Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Manuel Bandeira: poesia

Poema do beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
― O que eu vejo é o beco.

1933

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.150. 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Emily Dickinson

A palavra morre
Quando ocorre,
Se dizia.
Eu digo que ela
Se revela
Nesse dia.

A word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Ed. da Unicamp, 2008, p. 92-93. 

domingo, 12 de setembro de 2010

Sérgio Buarque e a crítica ao beletrismo

“O próprio gosto desmedido da pura literatura, das ‘belas letras’, pareceu-me não raro participar de algum vício de nossa formação brasileira, que inábil para denunciar nos outros, tentei freqüentemente contrariar em mim mesmo. Refiro-me naturalmente a esse gosto que se detém nas aparências mais estritamente ornamentais da expressão e que tende a conferir aos seus portadores um prestígio estranho à esfera da vida intelectual e artística. Fiados no poder mágico que a palavra escrita ou recitada ainda conserva em nossos ritos e cerimônias, e que será sempre de interesse para quem se proponha a pesquisar o complexo folclore dos civilizados, não falta os que vêem no 'talento', no brilho da forma, na agudeza dos conceitos, na espontaneidade lírica ou declamatória, na facilidade vocabular, na boa cadência dos discursos, na força das imagens, na agilidade do espírito, na virtuosidade e na vivacidade da inteligência, na erudição decorativa, uma espécie de padrão superior da humanidade.” (HOLANDA, Sérgio Buarque. “Missão e profissão”. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1948, 4ª seção, p.1.)
 

disputas modernistas: Sérgio Buarque de Holanda

O tom geral do ensaio de 1926 de Sérgio Buarque de Holanda, “O lado oposto e outros lados”, gerou muita polêmica nos arraiais modernistas, expondo divergências e ressentimentos. Manuel Bandeira e Mário de Andrade divergiram a fundo sobre as posições de Sérgio Buarque, e isso aparece na sequência de cartas trocadas entre ambos no período, um documento precioso para a apreensão dos bastidores da polêmica. Além de tudo, parecia estar em jogo a liderança do Modernismo, que o ensaio de Sérgio não faz pensar que ele estivesse chamando para si, pois tencionava exercer, no melhor sentido em que o compreendia, a crítica. O modo com que Sérgio Buarque e Prudente de Moraes, neto entendiam a crítica encontrou reservas em Mário de Andrade, que em carta a Manuel Bandeira comenta o tom geral do ensaio de Sérgio Buarque:

Eu tenho feito em artigos muita restrição ao Gui e ao Ronald restrição que não aceitaram ou que discutiram porém não brigaram comigo. Porém quando citei a frase de você foi pra chamar sua atenção sobre uma coisa: é que Prudentico principalmente inda mais que o Sérgio quando escrevem contra dão pras frases um ar de ataque que fere. Fazem a restrição com uma secura uma aspereza que pode ser peculiar neles porém faz com que os outros caiam na ideia do ataque. Sobre isso já me preveni bem porque sei que me atacarão e si o ataque vier assim não me ressentirei porque pode ser feitio deles. [...] Pra quê? E mesmo certo de que isto não é obrigação de elogio mútuo eu pergunto pra você se não é verdade que essa não é a maneira de tratar um trabalho ruim de um camarada. Eu quando tenho um camarada procuro lhe ocultar os defeitos e quando sou obrigado a reconhecer estes, os reconheço porém amigavelmente. E creio que não sou nenhuma exceção. [ANDRADE e BANDEIRA, 2001, p. 323. Os apelidos aludem a Prudente de Moraes, neto e Guilherme de Almeida]

De maneira geral, as reservas de Mário de Andrade estendem-se do tom ao conteúdo do ensaio, ao contrário de Manuel Bandeira. Ao final da sequência de cartas em torno da polêmica, Manuel Bandeira sintetiza bem quais seriam as possíveis razões para a atitude mais desbragada de Sérgio Buarque e Prudente de Moraes face à crítica literária e aos rumos então tomados pelo Modernismo:

