questões mais amplas, como a nossa maneira de perceber o espaço e, em última análise, o mundo. Trata-se de uma coleção de materiais e objetos utilizados comumente para criar barreiras, com os mais diferentes tipos de usos e cargas psicológicas: de uma cortina de chuveiro a uma grade de prisão, passando por materiais de origem doméstica, industrial, institucional. Sempre em dupla, os elementos se organizam com rigor geométrico sobre um chão de vidro estilhaçado, oferecendo diferentes tipos de transparência para os olhos, que à distancia penetra a estrutura. O convite é que o corpo experimente de perto esta estrutura, descobrindo e deixando para trás novas barreiras. Com sua conformação labiríntica e experiência sensorial de descoberta, Através e seus obstáculos aludem às barreiras da vida e ao nosso desejo, nem sempre claro, de superá-las."

quarta-feira, 10 de março de 2010

um trecho de Clarice Lispector

"[...] eu  é apenas uma das palavras que se desenha enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de encontrar forma mais adequada." (A descoberta do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 210).

terça-feira, 9 de março de 2010

fuso horário

Descobri nas configurações o que estava criando um descompasso entre minhas postagens e o horário em que eram registradas: a coisa aqui estava calibrada para o "fuso horário do Pacífico"..., o que, note-se, não é de todo mal, afinal o nome "pacífico" sugere-me coisas que há muito venho buscando, e a própria imagem do "Oceano Pacífico" é bastante excitante para a imaginação - todo um oceano de palavras e ideias a meu dispor, que eu posso pacificamente (mas nem sempre, em virtude de eventuais tempestades e outros fenômenos da natureza que volta e meia, e cada vez mais frequentemente, a televisão vem noticiando por lá) ordenar, organizar, desorganizar, rearranjar, linkar, ligar, desligar, submeter, transtornar, criar, delinear... Bem, descoberto o lapso (meu, evidentemente, fruto de uma distração "cada vez mais" assídua), calibrei para São Paulo, e já percebi que todos os horários foram acertados. Mas me ocorre de repente: será que o trânsito e o caos de sumpaulo vão emperrar as ideias por aqui? E será que essa obssessão pelo horário real teria algum fundamento? Mudei de ideia, acabo de voltar para o Pacífico e sua vastidão encantadora. Mesmo porque isso acrescenta um quê de mistério a tudo.

Por-do-sol sobre o Oceano Pacífico

domingo, 7 de março de 2010

Emily Dickinson

Não sou ninguém! Quem é você? 
Ninguém - Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas: Ed. da Unicamp, 2008, p. 41.

sábado, 6 de março de 2010

Cacaso

E com vocês a modernidade

Meu verso é profundamente romântico.
Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores ciganos.

Ai que saudade que tenho de meus negros verdes
anos!

HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). 26 poetas hoje.  Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007, p.42.