
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
Paulo Henriques Britto: "Nem tudo que fui se aproveita"
QUEIMA DE
ARQUIVO
Houve um tempo em que eu amava
em cada corpo o reflexo
do que eu queria ter sido.
No fundo do sexo eu buscava
o meu desejo perdido.
Acabei achando o outro
que em mim mesmo destruí.
Foi fácil reconhecê-lo:
de tudo que vi em seu rosto
somente o ódio era belo.
Esse morto adolescente
implacável e virginal
não me perdoa a desfeita.
Não faz mal. Eu sigo em frente.
Nem tudo que fui se aproveita.
Paulo Henriques Britto. Mínima lírica. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013,
p.80.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
páscoa
Tive uma páscoa
maravilhosa, sem precisar de chocolate — e sem precisar lembrar que era páscoa.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
cansaço
No cansaço do final do dia —
E é sempre um cansaço denso —
Surge no horizonte a poesia
Trazendo à noite outro tom de intenso.
domingo, 13 de abril de 2014
Manuel Bandeira
A ESTRELA
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1993, p.174.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
Milguel Marvilla
INSTANTE
Estamos ressurgindo.
Estou aberto
e pleno neste instante irrepetível.
O mundo
acontece, estou vivo,
preparo minha
permanência:
repito meu
papel mil vezes diante do espelho.
Acompanho a
linha que meus olhos produzem à cata
de uma
estrela há muito morta
e sei que
sou, de novo, real.
Este brilho
em teu olhar, no entanto, instaura a dúvida:
um de nós
é sonho. Mas qual?
Miguel Marvilla.
Lição de labirinto. Vitória: Fundação
Ceciliano Abel de Almeida, 1989, p.87.
terça-feira, 1 de abril de 2014
"escravos de jó", canção censurada do álbum "milagre dos peixes", gravada posteriormente como "caxangá" por elis regina
Milton Nascimento e Fernando Brant
Sempre no coração
haja o que houver
a fome de um dia poder
morder a carne dessa mulher
Veja bem meu patrão
como pode ser bom
você trabalharia no sol
e eu tomando banho de mar
Luto para viver
vivo para morrer
enquanto a minha morte não vem
eu vivo de brigar contra o rei
Em volta do fogo
todo o mundo abrindo jogo
conta o que tem pra contar
casos e desejos
coisas dessa vida e da outra
mas nada de assustar
quem não é sincero
sai da brincadeira correndo
pois pode se queimar, queimar
Saio do trabalh-ei
volto pra cas-ei
não lembro de canseira maior
em tudo é o mesmo suor
Murilo Mendes
A VISIBILIDADE
Passar ignorado dos homens, das palavras,
Ignorado das águas, do demônio,
Ignorado dos personagens da história,
Ignorado até de Deus,
Até dos pássaros, das pedras.
Mas a luz se desfaz em vaia.
Os demônios mostram o seio em arco
— Arco de sua vitória exclusiva —,
As águas exigem um carinho,
Do contrário te afogarão.
As pedras exigem teu amor
— Vives em cima delas —
Do contrário te apedrejarão,
Apedrejarão
Quem quiser viver no ar.
MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.233.
segunda-feira, 31 de março de 2014
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