O “nós” do Sérgio, tomei por ele, Prudente e outros da idade deles que não suportam o verbalismo do R., do G. e outros. A respeito de verbalismo, penso como você. Há verbalismo e verbalismo. Euclides, êta! Aprecio às vezes o de R. e Gui, sem achá-los tão maravilhosos quanto você. Sempre defendi sozinho contra Oswald, Sérgio, Prudente, e outros a arte, a técnica fantástica do Gui. Mas realmente, Mário, os rapazes sinceramente não fazem caso nenhum disso. No fundo eu dou razão a eles, mas como o gosto é livre eu continuo a admirar o tour de force criador rítmico do Guilherme fazendo ritmo de 11 sílabas com qualquer quantidade de sílabas, como ele faz em “Raça”. Mas reconheço que é arte, e poesia é outra coisa. [...] A poesia do R. é bela, porém me dá a impressão de arte decorativa de motivos socializantes. Boa pra se comentar mas... não faz a gente “dar nos gostos”. Aliás a “gente” está aí por “me”: eu sei, e compreendo bem, que você, o Ribeiro Couto gostam da poesia do R. e são sinceros. Já o R. C. não tolera a do Guilherme. O que atrapalha tudo é essa história de modernismo. Que coisa pau! Parece uma putinha intrigante que apareceu para desunir os amigos. Ninguém sabe definir essa merda, que todo mundo quer ser! Isso sempre me aporrinhou. Não tem a menor importância ser modernista! Vamos acabar com isso? [ANDRADE e BANDEIRA, 2001, p. 327. Os apelidos e abreviações aludem a Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida]

Na fala de Manuel Bandeira, pelo menos três elementos chamam a atenção: primeiramente, a diferença de gerações dentro do próprio Modernismo, fazendo com que os mais jovens tivessem uma posição mais aguerrida e combativa que os demais, a par de concepções de literatura e arte não totalmente esposadas por Guilherme de Almeida, por exemplo, inegavelmente um poeta da outra geração. Então, na visão de Sérgio Buarque e Prudente de Moraes, neto, ele também seria um “passadista”, embora isso não seja declarado. O segundo elemento é a distinção entre poesia e arte que Manuel Bandeira propõe, distinção dificílima no contexto em que é enunciada, por sugerir que os dois poetas referidos  Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho  poderiam ser bons versejadores, bons poetas no sentido mais tradicional do termo, mas não no sentido moderno que a palavra poesia passou a comportar. Por fim, o terceiro elemento seria justamente a discussão do que seria moderno em arte, e a polêmica em torno do ensaio de 1926 sugere que os principais nomes do Modernismo não tinham muita clareza acerca disso, e cada qual estava tateando seu caminho, tentando em maior ou menor grau ser moderno. E parece que justamente quanto maior a preocupação em sê-lo, menor o efeito alcançado, como se pode depreender da última frase de Manuel Bandeira, poeta modernista por excelência, mas que parecia dar pouca importância ao rótulo. Ou seja, a adesão epidérmica aos pressupostos estéticos do Modernismo não poderia funcionar como garantia de produção poética de qualidade, num contexto em que praticamente tudo estava em discussão, inclusive os tais pressupostos.

ANDRADE, Mário; BANDEIRA, Manuel. Correspondência de Mário de Andrade & Manuel Bandeira.  2. ed. Org., introdução e notas Marcos Antonio de Moraes.  São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Instituto de Estudos Brasileiros/USP, 2001.

Sérgio Buarque leitor da tradição romântica brasileira

Tornando possível a criação de um mundo fora do mundo, o amor às letras não tardou em instituir um derivativo cômodo para o horror à nossa realidade cotidiana. Não reagiu contra ela, de uma reação sã e fecunda, não tratou de corrigi-la ou dominá-la; esqueceu-a, simplesmente, ou detestou-a, provocando desencantos precoces e ilusões de maturidade. Machado de Assis foi a flor dessa planta de estufa.

