Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 4 de agosto de 2013

Ferreira Gullar

NÓS, LATINO-AMERICANOS
                           À Revolução Sandinista

Somos todos irmãos
mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro
que nos trai.

Somos todos irmãos
não porque dividamos
o mesmo teto e a mesma mesa:
divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos
não porque tenhamos
o mesmo braço, o mesmo sobrenome:
temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.

Somos todos irmãos
não porque seja o mesmo sangue
que no corpo levamos:
o que é o mesmo é o modo
como o derramamos.

Ferreira Gullar. Toda poesia. 19.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010, p.378.

Luciano Candisani

the infidels - slow train: "there's a slow, slow train comin' up around the bend"

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

para ouvir bem alto: "there must be some kind of way out of here"

Giacomo Leopardi

A SI MESMO

Enfim repousas sempre,
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Que em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa espécie o fado
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera
E a vacuidade sem final de tudo.

Cinco séculos de poesia. Org. e trad. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Record, 2013, p.47.

sábado, 27 de julho de 2013

Santa ingenuidade, Batman!

Fernando Pessoa

Onde quer que o arado o seu traço consiga
E onde a fonte, correndo, com a sua água siga
O caminho que, justo, as calhas lhe darão,
Aí, porque há a paz, está o meu coração.
Bem sei que o som do mar vem de além dos outeiros
E que do seu bom som os ímpetos primeiros
Toldam de ser diverso o natural da hora,
Quando o campo a não ouve e a solidão a ignora.
Mas qualquer cousa falsa e vera se insinua
Nos árvores que são vestígios sob a lua.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.309.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Fernando Pessoa: "Eram todos mascarados"

Eram todos mascarados
Porque eram todos gente…
Iam muitos, misturados,
Iam misturadamente…

E sem haver entender
Entre o que um ou outro era,
Ia tudo num viver
Como dentro de uma esfera…

Era um globo de ninguém
Toda aquela mascarada,
Como uma bola que tem
A superfície pintada,

E que rola monte abaixo
Só pelo declive que há.
Se a procuro não n’acho,
Porque rolou para lá…

Para lá aonde acabou
O monte que ali começa…
E em busca dela me vou
Até que o buscar me esqueça.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.321.

uma canção para os anos 60-70 (lô e márcio borges)