Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Álvaro de Campos

Não fales alto, que isto aqui é vida —
Vida e consciência dela,
Porque a noite avança, estou cansado, não durmo,
E, se chego à janela,
Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas…
Cansei o dia com esperanças de dormir de noite,
É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a humanidade através do cansaço —
Um cansaço que quase me faz carne os ossos…
Somos todos aquilo…
Bamboleamos, moscas, com as asas presas,
No mundo, teia de aranha sobre o abismo.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.401.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Álvaro de Campos

"Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?"

Luis Fernando Verissimo

HISTÓRIA ESTRANHA

Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Está com quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricô. Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a babá. Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como os meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás. 
O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos, como eu vou ser sentimental! 

Luis Fernando Verissimo. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.41.

domingo, 8 de abril de 2012

Jorge de Lima: Livro de Sonetos

Este poema de amor não é lamento
nem tristeza distante, nem saudade,
nem queixume traído nem o lento
perpassar da paixão ou pranto que há de

transformar-se em dorido pensamento,
em tortura querida ou piedade
ou simplesmente em mito, doce invento,
e exaltada visão da adversidade.

É a memória ondulante da mais pura
e doce face (intérmina e tranquila)
da eterna bem-amada que eu procuro;

mas tão real, tão presente criatura
que é preciso não vê-la nem possuí-la
mas procurá-la nesse vale obscuro.

Jorge de Lima. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007, p.168.

páscoa

A Páscoa deste ano foi divina ― de forma que quase não me lembrei que era Páscoa.

o duplo

Comecei a leitura de O duplo, de Dostoievski, e tive um sonho revelador. Mas mais revelador é onde estava quando sonhei.

restar com as bagagens da vida

É bastante conhecido o conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, talvez a nossa narrativa por excelência de certo lugar/discurso do deslocamento. Estava na rodoviária, numa rodoviária. Bastidores intensos vislumbrados no relance de estar ali, de passagem. Então de repente se vive algo que sobra, que não cabe naquele espaço exíguo de suspensão da cidade, fazendo transbordar a vida que exige não ficar circunscrita àqueles limites. Esse algo não consegue caber na narrativa que se quer para si. Esse algo mal se acomoda na linguagem que serena sentidos. É preciso traduzir, encontrar as palavras que contornem a dimensão do pasmo, do espanto, do anticlímax que derruba com violência a árvore que um dia se plantou. Onde elas, as palavras que repusessem a vida em sua marcha reconhecível? Então, devagar, alguma coisa como ficar com a herança da vida foi se insinuando. E, talvez por estar numa rodoviária, socorreu-me a formidável imagem das bagagens da vida, de Guimarães Rosa: “Eu fiquei, de resto. (...) Eu permaneci, com as bagagens da vida.”

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Herberto Helder: a ficção unitária do mundo

...
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
...

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.287.

domingo, 1 de abril de 2012

comfortably numb (p•u•l•s•e)

a propósito de algumas conversas

O verso, ao ser digitado, ia saindo “vazio de pensamento”, em vez de vazio de pássaros. É bom que seja assim. Pensamento esvaziado.

Murilo Mendes


INICIAÇÃO

Constrói-se a linha sem ajuda.
Vive de sua lágrima o cristal,
A asa do anjo não se traduz
Em plástica,
E o som ignora o eco.

O espírito no escuro se levanta
Sem flecha e oriente certo.
Vazio de pássaros não se vela o céu,
E, sem mover-se, a pura chama arde.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.550.

nosso primeiro de abril

Advertência!

Quem avisa, amigo é: se o governo continuar deixando que certos jornalistas falem em eleições; se o governo continuar deixando que determinados jornais façam restrições à sua política financeira; se o governo continuar deixando que alguns políticos teimem em manter suas candidaturas; se o governo continuar deixando que algumas pessoas continuem pensando com a própria cabeça; e, sobretudo, se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia.
Revista Pif-Paf, 1964.

Millôr Fernandes. 30 anos de mim mesmo. Rio de Janeiro: Desiderata, 2006, p.161.