Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
terça-feira, 6 de agosto de 2013
domingo, 4 de agosto de 2013
Ferreira Gullar
NÓS, LATINO-AMERICANOS
À Revolução Sandinista
Somos todos irmãos
mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro
que nos trai.
mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro
que nos trai.
Somos todos irmãos
não porque dividamos
o mesmo teto e a mesma mesa:
divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.
não porque dividamos
o mesmo teto e a mesma mesa:
divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.
Somos todos irmãos
não porque tenhamos
o mesmo braço, o mesmo sobrenome:
temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.
não porque tenhamos
o mesmo braço, o mesmo sobrenome:
temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.
Somos todos irmãos
não porque seja o mesmo sangue
que no corpo levamos:
o que é o mesmo é o modo
como o derramamos.
não porque seja o mesmo sangue
que no corpo levamos:
o que é o mesmo é o modo
como o derramamos.
Ferreira Gullar. Toda
poesia. 19.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010, p.378.
Luciano Candisani
Luciano Candisani Photography / Luciano Candisani Fotografia. Reportagem do Almanaque aqui.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Giacomo Leopardi
A SI MESMO
Enfim repousas sempre,
Meu lasso coração. Findo
é o engano
Que perpétuo julguei. Findou.
Bem sinto
Que em nós dos caros
erros
Mais que a esperança, o
próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Nenhuma
coisa vale
Teus impulsos, nem digna
é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e
lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa
espécie o fado
Não deu mais que o
morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o
comum dano gera
E a vacuidade sem final de
tudo.
Cinco
séculos de poesia. Org. e trad. Alexei Bueno. Rio de
Janeiro: Record, 2013, p.47.
domingo, 28 de julho de 2013
sábado, 27 de julho de 2013
Fernando Pessoa
Onde
quer que o arado o seu traço consiga
E onde a fonte, correndo, com a sua água siga
O caminho que, justo, as calhas lhe darão,
Aí, porque há a paz, está o meu coração.
Bem sei que o som do mar vem de além dos outeiros
E que do seu bom som os ímpetos primeiros
Toldam de ser diverso o natural da hora,
Quando o campo a não ouve e a solidão a ignora.
Mas qualquer cousa falsa e vera se insinua
Nos árvores que são vestígios sob a lua.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.309.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Orides Fontela
Vemos por espelho
e enigma
(mas haverá outra forma
de ver?)
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio
de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.341.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Fernando Pessoa: "Eram todos mascarados"
Eram
todos mascarados
Porque eram todos gente…
Iam muitos, misturados,
Iam misturadamente…
Porque eram todos gente…
Iam muitos, misturados,
Iam misturadamente…
E sem haver entender
Entre o que um ou outro era,
Ia tudo num viver
Como dentro de uma esfera…
Entre o que um ou outro era,
Ia tudo num viver
Como dentro de uma esfera…
Era um globo de ninguém
Toda aquela mascarada,
Como uma bola que tem
A superfície pintada,
Toda aquela mascarada,
Como uma bola que tem
A superfície pintada,
E que rola monte abaixo
Só pelo declive que há.
Se a procuro não n’acho,
Porque rolou para lá…
Só pelo declive que há.
Se a procuro não n’acho,
Porque rolou para lá…
Para lá aonde acabou
O monte que ali começa…
E em busca dela me vou
Até que o buscar me esqueça.
O monte que ali começa…
E em busca dela me vou
Até que o buscar me esqueça.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.321.
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