Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

o livro de horas

Amo as horas sombrias de meu ser,
nas quais se me aprofundam os sentidos:
nelas eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu dia a dia já vivido, e feito
alguma lenda distante e sofrida.
Delas me vem a noção de que tenho
lugar numa outra vida mais ampla e infinita.

E eu às vezes me sinto feito a árvore
que, sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche o sonho de algum morto jovem
(a cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido entre amarguras e cantigas.

RILKE, Rainer Maria. O livro de horas. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.19.

manhã

Mário Quintana

COMUNHÃO

Há anjos boêmios que costumam frequentar esses antros noturnos que são os sonhos humanos. São estes que finalmente intercedem por ti. O resto é dedo-duro.

Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.159. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

liberdade

Vinha lendo bem o livrinho ofertado pelo monge, até esbarrar na palavra submissão ― como condição para o conhecimento de Deus (ou como O chamam). Quer dizer que o caminho para a libertação começa pela negação da liberdade? Eis um paradoxo difícil de aceitar pela razão, e ainda mais pela intuição. Porque há pessoas que não se submetem, jamais vão querer se submeter ― a uma crença, uma teoria, um afeto, um esquema de vida, ao que quer que seja. Se há um caminho para a liberdade, ele precisa ser construído com a própria liberdade de quem a deseja. A liberdade é um bem supremo.

é preciso receber bem os amigos

especial a sede do peixe (milton nascimento)

roubou a cena do carnaval

Minas, Minas, Minas...

Orides Fontela

BALADA

Os anjos são
livres.

Podemos sofrer
podemos viver
o acontecer
único

― os anjos são
livres ―

podemos morrer
inocentemente

― e os anjos são
livres
até da inocência.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.352.

nuvem cigana (de lô borges e ronaldo bastos)

tudo é poesia nesta canção: pé na estrada, pó, poeira, movimento, flor de vento

domingo, 10 de fevereiro de 2013

do tamanho do meu coração

O programa ontem era ir ao cinema com a amiga. Das muitas opções em cartaz, escolhemos Django, pelo quesito “onde está passando” e mais os óbvios motivos. Django me atarantou, me deixou tonta, me obrigou a esconder o rosto em mais de uma cena de violência. Um filme terrível, não importa se se conheçam ou não as referências com que o diretor está dialogando. Talvez por isso eu tenha amanhecido hoje mal, fisicamente, espirrando, com uma virose nauseante que foi ganhando força ao longo do dia. Não foi uma boa pedida, ainda mais que minha amiga quis se sentar nas fileiras da frente, a tela era imensa, me obrigando a malabarismos para captar a legenda e a cena. Felizmente houve outra cena, quando entrava no shopping. Um monge, trajado a caráter, vendia alguns livrinhos, e se acercou de mim. Perguntou-me se eu era daqui ou de fora. Disse-lhe que todos nós somos de fora, com o que ele concordou. Mas insistiu na pergunta e eu disse que não era do Rio mas morava aqui. Então escolhi um dos quatro livrinhos e perguntei quanto era. Ele disse que eu poderia dar uma contribuição. “Quanto?” “Do tamanho do seu coração.”  Eu ri e disse que assim ficava difícil, porque não sei estimar o tamanho do meu coração ― menos ainda ali na pressa: estava sol, e eu queria entrar logo, para mais uma viagem capitalista àquele templo do consumo. Saquei da carteira uma importância que não desmerecesse o tamanho do meu coração, mas fiquei desconfiando que ele é instável, mesquinho, depende do outro coração que está frente a mim. 

my sweet lord

sábado, 9 de fevereiro de 2013

desintoxicando-me

Tentar ser o que os outros esperam de nós, o que os discursos esperam que cada vida-existência seja. Falava disso na última sessão de análise, da angústia decorrente, quando disse a palavra envenenamento. Tinha ido para a sessão bastante angustiada com minhas dores físicas ― fazendo trocadilhos do tipo: estou cheia de dores, estou cheia da dor ― e com muito medo de falar delas, das dores, porque poderiam se irritar e aumentar (não aumentaram, ao contrário, passaram a incomodar menos). Foi quando saiu a questão das expectativas, o preço que se paga por. Disse envenenamento porque lá, na sessão, e suficientemente livre para falar, eu conseguia perceber o quão nefasto pode ser tentar ser o que determinado espectro discursivo legitima como existência autêntica, plena, rica de experiências. O outro é outro, inatingível. Eu sentia muita culpa. Culpa pelas escolhas que fiz, que por obscuros caminhos ― que eu tentava supor ― teriam desembocado nas dores físicas, supondo também a pertinência de minhas suposições. Uma escolha nunca é totalmente livre, porque ela passou pelo abandono de alguma coisa, o que exige renúncia de quem escolhe, e isso a cada passo, a cada milésimo de passo, uma vida se fazendo. Os desdobramentos de tentar atender alheias expectativas, que acabam por compor com as próprias, podem terminar por estiolar a árvore que cada um nasceu para ser. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

realismo

"É-se feliz na Austrália, desde que lá não se vá." Álvaro de Campos

em águas profundas

Estou lendo um livro ― seria melhor dizer livrinho, pela pouca extensão e pelo caráter despretensioso ― do David Lynch, Em águas profundas, sobre os benefícios da meditação transcendental. Estou lendo e por enquanto nadando, na superfície de águas tranquilas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

a belíssima "Lilia" em versão jazzística

do CD Native Dancer 
versão original: CD Clube da Esquina

envenenamento

Estava falando ontem de uma forte angústia na sessão de análise, quando, para tentar exprimir seu efeito sobre minha vida, ou melhor, o efeito de suas causas, disse a palavra envenenamento ― pensamento então subjacente: o que envenena Emma são as histórias (românticas) que ela leu... pensamento agora subjacente: vi faz umas duas semanas uma moça de pé no metrô, comum, uma moça de suburbano coração ― a contar da linha do metrô em que estava ― lendo em pé no metrô Madame Bovary, numa edição recente da Companhia das Letras. Lia Madame Bovary (como a outra personagem célebre lia A dama das camélias?) e, não sei se são meus preconceitos, o fato é que a moça de pé no metrô lendo Madame Bovary a caminho do trabalho compunha um quadro incomum, inesperado, a sugerir que não há mesmo sentido evidente... Não que eu esperasse uma mocinha da zona sul lendo de pé Madame Bovary no metrô. Não esperava nada, e nem é disso que se trata. Trata-se da confluência entre a cena moça-comum-lendo-madame-bovary-de-pé-no-metrô  e as angústias que levei ontem para a sessão, acerca de um certo bovarismo com que a vida vai ganhando incerto e por vezes complicado contorno, muitas vezes angustiante... Como escapar ao próprio círculo vicioso da linguagem, que não me deixa falar dessa moça sem apelar para o lugar comum? Porque é claro que eu também sou comum, e não escapo ao círculo vicioso da angústia.