Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 1 de março de 2015

Orides Fontela

ERRÂNCIA

só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa
da procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

margem de
erro: margem
de liberdade

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.202.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Orides Fontela

NARCISO (JOGOS)

Tudo
acontece no
espelho.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.333.

Tudo?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

sentimentos ínfimos (ou o desejo de silêncio)

Alhear-me, esquecer, não sentir (tanto) as pressões incessantes do mundo, contas (de variada natureza), cartas que chegam por todos os meios. O que simplesmente acontece. Fatos (abre aspas):

...fatos
são pedras duras.

Não há como fugir.

Fatos são palavras
ditas pelo mundo.


Alhear-me, e experimentar o supremo prazer de poder ficar quieta. 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

linda essa canção

a morte (sentimentos confusos)

A morte desafia as definições bem assentadas de dicionário. Ela é um incômodo, um desconforto, um espinho fisgando a carne e afetando a alma. Uma dor, sobretudo, um fantasma rondando a lembrar que o fim de todos é debaixo da terra, roídos por vermes e sem agasalho ou proteção em noites de chuva. Alguma coisa da vida ou da consciência sobrevive à morte física, orgânica, à morte do corpo? Se sim, haverá horror maior que morrer? Claro que há: o catálogo de horrores desse mundo aquém-túmulo parece infindável e inesgotável, mesmo porque a imaginação humana não cansa de buscar excitação em fantasias macabras e aterrorizantes. Mas a morte não pertence ao domínio das monstruosidades fabricadas pelo homem, que não obstante estão intrinsecamente ligadas a ela. A morte, primariamente, pertence ao domínio da natureza. Não pode ser evitada. E dói, como se fizesse parte da vida. 

Traveling Wilburys - Handle With Care

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Orides Fontela: "excessiva vivência"

FALA

Tudo

será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.31.

vitória suspeita

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

a obra de arte no corredor

Minha resistência a exposições, em especial as de grande apelo, como esta, é que elas são tratadas como arte, causam filas e frisson, mas na verdade funcionam como cultura. O que há contra a cultura? Nada — desde que não assuma o disfarce de arte.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

letargia

Minha miopia tem me feito enxergar tudo meio lento — os Correios, o retorno das ligações dadas, a internet, as operações básicas da vida. A paciência precisa ser de Jó, mas a ansiedade é moderna, contemporânea, não é fenômeno que se possa aferir com parâmetros bíblicos. Leio sobre meditação e técnicas de respiração, mas é preciso pagar para se iniciar nesses saberes milenares — quem sabe os mesmos que permitiram a Jó esperar tanto —, além de sair de casa, fazer contatos, mandar e-mails, dar telefonemas, encontrar espaço na agenda, coisas que via de regra mais chateiam que acalmam. Tento imaginar o mundo em que essas técnicas de desacelaração foram criadas, forjadas, elaboradas. Não consigo. Enquanto isso o país parece estar caminhando para um nó, cujo desfecho vai ser certamente desagradável.