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.162.

sábado, 11 de setembro de 2010

Clube da Esquina: o álbum

Não há adjetivos que cheguem para o álbum Clube da Esquina: uma torrente de surpresas e emoções e sensações e, por fim, algo parecido com o sublime: "San Vicente". Mas também "Um Girassol da Cor de Seu Cabelo", "Paisagem da Janela", "Cais", "O Trem Azul", "Tudo que Você Podia Ser", "Um Gosto de Sol", "Nada Será Como Antes" e, claro, "Clube da Esquina nº2", apenas melodia e a voz do Milton, mas já tão incorporada ao imaginário que é como se a letra estivesse ali, e fosse só cantar... e basta contar compasso, e basta contar consigo, que a chama não tem pavio, de tudo se faz canção e o coração na curva de um rio, rio, rio...

Paulo Leminski

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

Os melhores poemas de Paulo Leminski. 6. ed. São Paulo: Global, 2002, p.123.

rodapé

"Valha-me Deus! É preciso explicar tudo." (Machado de Assis)1 


________________________
1. Escrevo isso no quadro, pondo logo em seguida: “não é para anotar”. 

trilha sonora da cena final de "O Céu de Suely" (belíssimo, tudo)

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

[Canto X, Missão e Promissão, X]

Não a vaga palavra, corrutela
vã, corrompida folha degradada,
de raiz deformada, abaixo dela,
e de vermes, além, sobre a ramada;

mas, a que é a própria flor arrebatada
pela fúria dos ventos: mas aquela
cujo pólen procura a chama iriada,
― flor de fogo a queimar-se como vela:

mas aquela dos sopros afligida,
mas ardente, mas lava, mas inferno,
mas céu, mas sempre extremos. Esta sim,

esta é que é a flor das flores mais ardida,
esta veio do início para o eterno,
para a árvore da vida que há em mim.

LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 194. 

Guimarães Rosa, em entrevista concedida pouco antes de falecer

[...] mas na mesma hora em que leio tenho de fato paixão por aquilo, gosto imenso, de maneira que entra, deve ter entrado muita coisa. Mas ao mesmo tempo, pobre de mim, entra outra coisa, entra tanta coisa, ficando tudo misturado. O que entra eu junto com... Júlio Dantas, Fernando Camacho, Walter Benjamin, Goethe, Rubem Braga, Magalhães Junior, Machado de Assis, Eça de Queiroz. Nada é alto demais. Nem baixo demais. Tudo é aproveitável. Agora, qualquer coisa que eu leio, se eu gosto, eu começo a colaborar com o que leio, mentalmente, eu estou mudando, aproveitando, vivendo, imaginando...”

CAMACHO, Fernando. Entrevista com João Guimarães Rosa. Humboldt, Rio de Janeiro, vol. 18, n. 37, p. 52, 1978.

"São Marcos" (a sub-estória inserta na estória)

Foi quase logo que eu cheguei ao Calango-Frito, foi logo que eu me cheguei aos bambus. Os grandes colmos jaldes, envernizados, lisíssimos, pediam autógrafo; e alguém já gravara, a canivete ou ponta de faca, letras enormes, enchendo um entrenó:
  
“Teus olho tão singular
Dessas trancinhas tão preta
Qero morer eim teus braço
Ai fermosa marieta”.

E eu, que vinha vivendo o visto mas vivando estrelas, e tinha um lápis na algibeira, escrevi também, logo abaixo:

Sargon
Assarhaddon
Assurbanipal
Teglattphalasar, Salmanassar
Nabonid, Nabopalassar, Nabucodonosor
Belsazar
Sanekherib.

E era para mim um poema esse rol de reis leoninos, agora despojados da vontade sanhuda e só representados na poesia. Não pelos cilindros de ouro e pedras, postos sobre as reais comas riçadas, nem pelas alargadas barbas, entremeadas de fios de ouro. Só, só por causa dos nomes.
Sim, que, à parte o sentido prisco, valia o ileso gume do vocábulo pouco visto e menos ainda ouvido, raramente usado, melhor fora se jamais usado (...). E não é sem assim que as palavras têm canto e plumagem.

ROSA, João Guimarães. São Marcos. ___. Sagarana. 13. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p. 236-238.

Fernando Pessoa: intervalo doloroso (fragmento)

“Entre mim e a vida há um vidro tênue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não posso lhe tocar.” 

