Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 5 de abril de 2014
terça-feira, 1 de abril de 2014
"escravos de jó", canção censurada do álbum "milagre dos peixes", gravada posteriormente como "caxangá" por elis regina
Milton Nascimento e Fernando Brant
Sempre no coração
haja o que houver
a fome de um dia poder
morder a carne dessa mulher
Veja bem meu patrão
como pode ser bom
você trabalharia no sol
e eu tomando banho de mar
Luto para viver
vivo para morrer
enquanto a minha morte não vem
eu vivo de brigar contra o rei
Em volta do fogo
todo o mundo abrindo jogo
conta o que tem pra contar
casos e desejos
coisas dessa vida e da outra
mas nada de assustar
quem não é sincero
sai da brincadeira correndo
pois pode se queimar, queimar
Saio do trabalh-ei
volto pra cas-ei
não lembro de canseira maior
em tudo é o mesmo suor
Murilo Mendes
A VISIBILIDADE
Passar ignorado dos homens, das palavras,
Ignorado das águas, do demônio,
Ignorado dos personagens da história,
Ignorado até de Deus,
Até dos pássaros, das pedras.
Mas a luz se desfaz em vaia.
Os demônios mostram o seio em arco
— Arco de sua vitória exclusiva —,
As águas exigem um carinho,
Do contrário te afogarão.
As pedras exigem teu amor
— Vives em cima delas —
Do contrário te apedrejarão,
Apedrejarão
Quem quiser viver no ar.
MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.233.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Paul Géraldy
MEDITAÇÃO
A gente
começa a amar
Por simples curiosidade,
Por ter lido num olhar
Certa possibilidade.
Por simples curiosidade,
Por ter lido num olhar
Certa possibilidade.
E como, no
fundo, a gente
Se quer muito bem,
Ama quem a ama somente
Pelo gosto igual que tem.
Se quer muito bem,
Ama quem a ama somente
Pelo gosto igual que tem.
Pelo amor
de amar começa
A repartir dor por dor.
E se habitua depressa
A trocar frases de amor.
A repartir dor por dor.
E se habitua depressa
A trocar frases de amor.
E, sem
pensar, vai falando
De novo as que já falou…
E então continua amando
Só porque já começou.
De novo as que já falou…
E então continua amando
Só porque já começou.
Poetas de França. Trad. Guilherme de Almeida. 5.ed.
São Paulo: Babel, s/d, p.161.
domingo, 30 de março de 2014
o poder
Michel Foucault.
— Esta dificuldade — nosso embaraço em encontrar as formas de luta adequadas —
não virá de que ainda ignoramos o que é o poder? Afinal de contas, foi preciso
esperar o século XIX para saber o que era a exploração, mas talvez ainda não se
saiba o que é o poder. E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos
ajudar a conhecer esta coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e
invisível, presente e oculta, investida em toda parte, que se chama poder. A
teoria do Estado, a análise tradicional dos aparelhos de Estado sem dúvida não
esgotam o campo de exercício e de funcionamento do poder. Existe atualmente um
grande desconhecido: quem exerce o poder? Onde o exerce? Atualmente se sabe,
mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e
onde ele se reinveste, mas o poder... Sabe-se muito bem que não são os
governantes que o detêm. Mas a noção de "classe dirigente" nem é
muito clara nem muito elaborada. "Dominar", "dirigir", "governar",
"grupo no poder", "aparelho de Estado", etc., é todo um
conjunto de noções que exige análise. Além disso, seria necessário saber até
onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que instâncias, frequentemente
ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder,
ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele
sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro;
não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.
sábado, 29 de março de 2014
a aula inaugural de clarice
“À fraternidade e solidariedade dramatizadas na
literatura oitocentista, Clarice erige o lugar
da solidão como o laboratório experimental onde se pode melhor trabalhar as
injustiças da sociedade contemporânea, envolvendo os materiais de trabalho —
homens e coisas em estado de palavra — num clandestino amor.” Silviano Santiago, “A aula inaugural de
Clarice”.
quinta-feira, 27 de março de 2014
asterismo
Já me disseram que eu complico demais as coisas...
Fazendo uma analogia para traduzir a ingenuidade do pensamento, considere-se o
jogo de ligar os pontos. Há os que têm menos pontos a unir, ou os pontos estão
dispostos de forma tal a dar rapidamente uma figura reconhecível ou dominável
pelo imaginário. Eu tenho mais, muitos aliás, pontos a unir, e eles não chegam
a formar uma figura, muito menos com sentido facilmente reconhecível — pelo
menos até agora.
quarta-feira, 26 de março de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
a palavra "desejo"
CHAUÍ, Marilena. Laços do desejo. In: NOVAES, Adauto (Org.).
O desejo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.22-23.
domingo, 23 de março de 2014
sábado, 22 de março de 2014
mar – gens
Cuspi na zona de espraiamento — aquela parte mágica da
praia em que se caminha molhando a pequenos intervalos os pés —, e fiquei
esperando a onda que viria integrar aquela parte desprezível de mim ao suco
salgado do mar.
Manuel Bandeira
A LUA
A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
O mar jaz como um céu tombado.
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida
inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.238.
sexta-feira, 21 de março de 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
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