Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 26 de setembro de 2015

lou reed - legendary hearts

Paulo Henriques Britto

SONETILHO DE VERÃO

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.

A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

Paulo Henriques Britto. Trovar claro. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.81.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

metro quadrado

Há um lugar marcado para o fim.
Dor, sofrimento
solidão, angústia
beleza — efêmera.
Tudo tem seu termo na terra.
Mas a dor continua nos que sobrevivem.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Orides Fontela

PORTA

O estranho
bate:
na amplitude interior
não há resposta.

É o estranho (o irmão) que bate
mas nunca haverá
resposta:

muito além é o país
do acolhimento.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.347.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Por quem rosna o Brasil - Eliane Brum

“Este é também o país em que aqueles que bradam contra a corrupção dos escalões mais altos cometem cotidianamente seus pequenos atos de corrupção sempre que têm oportunidade. A ideia de que o Congresso democraticamente eleito, formado por um número considerável de oportunistas e corruptos, não corresponde ao conjunto da população brasileira é talvez a maior de todas as ilusões. É duro admitir, mas Eduardo Cunha é nosso.

sábado, 22 de agosto de 2015

Cecília Meireles: "De que alma é que vai ser feita / essa humanidade nova?"

Ambição gera injustiça.
Injustiça, covardia.
Dos heróis martirizados
nunca se esquece a agonia.
Por horror ao sofrimento,
ao valor se renuncia.

E, à sombra de exemplos graves,
nascem gerações opressas.
Quem se mata em sonho, esforço,
mistérios, vigílias, pressas?
Quem confia nos amigos?
Quem acredita em promessas?

Que tempos medonhos chegam,
depois de tão dura prova?
Quem vai saber, no futuro
o que se aprova ou reprova?
De que alma é que vai ser feita
essa humanidade nova?

Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência. 9.ed. São Paulo: Global, 2012, p.164. Trecho do “Romance LIX ou Da reflexão dos justos”.

"A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido." (Sérgio Buarque de Holanda, 1936)

“Mas no caso de um eventual impeachment, também haverá quem vai prestar mais atenção ao fato de que, dos quatro presidentes que o Brasil teve após a retomada da democracia, dois não terminaram seus mandatos.” 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Orides Fontela

ADVENTO

Deste templo múltiplo
o que nascerá?

Da onda
rítmica
amplitude
da intensidade
amorfa
ritmicamente esfacelada

do múltiplo que um
mais que tempo virá
e que luz haverá além
do tempo?

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.66.

renato russo não morreu

quem o colocou lá?

De mais de um interlocutor, ouvi que Cunha é um mal necessário. Ai de nós, a precisarmos de males dessa envergadura.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

antes tarde

A queda de Cunha era questão de tempo. Figuras como ele são eficientes para agir nas sombras, não na linha de frente. Ainda mais com a megalomania que sempre o acompanhou, acima de qualquer limite de prudência. Em ambiente democrático, não há espaço para os superpoderosos. Tanto assim, que um dos truques históricos da mídia, quando quer marcar um inimigo, é superestimar seus poderes. O sujeito entra na marca de tiro, torna-se alvo não só de jornais como de outros poderes.”