Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 31 de outubro de 2026

DIANTE - Francisco Alvim

História tão obscura

a deste país

Pensou,

o olhar paralítico

diante do espelho

de si para si

de dentro para dentro


Tal fora uma cobra

sucuri enorme

no charco mais fundo

da densa floresta

nestes brasis

de sombra e de sol

violentos


E o tempo dele

de fora e de dentro

fora o movimento de um corpo

nas águas mortas

de um morto


ALVIM, Francisco. O metro nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 63.

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