Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Stéphane Mallarmé

BRISA MARINHA

A carne é triste, e eu li todos os livros, todos.
Fugir! além! Eu sei que há pássaros já doidos
Por se ver entre os céus e a espuma do alto-mar!
Nada, nem os jardins refletidos no olhar,
Retém o meu olhar que já no mar se aninha,
Nem, ó noites, a luz da lâmpada sozinha
Sobre o papel vazio, intangível de brilho,
E nem a mulher moça amamentando o filho.
Hei de partir! Vapor de mastros oscilantes,

Ergue a âncora para regiões extravagantes!
Um Tédio desolado, entre anseios intensos,
Ainda acredita no supremo adeus dos lenços!
E esses mastros, talvez, cheios de maus presságios,
São dos que um vento faz vergar sobre os naufrágios
Sem ilhas férteis e sem mastros de veleiros…
Mas, ó minha alma, ouve a canção dos marinheiros!

Poetas de França. Trad. Guilherme de Almeida. 5.ed. São Paulo: Babel, s/d, p.79.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

antídoto para o carnaval

Paulo Henriques Britto

PARA UM MONUMENTO AO ANTIDEPRESSIVO

Um pequeno sol de bolso
que não propriamente ilumina
mas durante seu percurso
dissipa a neblina

que impede o outro sol, importátil,
de revelar sem distorção
dura, doída, suportável,
a humana condição.


Paulo Henriques Britto. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.63.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

desejo

Ontem eu desejei respirar como fazia na juventude, ou num tempo ainda mais distante, motivada pela sensação de que, por um brevíssimo momento, eu tenha respirado como se tivesse 14, 15 anos... Tão rápida a sensação veio e se foi, quase imperceptível, que eu fiquei tentando reaver uma espécie de bem-aventurança perdida, como se a razão fosse o bastante para fazer o corpo experimentar essas sensações fugidias. Mas essa mínima incursão do passado no presente trouxe, além da nostalgia de um tempo em que o ritmo, o pulsar da vida era outro, aparentemente inexplicáveis, trouxe a esperança de que alguma coisa daquele ritmo possa uma hora, naturalmente, ressurgir no corpo de hoje.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Paulo Henriques Britto

SÚCUBO

A lucidez de certos sonhos
que nem parecem ser reais,
tal como faz a realidade.

Entra-se neles de repente,
não no começo, sem saber
de onde se vem e aonde se vai,

e pouco a pouco dá-se conta
de que há um sentido nisso tudo,
só que não está ao nosso alcance,

e quando menos se imagina
tudo termina de repente,
tal como faz a realidade.

Paulo Henriques Britto. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.75.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

o homem e o mar

              "Homme libre, toujours tu chériras la mer!" 
                                                              Charles Baudelaire.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Maiakóvski

A poesia
             — toda —
                            é uma viagem ao desconhecido.

Raimundo Correia

MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Roteiro da poesia brasileira: Parnasianismo. São Paulo: Global, 2006, p.32-33.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

o pôr do sol no mar, em sua prosaica poesia

Barra da Tijuca, 01/02/2014

corsário


escrever

"A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas — escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.”

Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.12-13.