PESSOA, Fernando. Quando fui outro. (Org. Luiz Ruffato). Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p. 75.  

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

um trecho de "Grande sertão"

"Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado. Fui indo. De repente, de repente, tomei em mim o gole de um pensamento ― estralo de ouro: pedrinha de ouro. E conheci o que é socôrro." (ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.169).

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

um texto de Rildo Cosson sobre a experiência da literatura

A literatura e o mundo
"A literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão de mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade."
Antonio Candido, O direito à literatura (1995).

Gosto da ideia de que nosso corpo é a soma de vários outros corpos. Ao corpo físico, somam-se um corpo linguagem, um corpo sentimento, um corpo imaginário, um corpo profissional e assim por diante. Somos a mistura de todos esses corpos, e é essa mistura que nos faz humanos. As diferenças que temos em relação aos outros devem-se à maneira como exercitamos esses diferentes corpos. Do mesmo modo que atrofiaremos o corpo físico se não o exercitarmos, também atrofiaremos nossos outros corpos por falta de atividade.
Nesse sentido, o nosso corpo linguagem funciona de uma maneira especial. Todos nós exercitamos a linguagem de muitos e variados modos em toda a nossa vida, de tal modo que o nosso mundo é aquilo que ela nos permite dizer, isto é, a matéria constitutiva do mundo é, antes de mais nada, a linguagem que o expressa. E constituímos o mundo basicamente por meio das palavras. No princípio e sempre é o verbo que faz o mundo ser mundo para todos nós, até porque a palavra é a mais definitiva e definidora das criações do homem. Como bem diz o pensamento popular, se uma imagem vale por mil palavras, mesmo assim é preciso usar a língua para traduzir as imagens e afirmar esse valor. É por isso também que as usamos para dizer que não temos palavras para expressar um pensamento ou um sentimento. Em síntese, nosso corpo linguagem é feito das palavras com que o exercitamos, quanto mais eu uso a língua, maior é o meu corpo linguagem e, por extensão, maior é o meu mundo.
E de onde vêm as palavras que alimentam e exercitam o corpo da linguagem?  Aqui outra particularidade do nosso corpo linguagem. As palavras vêm da sociedade de que faço parte e não são de ninguém. Para adquiri-las basta viver em uma sociedade humana. Ao usar as palavras, eu as faço minhas do mesmo modo que você, usando as mesmas palavras, as faz suas. É por esse uso, simultaneamente individual e coletivo, que as palavras se modificam, se dividem e se multiplicam, vestindo de sentido o fazer humano.
Em uma sociedade letrada como a nossa, as possibilidades de exercício do corpo linguagem pelo uso das palavras são inumeráveis. Há, entretanto, uma que ocupa lugar central. Trata-se da escrita. Praticamente todas as transações humanas de nossa sociedade letrada passam, de uma maneira ou de outra, pela escrita, mesmo aquelas que aparentemente são orais ou imagéticas. É assim com o jornal televisionado com o locutor que lê um texto escrito. É assim com práticas culturais de origem oral como a literatura de cordel, cujos versos são registrados nos folhetos para serem vendidos nas feiras. Também a tela do computador está repleta de palavras e os video games cheios de imagens não dispensam as instruções escritas. Essa primazia da escrita se dá porque é por meio dela que armazenamos nossos saberes, organizamos nossa sociedade e nos libertamos dos limites impostos pelo tempo e pelo espaço. A escrita é, assim, um dos mais poderosos instrumentos de libertação das limitações físicas do ser humano.
O corpo linguagem, o corpo palavra, o corpo escrita encontra na literatura seu mais perfeito exercício. A literatura não apenas tem a palavra em sua constituição material, como também a escrita é seu veículo predominante. A prática da literatura, seja pela leitura, seja pela escritura, consiste exatamente em uma exploração das potencialidades da linguagem, da palavra e da escrita, que não tem paralelo em outra atividade humana. Por essa exploração, o dizer o mundo (re)construído pela força da palavra, que é a literatura, revela-se como uma prática fundamental para a constituição de um sujeito da escrita. Em outras palavras, é no exercício da leitura e da escrita de textos literários que se desvela a arbitrariedade das regras impostas pelos discursos padronizados da sociedade letrada e se constrói um modo próprio de se fazer dono da linguagem que, sendo minha, é também de todos.
Isso ocorre porque a literatura é plena de saberes sobre o homem e sobre o mundo. [...] Na leitura e na escritura do texto literário encontramos o senso de nós mesmos e da comunidade a que pertencemos. A literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar expressar o mundo por nós mesmos. E isso se dá porque a literatura é uma experiência a ser realizada. É mais que um conhecimento a ser reelaborado, ela é a incorporação do outro em mim sem a renúncia da minha identidade. No exercício da literatura, podemos ser outros, podemos viver como os outros, podemos romper os limites do tempo e do espaço de nossa experiência e, ainda assim, sermos nós mesmos. É por isso que interiorizamos com mais intensidade as verdades dadas pela poesia e pela ficção.
A experiência literária não só nos permite saber da vida por meio da experiência do outro, como também vivenciar essa experiência. Ou seja, a ficção feita palavra na narrativa e a palavra feita matéria na poesia são processos formativos tanto da linguagem quanto do leitor e do escritor. Uma e outra permitem que se diga o que não sabemos expressar e nos falam de maneira mais precisa o que queremos dizer ao mundo, assim como nos dizer a nós mesmos. [...]

