Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 21 de outubro de 2017
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
Mário de Andrade - Quarenta Anos
A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.
Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar… Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado… Horrendo
Disso, persisto em me enganar… Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado… Horrendo
Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.
Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!… Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.
Oh sono, vem!… Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.
Poesias completas, vol.1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013,
p. 437-438. [1933]
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
quinta-feira, 7 de setembro de 2017
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
degradação
Tenho um perfil mais ou menos consolidado na profissão
docente, uma espécie de respeito associado ao bom convívio com os/as estudantes
e os/as colegas de profissão. Pois bem. Ontem uma estudante da 3ª série do
ensino médio conseguiu se superar. Venho percebendo o descaso de parte de uma
turma de 3ª série com a disciplina de Português e Literatura, no retorno das
aulas após o recesso do meio do ano. Ontem decidi não esperar mais e coloquei a
roda para girar. Uma estudante continuou no pátio, depois de me ver subindo
para a turma, enquanto alguns outros estavam simplesmente à deriva, numa postura
que vem se repetindo nas últimas semanas. Quando retornei da sala para mandar
um grupo de atrasados à bedelaria, a estudante lançou mão de alguns argumentos
curiosos. Um deles foi sintomático da crise que atravessa o Brasil: Mas minha
mochila está na sala, professora. Numa semana em que discuti o poema “O
cacto” de Manuel Bandeira, paralelamente à presença dessa estranha forma de
vida na pintura modernista brasileira, uma estudante me diz que tem coisas mais
importantes a fazer do que assistir à aula, e pede que eu seja compreensiva,
pois, afinal, sua mochila está na sala.
terça-feira, 1 de agosto de 2017
também escrevo versos (quem não o faz, afinal?)
entre
o ar
e
o mar
há uma linha
que se vê ao longe,
uma letra que se dobra,
e um azul
que se quer
cor do horizonte
terça-feira, 27 de junho de 2017
Brasil: o que dizer?
Antes estava acompanhando o noticiário, e sofrendo muito. Agora
compreendi que o que se passa no Brasil é um filme de terror, e saí da sessão.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
terça-feira, 18 de abril de 2017
Cecília Meireles - Neste longo exercício de alma...
Ciência,
amor, sabedoria,
— tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
(Imensamente fora do nosso alcance!)
Desmancha-se
o átomo,
domina-se a lágrima,
domina-se a lágrima,
vence-se
o abismo:
— cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
— cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.
Cecília
Meireles. Antologia poética. 3.ed.
São Paulo: Global, 2013, p.309.
sábado, 15 de abril de 2017
até que um dia
Viver é estar cercado por pessoas que
podem morrer a qualquer momento, até que uma dia chega o momento em que tudo deixará
de fazer sentido.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
incipiente
Eu
escreveria um livro com o título: “A Incrível Capacidade das Mulheres pra Fazer
Besteira”. Subtítulo: “quando o assunto é homem”. Meu Deus, que lástima!
quarta-feira, 15 de março de 2017
sábado, 21 de janeiro de 2017
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
2016
2016 não para de matar gente bacana e nos lembrar constantemente da
existência de homens sórdidos.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
distopia
A série Black Mirror mexeu mais comigo que a própria tecnologia que ela encena e questiona.
A distopia é o destino ingrato em direção à Singularidade. Não sou mais a mesma
depois de assistir a duas temporadas.
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
#ocupatudo: isso é política sim, Geraldo!
Das muitas coisas acontecendo: a escola em que trabalho como docente está OCUPADA.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
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