Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Emily Dickinson

O Paraíso é uma escolha.
Os que querem terão
Lugar no Éden não obstante
O Exílio de Adão.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 197.

matéria vertente

Há certos acidentes pessoais que a gente absolutamente não entende, e mesmo lamenta. No entanto, na economia de alguma coisa que nem sempre se alcança apreender, eles estão cumprindo um papel, que a palavra "aprendizado" não dá conta. O que acontece é algo mais profundo: é como se o ser fosse reconfigurado, e uma nova disposição para a vida surgisse. Isso às vezes assusta, pois dá trabalho se reconhecer nessa nova configuração. O tempo aí entra como uma estranha matéria da tessitura fina e delicada do viver: ele age nos fazendo constantemente outros, mas não comporta um movimento linear. É precioso o que se tem em mãos - e que transformamos, por uma simplificação que cotidianamente nos obriga a uma esquematização ("dorme", "acorda", "levanta"), transformamos no que se chama vida. O que se tem em mãos é muito mais, e não conheço expressão melhor que aquela de Guimarães Rosa - "matéria vertente". Um amigo filósofo dizia se espantar com a crônica "Uma esperança", da Clarice Lispector, e que é o próprio paradoxo do marcador deste post: "pessoal intransferível". Ela está falando de uma coisa muito íntima, e no entanto a gente se reconhece naquela experiência, ou na escrita daquela experiência - não parece possível separar uma coisa da outra. Ali a matéria vertente é o próprio inseto que de repente pousa, movendo signos e pessoas ao seu redor pelo potencial metafórico que encerra - mas é também o olhar que reconhece, no inseto, a metáfora - "lá estava ela, e mais magra e verde não podia ser". Quem, depois de conhecer essa crônica, pode ficar imune à presença de uma esperança? Ainda mais se o insetinho aparecer de manhã bem cedo, num dia cheio de promessas. 

domingo, 25 de julho de 2010

Drummond - o observador no escritório

Janeiro, 22 [1951] - Tarde de chuva fina, no centro. Junto à livraria, observo minuciosamente as ruínas do tempo, que me sorriem. Para não sofrer com o espetáculo, preferia fechar os olhos. Eles, porém, inspecionam por conta própria, máquina fotográfica a funcionar independente de mim. Chove no passado, chove na memória. O tempo é o mais cruel dos escultores, e trabalha no barro.

ANDRADE, Carlos Drummond de. O observador no escritório. Rio de Janeiro: Record, 1985, p. 97. 

sábado, 24 de julho de 2010

"Não Sonho Mais": Chico Buarque (Paulinho Schoffen)



A canção foi composta em 1979 para o filme A República dos Assassinos, de Miguel Faria Jr. (comentário aqui). A música vira pelo avesso, no sonho do amante do policial corrupto, a violência que este pratica, voltando-a contra ele próprio. É o submundo da ditadura que emerge do sonho. 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Abstrato

Abstrato, Antonio Bandeira, Óleo sobre tela, 1962
Fonte: Arte e Pintura Brasileira - Galeria Virtual de Arte

"Os Filmes Que Não Fiz": lírico, comovente, irônico, divertido...


[Gilberto Scarpa, Brasil, 2008. Ficha completa no Porta-Curtas]

Forma e Conteúdo

“Fala-se da dificuldade entre a forma e o conteúdo, em matéria de escrever; até se diz: o conteúdo é bom, mas a forma não, etc. Mas, por Deus, o problema é que não há de um lado um conteúdo, e de outro a forma. Assim seria fácil: seria como relatar através de uma forma o que já existisse livre, o conteúdo. Mas a luta entre a forma e o conteúdo está no próprio pensamento: o conteúdo luta por se formar. Pra falar a verdade, não se pode pensar num conteúdo sem sua forma. Só a intuição toca na verdade sem precisar nem de conteúdo nem de forma. A intuição é a funda reflexão inconsciente que prescinde de forma enquanto ela própria, antes de subir à tona, se trabalha. Parece-me que a forma já aparece quando o ser todo está com o conteúdo maduro, já que se quer dividir o pensar e o escrever em duas fases. A dificuldade de forma está no próprio constituir-se do conteúdo, no próprio pensar ou sentir, que não saberiam existir sem sua forma adequada e às vezes única.” (Clarice Lispector, A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 254-255).