COSSON, Rildo. Letramento literário. São Paulo: Contexto, 2007, p. 15-17.

Walter Benjamin

Uma crônica de Manuel Bandeira dedicada a Sérgio Buarque de Holanda

Sérgio Buarque de Holanda acaba de regressar da Alemanha, onde passou dois anos preparando uma invasão à Rússia, que fracassou

É a segunda tentativa desse gênero que ele leva a efeito. A primeira, todos devem estar lembrados, foi dentro do país. Sérgio planejava tomar Vitória de assalto. Os fins da campanha eram nobilíssimos e prendiam-se a motivos filosóficos, posso dizê-lo sem medo de errar, embora desconheça ainda hoje, como desconhecia então, os princípios que constituíam naquela época a “mensagem” (é a palavra elegante agora) de Sérgio. Como quer que fosse, meu amigo não chegou nunca a atingir a capital do Espírito Santo. Conseguiu penetrar até Cachoeiro do Itapemirim (a invasão se fez pelo sul) e lá se defendeu com bravura pelo tempo de quase dois anos. É interessante notar que a capacidade de resistência de Sérgio vai sempre até dois anos, valor que podemos firmar como a “constante de resistência” de Sérgio. Afinal a sua situação em Cachoeiro do Itapemirim se tornou insustentável, sobretudo depois de um baile na sociedade recreativa local e de um ou dois passeios líricos no jardim da praça da matriz, Sérgio Buarque de Holanda bateu em retirada, abandonando uma mala, que lá ficou indevidamente retida durante mais de um ano, o que motivou uma intervenção diplomática da província do Curvelo (Distrito Federal), porquanto dentro daquela mala se continham dois volumes preciosos, o Up Stream de Ludwig Levinsohn e a Antologia Modernista de Língua Inglesa de Harriet Monroe com dedicatória de Constance Lindsay Skinner para um dos mais magros representantes sobreviventes da velha aristocracia rural pernambucana. Enfim tudo acabou bem, exceto para o Liceu de Vitória, que perdeu a única oportunidade talvez de arranjar para professor de filosofia um homem que se distingue notavelmente entre nós por sua cultura.
A invasão da Rússia também redundou em fracasso, embora organizada com um senso mais agudo das realidades haurido na experiência anterior. Desta vez o objetivo de Holanda era morrer de fome em Moscou. Não o conseguiu, porém. Os exércitos vermelhos o atacaram e o aprisionaram 25 quilômetros além da fronteira polaca. Expulso do território russo, Holanda coisou a nova Alemanha, entrevistou o comandante do Zeppelin e o romancista Mann, que descobriu ser neto de brasileira, assassinou o Dr. Pontes de Miranda, foi redator da revista Duco e tradutor da Ufa, conversou várias vezes com Brigitte Helm (pronunciem Briguite), Marlene Dietrich (protagonista de Anjo Azul, que Sérgio diz ser o maior filme do mundo) e outros colossos de Rhodes.
Entrevista com Sérgio num bonde da Gávea à 1h30m da madrugada:
― ?...
― O poeta de mais influência sobre a geração nova é Hölderlin, toda a poesia atual deriva dele, é na Alemanha o que é Rimbaud na França, mais profundo que Rimbaud.
― ?...
― Dos velhos? Goethe.
― ?...
― Heine não, se lê muito menos. Schiller também caiu também caiu muito. Schiller é o representante da poesia do idealismo kantiano. O idealismo perde terreno cada vez mais na Alemanha. A mocidade está voltada para Klages, um nome quase inteiramente desconhecido fora da Alemanha e que dentro dela no entanto goza de enorme prestígio.
