Procurei
uma palavra sob que me proteger. Pensei na palavra paz. Mas logo percebi o
engodo. A palavra paz não protege, não guarda ninguém. Ela é pequena demais
para isso, escudo impróprio, e tem no centro um enorme a, vogal aberta, vazada, que a tudo dá passagem.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
domingo, 1 de novembro de 2015
terça-feira, 27 de outubro de 2015
domingo, 25 de outubro de 2015
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
domingo, 11 de outubro de 2015
"a madame gasta muito": as espúrias relações entre Eduardo Cunha e PC Farias (ou ainda: o submundo dos políticos brasileiros)
VOZES DA MORALIDADE
Jânio de Freitas, Folha,
11/10/2015
A situação pessoal
embaraçosa, com o presumido risco de perder milhões de dólares resguardados no
exterior para não os perder, deve ter mexido com a frieza de Eduardo Cunha. Mas
Eduardo Cunha exagera, supondo-se "execrado". Muito ao contrário. Eduardo
Cunha não está sozinho, não foi abandonado por causa de acusações. E tanto
conta com fraternidades espontâneas, como dispõe de armas para produzir
interessados em não o incomodar. Ou só fazê-lo em último desespero de causa.
A verdadeira
atitude do PSDB, até ontem (10), de benevolência quando as provas contra
Eduardo Cunha já levam a pedidos de sua cassação, provém de duas vertentes. Os
taradinhos do impeachment preservam o presidente da Câmara porque esperam dele
que instale a ação para a derrubada de Dilma e não têm pudor de dizê-lo. Aécio
Neves não foi sugerir a Eduardo Cunha que se licenciasse coisa nenhuma, se nem
disfarçou o desejo de que seja poupado para encaminhar o processo. O
"aquilo" em que esses taradinhos só pensam não é aquilo, é o
impeachment.
A outra
vertente de proteção peessedebista a Eduardo Cunha veio dos mais velhos que
ainda influem no partido. São remanescentes do governo Fernando Henrique. Ou
seja, do escândalo das privatizações causado por grampos telefônicos que
levaram à saída forçada de ministros e de outros do governo, comprometidos com
fraudulências surpreendidas pelas gravações.
Confrontado
de repente com uma pergunta sobre a origem das fitas, o general Alberto
Cardoso, da Casa Militar, disse que foram encontradas sob um viaduto em
Brasília. A verdade era outra. A maior parte dos procedimentos para as
privatizações transcorreu no Rio, sede das empresas e do BNDES, além das
extensões de ministérios também envolvidos, como Indústria e Fazenda. Tudo se
passava, portanto, nos domínios territoriais e operacionais de Eduardo Cunha,
presidente da Telerj, a telefônica estatal do Rio, no governo Collor e até a
posse de Itamar Franco.
Logo, nada
de extraordinário que, pelas investigações ou por dedução, o circuito fechado
do governo Fernando Henrique desse as gravações como obra de Eduardo Cunha, que
em anos recentes já fora dado como responsável por grampos em série. No seu
"diário" de presidente, Fernando Henrique refere-se a Eduardo Cunha
deste modo, transcrito da revista "Piauí" pela Folha: "O
Eduardo Cunha foi presidente da Telerj, nós o tiramos de lá no tempo do Itamar
porque ele tinha trapalhadas, ele veio da época do Collor". Esse
"nós" é invenção da vaidade. Fernando Henrique estava indo para
Relações Exteriores e nada teve com a exoneração rápida de Eduardo Cunha,
decidida e feita por Itamar. Sem sequer considerar trapalhadas, mas, como
muitas outras demissões, por ser ligado a PC Farias.
Gravações
clandestinas não começam no exato momento comprometedor da conversa. Quem as
instalou pode fazer coleções de conversas, personagens e assuntos. E quem sabe
que gravações podem trazer-lhe complicações, diretas ou indiretas, não ousa
contra o possível colecionador. A não ser quando o veja batido, esvaído,
inerte. Como muitos têm esperado ver Eduardo Cunha, para lembrar-se de que são
grandes defensores da moralidade. Privada e pública.
Mas não só
de grampeamentos se fazem coleções biográficas. Como ex-presidente da Telerj,
Eduardo Cunha sabe – e ninguém duvide de que também comprove – que a estatal
dava dinheiro a políticos. Quantias fixas. Mês a mês. Por nada.
E Eduardo
Cunha não só investigou. Também pagou. Se vai cobrar, ainda não se sabe.
sábado, 10 de outubro de 2015
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
terça-feira, 29 de setembro de 2015
José Paulo Paes
canção de exílio facilitada
lá?
ah!
sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...
cá?
bah!
PAES, José Paulo. Meia palavra [1973]. ___. Poesia completa: São
Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.194.
sábado, 26 de setembro de 2015
Paulo Henriques Britto
SONETILHO DE VERÃO
Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
Paulo Henriques Britto. Trovar claro.
2.ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 1997, p.81.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
metro quadrado
Há um lugar marcado para o fim.
Dor, sofrimento
solidão, angústia
beleza — efêmera.
Tudo tem seu termo na terra.
Mas a dor continua nos que
sobrevivem.
sábado, 12 de setembro de 2015
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Orides Fontela
PORTA
O estranho
bate:
na amplitude
interior
não há resposta.
É o estranho (o
irmão) que bate
mas nunca haverá
resposta:
muito além é o país
do acolhimento.
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify:
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.347.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
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