"Catando a poesia / Que entornas no chão"

Dante Milano

Vazio

Este céu que me leva ao fim de tudo,
Eternidade vista num momento,
Olhar imenso de consolo mudo,
Aparência que lembra o esquecimento...

MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p. 47.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Uma Noite em 67

projeto 365

Informações sobre o Projeto 365 (aqui)

"Cais": show em comemoração aos 35 anos do Clube da Esquina


Cais
Milton Nascimento e Ronaldo Bastos  
  
Para quem quer se soltar 
Invento o cais 
Invento mais que a solidão me dá 
Invento lua nova a clarear 
Invento o amor 
E sei a dor de encontrar 

Eu queria ser feliz 
Invento o mar 
Invento em mim o sonhador 

Para quem quer me seguir 
Eu quero mais 
Tenho o caminho do que sempre quis 
E um saveiro pronto pra partir 
Invento o cais 
E sei a vez de me lançar  

segunda-feira, 19 de julho de 2010

"Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo"



"Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz (seguem algumas críticas do longa: Pipoca Moderna, Época, Fred Burle no Cinema), é um filme sobre a solidão humana. A viagem funciona como recurso de que dispõe o personagem, o geólogo José Renato, para fazer o trabalho de luto pelo fim de uma relação de amor, seu casamento com uma botânica que ele refere o tempo todo como "galega". Aos poucos, fica-se sabendo que a história acabou, e que a viagem é uma tentativa de elaborar o fim. A desolação da paisagem natural confunde-se com o abandono e o sofrimento do personagem. Isso fica claro nas falas sobre geologia: a referência às fissuras das rochas nunca é isenta de uma confluência com as fissuras que atravessam o personagem. Melhor dizendo: a insistência nas fissuras é signo de que, o tempo todo, o geólogo está falando de si, de seu sofrimento, de suas fraturas. No melhor estilo road movie, o personagem, entre a ficção e o documentário, vai ao encontro de outras histórias de desamparo e solidão, o que lhe permite redimensionar o sofrimento. A viagem sequer parece comportar um retorno, e talvez não haja mesmo qualquer possibilidade de retorno, quando o tempo entra como elemento da paisagem. À dada altura ele diz: "viajo porque preciso, não volto porque ainda te amo". O ponto culminante do filme, não da viagem, é uma verdadeira pérola que faz significar o tempo no contexto da viagem: uma placa no alto de uma espécie de torre, numa cidade prestes a desaparecer pela inundação de uma barragem a ser construída: "HOMENAGEM DO POVO DO SÉCULO XIX AO POVO DO SÉCULO XX". Impossível não rir da ironia que atravessa a singeleza de um gesto que, destinado a ser mais que o tempo, é também por ele devorado.

