Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 20 de março de 2016

acerca do "perigo" que a cor vermelha parece já representar ostensivamente no / para o país...

...vale a pena refletir sobre a obra "Desvio para o vermelho", 
de Cildo Meireles.

o fascismo das cores

"O Brasil está virando um imenso Fla-Flu ou Gre-Nal em que as normas têm cada vez menos valor e a única pergunta que resta é a cor da sua camisa."

advertências ao futuro do Brasil (a partir do passado da Itália)

do amigo e colega de profissão Luis Guilherme Barbosa

professores do Colégio Pedro II, campus Realengo II, sexta-feira, 18/03/2016

quarta-feira, 16 de março de 2016

a metonímia das panelas

Há uma mulher atualmente ocupando o cargo de Presidente a República. E as pessoas utilizam panelas para hostilizá-la.

quinta-feira, 10 de março de 2016

sobre o pedido de prisão do ex-presidente Lula (Brasil, uma desilusão completa)

Mas é mais do que óbvio: há um grupo querendo incendiar o país, para depois atuar como bombeiro. Mais uma vez o país vai ser conduzido ao retrocesso, em todos os sentidos. Infelizmente. Pois, afinal, trata-se de um indivíduo perigosíssimo, não é mesmo? Aplausos gerais para os que estão estourando seus champanhes hoje, agora mesmo. Os mesmos de sempre.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Julio Cortázar

DISCURSO DO URSO

Eu sou o urso dos canos da casa, subo pelos canos nas horas de silêncio, pelos tubos de água quente, do aquecimento, do ar condicionado, vou pelos tubos de apartamento em apartamento, sou o urso que vai por todos os canos.
Acho que gostam de mim porque meu pelo conserva os condutos limpos, corro incessantemente pelos tubos e do que eu mais gosto é passar de andar em andar escorregando pelos canos. Às vezes puxo uma pata pela bica e a moça do terceiro andar berra que se queimou, ou grunho na altura do forro do segundo andar e a cozinheira Guillermina se queixa de que o gás anda ruim. De noite ando calado e é quando ando mais depressa, apareço no teto pela chaminé para ver se a lua está dançando lá em cima, e me deixo escorregar como o vento até as caldeiras do porão. E no verão nado à noite na cisterna salpicada de estrelas, lavo o rosto primeiro com uma mão, depois com as duas juntas, e isso me produz uma alegria muito grande.
Então escorrego por todos os canos da casa, grunhindo contente e os casais se agitam em seus leitos e reclamam contra a instalação dos encanamentos. Alguns acendem a luz e escrevem num papelzinho para lembrar-se de reclamar quando virem o porteiro. Eu procuro a bica que sempre fica aberta em algum andar, por ali meto o nariz e espio a escuridão dos quartos onde moram esses seres que não podem andar pelos canos, e fico com pena de vê-los tão desajeitados e grandes, de escutar como roncam e sonham em voz alta e estão tão sós. Quando eles lavam o rosto de manhã, eu lhes acaricio as faces, lambo-lhes o nariz e vou-me embora, vagamente convencido de ter feito um bem.

CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Trad. Gloria Rodríguez. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 81-82.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

inocência cruel

Já faz certo tempo que venho censurando em mim qualquer forma de inocência. Não é um processo consciente. Antes, é uma atenção muda e tensa aos movimentos ao meu redor. Mas certamente a inocência presente, aquela que ainda não se revelou como tal, deve escapar ao cerco. E então há a dor da incerteza em relação... em relação a quê? Pois é, não sei.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

memória

Há um conto de Caio Fernando Abreu intitulado “Pela passagem de uma grande dor”. Pressuposto: a dor, mesmo grande, passa. Quando passa, costuma deixar cicatrizes, que são marcas da ferida que se fechou. Minha indagação é: conviver com as cicatrizes deixa a dor, que um dia foram, no passado? Não. Olhar as cicatrizes não deixa esquecer a dor. A dor, cicatrizada, não é mais dor. Mas a cicatriz é a memória da dor.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

"Ia-o conseguindo?"

Esta pergunta pontua o entrecho do conto “O Espelho”, de João Guimarães Rosa, numa digressão que termina por interpelar o leitor. A narrativa condensa um percurso assaz complexo rumo a si mesmo, que o narrador descreve ao leitor uma vez finda a experiência com o espelho. A questão resume a angústia diante de uma transformação ou percurso existencial complexo que alguém porventura atravesse. Ia-o conseguindo? No labirinto da vida, é uma pergunta que se faz, sem que se vislumbre uma resposta. A pergunta ecoa nos labirintos da própria mente.