Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
terça-feira, 19 de abril de 2016
há os idiotas contumazes, incontestáveis, e há os que desejam que idiotas, não tão idiotas assim, aceitem que o capital é o éden da História
É o caso deste senhor, Luiz Felipe Pondé, que reclama um ensino de História alinhado aos ventos neoliberais.
com que palavras nomear o inacreditável, o inaceitável, real e surreal ao mesmo tempo?
por vezes, com as que pedimos emprestadas
segunda-feira, 18 de abril de 2016
domingo, 17 de abril de 2016
o pioneiro da delação premiada (ou de como evitar algumas coincidências)
Há uma razão ― não necessariamente racional e óbvia ―
para que a votação na Câmara dos Deputados do processo de impeachment da
presidente Dilma tenha sido adiantada, acelerada: não coincidir com o feriado de Tiradentes, atualmente herói nacional, cuja morte bárbara decorreu das ações
do mais notório delator da história do país, ou traidor, como se preferir.
sábado, 16 de abril de 2016
ser um sueco em trânsito
O SUECO
― Os problemas do Brasil, as mesquinharias de nossa vida pública, a miséria
fundamental de nosso povo, todas essas coisas de repente cansam e desanimam uma
pessoa sensível. Evandro Pequeno encontrou uma solução: “Eu sou um sueco em
trânsito.”
Não
saber de nada, não entender uma palavra do que estão dizendo ou escrevendo por
aí, não ter nada a ver com nada, não se sentir responsável por nada (muito
menos pela famosa dívida externa), não ter vergonha de nada: ser um sueco em
trânsito.
E, se
possível, como Evandro fazia, tocar fagote.
BRAGA, Rubem. Recado de primavera. 8. ed. Rio de
Janeiro: Record,2008, p.98.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
luto
Queria ter o talento e o humor de Xico Sá. Mas tudo
o que consigo dizer é que sinto tristeza. Sinto que nada será como antes. Tristeza. Paralisia. Sou profundamente solidária a essa mulher que
(ainda) ocupa a Presidência da República. Percebi, desde o começo de 2015, que
alguma coisa podia desandar. E eis que estamos à beira de um colapso. É amargo o
que uma parcela da população brasileira, na qual me incluo, está vivendo. Amargo, triste, sem
esperança. Eu queria não ser muitas coisas. Queria não precisar estar passando
por esse momento. Continuo profundamente solidária a Dilma Rousseff. Boa e Velha
República: uma vez golpista, sempre golpista. Até que um dia, quem sabe, esse
país poderá oferecer alguma coisa de melhor para quem nele, sem escolha, tenha de nascer.
Murilo Mendes
LAMENTAÇÃO
Nenhum
homem tem mais saída:
Antes de
nós o dilúvio.
Durante,
o tédio no caos.
Depois, o
épico escuro.
A
esperança desespera,
Os olhos
não são para ver
Nem os
ouvidos para ouvir.
O diálogo
virou monólogo,
Meio-dia
é meia-noite.
Todos
curvados constroem
Suas
próprias algemas.
O longo
ai das criaturas
Sobe para
o céu
Forrado
de espadas.
MENDES,
Murilo. Poesia completa e prosa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.386.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
lobos solitários
Não seria má ideia ― Deus que me perdoe ―
se atacassem Brasília, mais propriamente a Câmara dos Deputados, talvez a pior
que o país já teve. Cunha, mestre em sobrevivência, restaria junto com as baratas, com que não se iguala porque elas são melhores que
ele.
terça-feira, 29 de março de 2016
clichê perverso
Alguns colegas me disseram que
Eduardo Cunha é um mal necessário. Raciocínio semelhante vem justificando e
permitindo justamente o Mal, maiúsculo e absoluto.
eu odeio o Cunha com todas a minhas forças
Acabo de perceber que na palavra eleitor está outra
fundamental, leitor. Um leitor sofrido, maltratado, que trabalha para pagar
contas, parcialmente letrado, sem tempo para leitura ou sofisticações do
intelecto. Daí se entende por que a política educacional brasileira é sobretudo a
política porca praticada por Cunha e cia. Desse leitor atribulado e cansado os
Cunhas se alimentam, até um dia, quem sabe, em que a desesperança prevaleça.
sexta-feira, 25 de março de 2016
Armando Freitas Filho
MARÇO
O verão ainda atira
com todos os canhões:
chumbo, céu e chão
e as chuvas não quebram
o teto do ar livre
de um negro tão preto
que só pensando
num branco absoluto
para obtê-lo, sem nuvens
para registro nesta folha
enquanto um rio que não molha
mas agulha
passa e arrepia tudo
com suas águas que são pontas
― pregos ― por favor
não olhe o que só quer sofrer
a seco, sem lágrimas.
FREITAS FILHO, Armando. Máquina
de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2003, p.449-450.
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