domingo, 18 de julho de 2010

Julio Cortázar

Trabalhos de escritório

Minha fiel secretária é das que tomam sua função ao pé da letra, e já se sabe que isso significa passar para o outro lado, invadir territórios, enfiar os cinco dedos no copo de leite para tirar um pobre cabelinho.
Minha fiel secretária se ocupa ou pretenderia ocupar-se de tudo em meu escritório. Passamos o dia travando uma cordial batalha de jurisdições, um intercâmbio sorridente de minas e contraminas, de saídas e retiradas, de prisões e resgates. Mas ela tem tempo para tudo, não só procura apropriar-se do escritório como cumpre escrupulosamente suas funções. Por exemplo, as palavras, não há dia que não as encere, as escove, as coloque na prateleira exata, as prepare e as enfeite para suas obrigações cotidianas. Se me vem à boca um adjetivo prescindível porque todos eles nascem fora da órbita de minha secretária ― e de certa maneira de mim mesmo ―, já está ela de lápis na mão agarrando-o e o matando sem lhe dar tempo de colocar-se ao restante da frase e sobreviver por descuido ou por hábito. Se eu deixasse, se neste mesmo instante eu deixasse, ela jogaria estas folhas na cesta, enfurecida. Está tão decidida a que eu viva uma vida condenada, que qualquer movimento imprevisto a leva a erguer-se, toda orelhas, toda rabo em pé, tremendo como um arame ao vento. Tenho que disfarçar, e a pretexto de que estou redigindo um relatório, encher algumas folhinhas de papel cor-de-rosa ou verde com as palavras que eu gosto, com as suas brincadeiras, os seus saltos e as suas brigas raivosas. Enquanto isso, minha fiel secretária arruma o escritório, aparentemente distraída mas pronta para dar o bote. Na metade de um verso que nascia tão contente, pobrezinho, eu a ouço começar seu horrível guincho de censura, e então meu lápis volta a galope às palavras proibidas, risca-as correndo, ordena a desordem, fixa, limpa, dá esplendor ― e o que sobra é provavelmente muito bom, mas essa tristeza, esse gosto de traição na língua, essa cara de chefe com sua secretária.

CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Trad. Gloria Rodríguez. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 47-48.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bandeira

Nietzschiana

― Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
― Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 162.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Leraning to Fly (Pink Floyd): "A soul in tension that's learning to fly"


hoje é dia mundial do rock!

Fonte da imagem: Acid Fingers 
(ouça o melhor do rock na Rádio UOL)

os quatro elementos: Fernando Pessoa e o esoterismo

“Apesar de ter afirmado não haver pertencido a qualquer Ordem Iniciática, o interesse de Fernando Pessoa por ocultismos pronunciou-se de diversos modos. Acreditava ‘na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Superior, que presumivelmente criou este mundo’. Este e outros preceitos de que tinha convicções são fundamentos da seita esotérica e magista, Ordem Rosacruz, de que foi simpatizante e estudioso. Resulta daí seu interesse por astrologia. Ergueu não só o mapa astrológico de Portugal, como também de seus três heterônimos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Em apontamentos deixados para servir de prefácio ao seu livro de poemas Ficções de interlúdio, o poeta aborda a influência dos quatro elementos (fogo, água, terra e ar) sobre todas as coisas e sobre a personalidade de Caeiro, para explicar sua existência: ‘Referem-se os astrólogos os efeitos em todas as cousas à operação de quatro elementos - o fogo, a água, o ar e a terra. Com este sentido poderemos compreender a operação das influências. Uns agem sobre os homens como a terra, soterrando-os e abolindo-os, e esses são os mandantes do mundo. Uns agem como o ar, envolvendo-os e escondendo-os uns dos outros, e esses são os mandantes do além-mundo. Uns agem sobre os homens como a água, que os ensopa e converte em sua mesma substância, e esses são os ideólogos e os filósofos, que dispersam pelos outros as energias da própria alma. Uns agem sobre os homens como o fogo, que queima neles todo o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses sãos os libertadores. Caeiro teve essa força. Que importa que Caeiro seja de mim, se assim é Caeiro? Assim operando sobre Reis, que ainda não havia escrito alguma cousa, fez nascer nele uma forma própria e uma pessoa estética. Assim operando sobre mim mesmo, livrou-me de sombras e farrapos, deu-me mais inspiração à inspiração e mais alma à alma. Depois disso, assim prodigiosamente conseguido, quem perguntará se Caeiro existiu?’

um trecho de Clarice Lispector

"Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda." 

"Aprendendo a viver", A descoberta do mundo, Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.160.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

a luz de Caetano - "A Luz de Tieta" (1996)

"Existe alguém em nós / Em muitos dentre nós / Esse alguém / Que brilha mais do que / Milhões de sóis / E que a escuridão / Conhece também / Existe alguém aqui/ Fundo no fundo de você/ De mim/ Que grita pra quem quiser ouvir/ Quando canta assim:/ Eta eta eta eta/ É a lua, é o sol, é a luz de Tieta/ Eta, eta!"