― ?...
― A filosofia de Klages é a da libertação dos instintos.
― ?...
― Quando saí daqui eu tinha uma tendência para o comunismo. Hoje estou achando nele o mesmo excesso de racionalismo do catolicismo. Comunismo e catolicismo são soluções extremamente racionalistas.
Por aí assim foi o Sérgio e passou depois a falar da prática da liberação de um certo instinto na Alemanha. Brasileiros que viveis uma vida apertada, conversai com o Sérgio! Ele vos contará coisas de deixar água na boca e traz detalhes surpreendentes, como o da venda em caixas automáticas, que se encontram por toda parte (nos cafés, nos bares, nas ruas, ao lado das caixas de correio) de um certo artigo de caout-chouc, que aqui só se compra em farmácia e meio que encalistradamente. Desse mesmo artigo há uma casa especial na Wilhelm Strasse, em cuja vitrine se ostenta um modelo da mercadoria em tamanho aumentadíssimo, aí coisa de um metro.
Todas essas picantes notícias da Alemanha não me consolam do desapontamento que meu causou o fracasso da invasão da Rússia pelo meu amigo Sérgio Buarque de Holanda. Tudo que se lê sobre a República dos Sovietes inspira desconfiança aos espíritos imparciais. As notícias são as mais contraditórias, segundo as ideias políticas dos viajantes que as visitam. E ainda se a gente pudesse acreditar na boa fé que as ditam, Sérgio, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu tino jornalístico, a sua probidade, estava nas condições de nos fornecer um depoimento de primeira ordem e inteiramente digno de confiança. Estou certo que ele escreveria um livro notável, que interessaria ao mundo inteiro. A mesma ausência de qualquer fé bem definida de sua parte, de adesão a qualquer sistema, era uma garantia da isenção com que ele nos informaria. A leve tendência que ele manifestava para a doutrina comunista, tendência que se dissipou ao contato da Alemanha nova, influenciada pela filosofia de Klages, era apenas o necessário e bastante para que ele tudo olhasse com a simpatia desapaixonada de que não são capazes nem os comunistas militantes nem os seus adversários. E agora acabou-se! Sérgio é da... libertação dos instintos...

O Jornal, RJ, 24.01.1931.

BARBOSA, Francisco de Assis (Org.). Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 291-293.

Emily Dickinson: "A Fala é um sinal de afeto / E outro o Silêncio"

A Fala é um sinal de Afeto
E outro o Silêncio
A arte da comunicação perfeita
Ninguém possui

Existe e lá no íntimo se prova
A sua evidência ―
O Apóstolo disse “Vejam” ―
Porém não viu!


Speech is one symptom of Affection
And Silence one ―
The perfectest communication
Is heard of none ―

Exists and its indorsement
Is had within ―
Behold, said the Apostle,
Yet had not seen!

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 80-81.

Emily Dickinson

Não interessa à Abelha
Se o Mel tem Dinastia ―
Um Trevo, sempre, para ela,
É Aristocracia.


The Pedigree of Honey
Does not concern the Bee ―
A Clover, any time, to him,
Is Aristocracy.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 256-257.