Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 2 de agosto de 2023

fiquei distante (não só deste espaço)

...durante a pandemia de Covid-19, e ainda estou meio enlutada, porque, no Brasil, o desastre não acabou, não só pelas mortes evitáveis, comprovadas por mais de um levantamento, como também pelo crescente negacionismo científico que afeta as medidas de prevenção sanitária e a cobertura vacinal. Nos links a seguir constam levantamentos das vidas que poderiam ter sido salvas, em torno de 400 mil -- cuja responsabilidade é de um monstruoso ser alçado à presidência da República em 2018: 

E
T
C.

Num cartum antigo de Aroeira (1993!), contudo, o monstro já estava desenhado, assim como em inúmeras falas, vídeos, gestos, agressões. Então quem votou nele não pode se dizer inocente ou mal informado.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

um poema de Paulo Mendes Campos

Em noite tropical 

 

A noite se perfumava 

Da brisa do roseiral. 

Respirei o ar de Deus 

No sono do vegetal, 

Mas não gostava da lua 

Com seu brilho mineral 

Porque sem dizer a ela 

Me fazia muito mal 

Temer a todo momento 

A voz de um policial. 

Inês despida na relva 

Era uma Inês irreal. 

O claro-escuro do ventre 

Luzia na noite nua 

Como as luzes de um punhal. 

Quando depois se vestia 

A aurora amadurecia 

As copas do pinheiral. 

 

A palavra escrita (1951)  

 

domingo, 23 de julho de 2023

um poema de André Dahmer

as meninas que tina me deu

são tão novas nem imaginam não sabem

que quando alguém diz

preciso de um tempo para pensar

esse alguém irá embora para sempre

ainda são tão novas

não querem cuidar dos dentes

ter muito dinheiro

morar no mato

encontrar um psicólogo que aceite

o plano de saúde

não sabem nem imaginam

que o espírito se degrada em vício

que alcoolismo não é coisa engraçada

que os homens 

gostam de fazer as mulheres 

de brinquedo


DAHMER, André. Impressão sua: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p.56. Página oficial do ofício mais conhecido do autor: http://www.malvados.com.br/.

"eu, clarice e manuel" - um poeminha meu mais a recordação de uma canção dos anos 80

clarice e manuel  

 

você também veio para aqui... 

sim, caí como letra viva na página em branco  e abri a porta.  


***


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

"Nunca negociei coisa alguma": o retorno da poeta Maria Lúcia Alvim

Em entrevista, poeta Maria Lúcia Alvim fala sobre passado num Rio de Janeiro efervescente, presente longe da criação, e futuro de expectativas com novo livro, “Batendo pasto” (Relicário), primeiro inédito em 40 anos.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Revista Serrote - edição especial

A serrote lança, em julho de 2020, uma edição especial, gratuita e digital, que reflete sobre o momento de exceção que vivemos. A revista apresenta seis ensaios inéditos sobre impactos políticos e sociais da pandemia, três ensaios visuais e a tradução de “O vínculo da vergonha”, clássico do historiador Carlo Ginzburg que fala diretamente ao Brasil de hoje.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Diante - Francisco Alvim

Diante

História tão obscura
a deste país
Pensou,
o olhar paralítico
diante do espelho
de si para si
de dentro para dentro

Tal fora uma cobra
sucuri enorme
no charco mais fundo
da densa floresta
nestes brasis
de sombra e de sol
violentos

E o tempo dele
de fora e de dentro
fora o movimento de um corpo
nas águas mortas
de um morto

ALVIM, Francisco. O metro nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.63.

domingo, 13 de outubro de 2019

Poema da Inútil Busca - João Carlos Teixeira Gomes

Onde estou, que já me esqueço,
mais evadido que achado,
por sob a máscara de gesso
com que oculto o meu fado?

Porque tenho que esconder-me
pondo nos cantos da boca
um tal sorriso que, ao ver-me,
deplore essa glória oca?

Eu, que me chamo João,
aonde irei, se não fui chamado,
perdendo os passos no chão
sem que chegue a qualquer lado?

Que mulher de porte egrégio
há-de servir-me de porto
jungida ao meu sortilégio
com um olho aceso e outro morto?

Onde estará meu destino
de rei sem manto ou coroa
rendido ao seu desatino
de pedir à dor que não doa?

E o cão que outrora tive
de magoado focinho
acaso é morto ou ainda vive
perdido do meu carinho?

Onde os amigos fiéis
que morreram, de tão poucos?
Ao meu olhar de revés
onde vê-los, sãos ou loucos?

Onde estou, que já me esqueço,
mais evadido que achado,
por sob a máscara de gesso
com que oculto o meu fado?


BRAGA, Rubem. A poesia é necessária. Org. André Seffrin. São Paulo: Global, 2015, p.146-147.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

lido por aí

"O Brasil nunca foi um país sério, mas não precisava ter virado um país triste."

domingo, 7 de julho de 2019

Drummond: "A grande dor das cousas que passaram" - Farewell


Herberto Helder: a paixão grega

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega

Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo. Assírio & Alvim, Lisboa: 2008. (daqui)

sábado, 6 de julho de 2019

de vez

Professor de português
perde a cabeça de vez.
Nada há a fazer
a não ser um poema
sobre frutos ainda
de vez.

Ana Cristina César: "Psicografia"

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

CÉSAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.193.