A vida é assim — muda sem pedir licença.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
sábado, 26 de abril de 2014
eu!?
Tenho momentos de extrema fragilidade, em que parece
que vou desintegrar, que o eu que construí para uso externo e contínuo vai
ceder à emergência de forças disciplinarmente mantidas sob controle, sob
vigilância atenta. Entrevejo outros eus, passados e presentes, e pressinto que
a casca frágil da superfície pode facilmente rebentar. Meus recursos nesses
momentos? Escrever, por exemplo. Outros
são de foro íntimo.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Murilo Mendes
JUÍZO FINAL DOS OLHOS
Teus olhos vão ser julgados
Com clemência bem menor
Do que o resto do teu corpo.
Teus olhos pousaram demais
Nos seios e nos quadris,
Eles pousaram de menos
Nos outros olhos que existem
Aqui neste mundo de Deus.
Eles pousaram bem pouco
Nas mãos dos pobres daqui
E nos corpos dos doentes.
Teus olhos irão sofrer
Mais que o resto do teu corpo:
Eles não poderão ver
As criaturas mais puras
Que no outro mundo se vê.
MENDES,
Murilo. Poesia completa e prosa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.205.
poesia
“Devo aos poetas de
todos os tempos a sobrevivência de minha alma. [...] A Baudelaire, em cujo
túmulo depositei uma rosa, a fulgurância do raciocínio, a elegância corrosiva
de seu sentimento trágico; a Shakespeare, a iniciação a todas formas humanas
[...]. A Pablo Picasso, a reacomodação do nervo óptico.”
Paulo Mendes Campos. Cisne de feltro. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001, p.18.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Paulo Henriques Britto: "Nem tudo que fui se aproveita"
QUEIMA DE
ARQUIVO
Houve um tempo em que eu amava
em cada corpo o reflexo
do que eu queria ter sido.
No fundo do sexo eu buscava
o meu desejo perdido.
Acabei achando o outro
que em mim mesmo destruí.
Foi fácil reconhecê-lo:
de tudo que vi em seu rosto
somente o ódio era belo.
Esse morto adolescente
implacável e virginal
não me perdoa a desfeita.
Não faz mal. Eu sigo em frente.
Nem tudo que fui se aproveita.
Paulo Henriques Britto. Mínima lírica. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013,
p.80.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
páscoa
Tive uma páscoa
maravilhosa, sem precisar de chocolate — e sem precisar lembrar que era páscoa.
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