Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Paul Géraldy
MEDITAÇÃO
A gente
começa a amar
Por simples curiosidade,
Por ter lido num olhar
Certa possibilidade.
Por simples curiosidade,
Por ter lido num olhar
Certa possibilidade.
E como, no
fundo, a gente
Se quer muito bem,
Ama quem a ama somente
Pelo gosto igual que tem.
Se quer muito bem,
Ama quem a ama somente
Pelo gosto igual que tem.
Pelo amor
de amar começa
A repartir dor por dor.
E se habitua depressa
A trocar frases de amor.
A repartir dor por dor.
E se habitua depressa
A trocar frases de amor.
E, sem
pensar, vai falando
De novo as que já falou…
E então continua amando
Só porque já começou.
De novo as que já falou…
E então continua amando
Só porque já começou.
Poetas de França. Trad. Guilherme de Almeida. 5.ed.
São Paulo: Babel, s/d, p.161.
domingo, 30 de março de 2014
o poder
Michel Foucault.
— Esta dificuldade — nosso embaraço em encontrar as formas de luta adequadas —
não virá de que ainda ignoramos o que é o poder? Afinal de contas, foi preciso
esperar o século XIX para saber o que era a exploração, mas talvez ainda não se
saiba o que é o poder. E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos
ajudar a conhecer esta coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e
invisível, presente e oculta, investida em toda parte, que se chama poder. A
teoria do Estado, a análise tradicional dos aparelhos de Estado sem dúvida não
esgotam o campo de exercício e de funcionamento do poder. Existe atualmente um
grande desconhecido: quem exerce o poder? Onde o exerce? Atualmente se sabe,
mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e
onde ele se reinveste, mas o poder... Sabe-se muito bem que não são os
governantes que o detêm. Mas a noção de "classe dirigente" nem é
muito clara nem muito elaborada. "Dominar", "dirigir", "governar",
"grupo no poder", "aparelho de Estado", etc., é todo um
conjunto de noções que exige análise. Além disso, seria necessário saber até
onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que instâncias, frequentemente
ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder,
ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele
sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro;
não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.
sábado, 29 de março de 2014
a aula inaugural de clarice
“À fraternidade e solidariedade dramatizadas na
literatura oitocentista, Clarice erige o lugar
da solidão como o laboratório experimental onde se pode melhor trabalhar as
injustiças da sociedade contemporânea, envolvendo os materiais de trabalho —
homens e coisas em estado de palavra — num clandestino amor.” Silviano Santiago, “A aula inaugural de
Clarice”.
quinta-feira, 27 de março de 2014
asterismo
Já me disseram que eu complico demais as coisas...
Fazendo uma analogia para traduzir a ingenuidade do pensamento, considere-se o
jogo de ligar os pontos. Há os que têm menos pontos a unir, ou os pontos estão
dispostos de forma tal a dar rapidamente uma figura reconhecível ou dominável
pelo imaginário. Eu tenho mais, muitos aliás, pontos a unir, e eles não chegam
a formar uma figura, muito menos com sentido facilmente reconhecível — pelo
menos até agora.
quarta-feira, 26 de março de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
a palavra "desejo"
CHAUÍ, Marilena. Laços do desejo. In: NOVAES, Adauto (Org.).
O desejo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.22-23.
domingo, 23 de março de 2014
sábado, 22 de março de 2014
mar – gens
Cuspi na zona de espraiamento — aquela parte mágica da
praia em que se caminha molhando a pequenos intervalos os pés —, e fiquei
esperando a onda que viria integrar aquela parte desprezível de mim ao suco
salgado do mar.
Manuel Bandeira
A LUA
A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
O mar jaz como um céu tombado.
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida
inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.238.
sexta-feira, 21 de março de 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
Carlos Pena Filho
SONETO DAS DEFINIÇÕES
Não falarei das coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito
à música das cores e dos ventos.
Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.
Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.
Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.
Os melhores poemas de Carlos Pena Filho. 4.ed. são Paulo:
Global, 200, p.91.
terça-feira, 18 de março de 2014
Paulo Henriques Britto
Dentro da noite que construo aos
poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o
tédio
que descasco e rejeito, em que
dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou
luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto,
ou como
um outro pano mais definitivo.
Paulo Henriques Britto. Mínima lírica. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013,
p.27.
domingo, 16 de março de 2014
Emily Dickinson
Cirurgiões
precisam ter cautela
Com
sua lâmina afiada –
Por sob as finas incisões se agita
A Vida – essa Culpada!
Surgeons
must be very careful
When
they take the knife!
Underneath
their fine incisions
Stirs the Culprit – Life!
DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras,
2008, p.240-241.
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