Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Herberto Helder: a ficção unitária do mundo

...
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
...

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.287.

domingo, 1 de abril de 2012

comfortably numb (p•u•l•s•e)

a propósito de algumas conversas

O verso, ao ser digitado, ia saindo “vazio de pensamento”, em vez de vazio de pássaros. É bom que seja assim. Pensamento esvaziado.

Murilo Mendes


INICIAÇÃO

Constrói-se a linha sem ajuda.
Vive de sua lágrima o cristal,
A asa do anjo não se traduz
Em plástica,
E o som ignora o eco.

O espírito no escuro se levanta
Sem flecha e oriente certo.
Vazio de pássaros não se vela o céu,
E, sem mover-se, a pura chama arde.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.550.

nosso primeiro de abril

Advertência!

Quem avisa, amigo é: se o governo continuar deixando que certos jornalistas falem em eleições; se o governo continuar deixando que determinados jornais façam restrições à sua política financeira; se o governo continuar deixando que alguns políticos teimem em manter suas candidaturas; se o governo continuar deixando que algumas pessoas continuem pensando com a própria cabeça; e, sobretudo, se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia.
Revista Pif-Paf, 1964.

Millôr Fernandes. 30 anos de mim mesmo. Rio de Janeiro: Desiderata, 2006, p.161.

quarta-feira, 28 de março de 2012

para as horas indecisas ― álvaro de campos

Ah, as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.232.

millôr fernandes

o relógio bate para todos

eu?!

À margem de mim o espanto dos dias ― mas poderia ser também à margem dos dias o espanto de ainda ser. Ser? Ou?

domingo, 25 de março de 2012

Murilo Mendes

INSÔNIA

Ao longe um cão branquíssimo latindo
Divide a noite em duas.
Se aquele cão fosse negro
Talvez eu pudesse dormir.

Pressinto uma bomba atômica
Adormecida no bosque.

Vivo ou morto estarei, inculpe ou réu?
Visito-me ao espelho: sem algemas.
Munido de passaporte para este mundo, ou não?

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.952.

o silêncio dos livros é mais forte que o ruído do mundo

e cantaram a dor em seus poemas