Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Murilo Mendes
JUÍZO FINAL DOS OLHOS
Teus olhos vão ser julgados
Com clemência bem menor
Do que o resto do teu corpo.
Teus olhos pousaram demais
Nos seios e nos quadris,
Eles pousaram de menos
Nos outros olhos que existem
Aqui neste mundo de Deus.
Eles pousaram bem pouco
Nas mãos dos pobres daqui
E nos corpos dos doentes.
Teus olhos irão sofrer
Mais que o resto do teu corpo:
Eles não poderão ver
As criaturas mais puras
Que no outro mundo se vê.
MENDES,
Murilo. Poesia completa e prosa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.205.
poesia
“Devo aos poetas de
todos os tempos a sobrevivência de minha alma. [...] A Baudelaire, em cujo
túmulo depositei uma rosa, a fulgurância do raciocínio, a elegância corrosiva
de seu sentimento trágico; a Shakespeare, a iniciação a todas formas humanas
[...]. A Pablo Picasso, a reacomodação do nervo óptico.”
Paulo Mendes Campos. Cisne de feltro. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001, p.18.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Paulo Henriques Britto: "Nem tudo que fui se aproveita"
QUEIMA DE
ARQUIVO
Houve um tempo em que eu amava
em cada corpo o reflexo
do que eu queria ter sido.
No fundo do sexo eu buscava
o meu desejo perdido.
Acabei achando o outro
que em mim mesmo destruí.
Foi fácil reconhecê-lo:
de tudo que vi em seu rosto
somente o ódio era belo.
Esse morto adolescente
implacável e virginal
não me perdoa a desfeita.
Não faz mal. Eu sigo em frente.
Nem tudo que fui se aproveita.
Paulo Henriques Britto. Mínima lírica. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013,
p.80.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
páscoa
Tive uma páscoa
maravilhosa, sem precisar de chocolate — e sem precisar lembrar que era páscoa.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
cansaço
No cansaço do final do dia —
E é sempre um cansaço denso —
Surge no horizonte a poesia
Trazendo à noite outro tom de intenso.
domingo, 13 de abril de 2014
Manuel Bandeira
A ESTRELA
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1993, p.174.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
Milguel Marvilla
INSTANTE
Estamos ressurgindo.
Estou aberto
e pleno neste instante irrepetível.
O mundo
acontece, estou vivo,
preparo minha
permanência:
repito meu
papel mil vezes diante do espelho.
Acompanho a
linha que meus olhos produzem à cata
de uma
estrela há muito morta
e sei que
sou, de novo, real.
Este brilho
em teu olhar, no entanto, instaura a dúvida:
um de nós
é sonho. Mas qual?
Miguel Marvilla.
Lição de labirinto. Vitória: Fundação
Ceciliano Abel de Almeida, 1989, p.87.
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