Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 3 de maio de 2025

ELVIRA VIGNA - "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas"

PARTE ALGUMA - Ana Martins Marques

Não te enganes: viajar é aborrecido. 

Num ponto, ao menos, todos os lugares 

se parecem: neles já se passou 

algo terrível. 

As viagens cansam 

e são tristes. 

Viajando apenas constatamos 

a repetição tediosa do que existe. 

Pois para onde quer que compremos passagem 

levamos a nós mesmos na bagagem. 

Viajar é conduzir o corpo 

esse comboio imundo  

a um estéril atrito com o mundo 

e depois passar o dia inteiro 

usando a língua como quem usa dinheiro. 

Nem a página em branco dos desertos 

nem as savanas e sua promessa de aventura 

substituem uma hora de leitura. 

Mesmo as longas praias e as montanhas 

mesmo os sítios inflacionados de história 

mesmo as pirâmides os oráculos a arte 

e o lugar preciso para se ver 

do melhor ângulo 

o sol se pôr como se põe em toda parte 

serão depois riscados da memória. 

Mais vale afinal ficar em casa 

se é que se tem uma 

e enviar-te este postal 

de parte alguma. 

 

MARQUES, Ana Martins. Risque esta palavra: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p.56-57.  

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Armando Freitas Filho (1940-2024)

 VIAGEM 

Pregado no céu, o gavião feito 

de paciência e espaço 

permanece cruzando, quase único 

a estrada que atravessa, e toca 

nos possíveis violinos silvestres 

que o vento afina lá dentro 

da mata veloz que passa  

na janela do carro: zás, zap 

na paisagem ― a decisão do azul. 

Asas paradas e o olhar duro que 

o asfalto e a distância alimentam. 

 

Boa companhia: poesia (Org. José Almino). São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.99. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Gaza

 

Poeta, tradutor, ensaísta, professor e atual diretor da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) 

domingo, 19 de novembro de 2023

morte

Se tivesse morrido até a última quarta-feira, morreria ignorando que existe no mundo uma cantora pop chamada Taylor Swift. Sua passagem pelo Brasil deixou dois fãs mortos. Uma fã, Ana Benevides, morreu de desidratação, ao que tudo indica. Ana era da cidade de Sonora, interior do estado de Mato Grosso do Sul. Essa morte tem tantas camadas de capitalismo que é difícil assimilar. A morte precisa ser respeitada, para que a vida o seja. Ela, a morte, tem me rondado. Mas algumas coisas me empurram a continuar. A arte, as cores, a fotografia, a sonoridade e a poesia das canções, como esta, interpretada por dois lindos que já se foram. Fada canção.

CLARICE E MANUEL

― você também veio para aqui...
― sim, caí como letra viva na página em branco ― e abri a porta.

poesia

A poesia é feita com as sobras da vida. Não serve para nada. Mas, sem ela, as sobras se acumulam.

CONVIVO MUITO BEM COM OS CÃES DA RUA - RICARDO ALEIXO

Convivo muito bem com os cães da rua. 

Me apraz o velho e bom modo de vida 

que os faz, sem ter do que cuidar na vida, 

medir distâncias de uma a outra rua. 

 

Comparto com os cães o ar da rua. 

Se um deles me dirige um riso cardo, 

como quem dissesse “E aí, Ricardo?”, 

respondo-lhe: “Olá, irmão!”. E a rua, 

 

que até há pouco era só mais uma rua 

por onde vadiavam um cão e um bardo 

(cada um caçando, do seu jeito, a vida), 

 
me obriga a distinguir, nela, o que é vida 

real do que será, quem sabe, um tardo 

sinal do quão são irreais o cão e a rua. 


ALEIXO, Ricardo. Pesado demais para a ventania: antologia poética. São Paulo: Todavia, 2018, p.149.