“Este é também o país em que aqueles que bradam contra a
corrupção dos escalões mais altos cometem cotidianamente seus pequenos atos de
corrupção sempre que têm oportunidade. A ideia de que o Congresso
democraticamente eleito, formado por um número considerável de oportunistas e
corruptos, não corresponde ao conjunto da população brasileira é talvez a maior
de todas as ilusões. É duro admitir, mas Eduardo Cunha é
nosso.”
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
sábado, 22 de agosto de 2015
Cecília Meireles: "De que alma é que vai ser feita / essa humanidade nova?"
Ambição gera
injustiça.
Injustiça, covardia.
Dos heróis martirizados
nunca se esquece a agonia.
Por horror ao sofrimento,
ao valor se renuncia.
Injustiça, covardia.
Dos heróis martirizados
nunca se esquece a agonia.
Por horror ao sofrimento,
ao valor se renuncia.
E,
à sombra de exemplos graves,
nascem gerações opressas.
Quem se mata em sonho, esforço,
mistérios, vigílias, pressas?
Quem confia nos amigos?
Quem acredita em promessas?
nascem gerações opressas.
Quem se mata em sonho, esforço,
mistérios, vigílias, pressas?
Quem confia nos amigos?
Quem acredita em promessas?
Que tempos medonhos
chegam,
depois de tão dura prova?
Quem vai saber, no futuro
o que se aprova ou reprova?
De que alma é que vai ser feita
essa humanidade nova?
depois de tão dura prova?
Quem vai saber, no futuro
o que se aprova ou reprova?
De que alma é que vai ser feita
essa humanidade nova?
Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência. 9.ed. São
Paulo: Global, 2012, p.164. Trecho do “Romance
LIX ou Da reflexão dos justos”.
"A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido." (Sérgio Buarque de Holanda, 1936)
“Mas no caso de um eventual impeachment, também haverá quem vai prestar mais
atenção ao fato de que, dos quatro presidentes que o Brasil teve após a retomada da democracia, dois não terminaram seus mandatos.”
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Orides Fontela
ADVENTO
Deste
templo múltiplo
o que nascerá?
Da onda
rítmica
amplitude
da intensidade
amorfa
ritmicamente esfacelada
do múltiplo que um
mais que tempo virá
e que luz haverá além
do tempo?
o que nascerá?
Da onda
rítmica
amplitude
da intensidade
amorfa
ritmicamente esfacelada
do múltiplo que um
mais que tempo virá
e que luz haverá além
do tempo?
FONTELA,
Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7
Letras, 2006, p.66.
quem o colocou lá?
De mais de um interlocutor, ouvi que Cunha é um mal
necessário. Ai de nós, a precisarmos de males dessa envergadura.
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
antes tarde
“A queda de Cunha era questão de tempo.
Figuras como ele são eficientes para agir nas sombras, não na linha de frente.
Ainda mais com a megalomania que sempre o acompanhou, acima de qualquer limite
de prudência. Em ambiente democrático, não há espaço para os superpoderosos.
Tanto assim, que um dos truques
históricos da mídia, quando quer marcar um inimigo, é superestimar seus poderes.
O sujeito entra na marca de tiro, torna-se alvo não só de jornais como de
outros poderes.”
domingo, 16 de agosto de 2015
sábado, 15 de agosto de 2015
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
esquecimento (paulo leminski)
um dia sobre nós também
vai
cair o esquecimento
como a chuva no telhado
e
sermos esquecidos
será quase a felicidade
Paulo
Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia
das Letras, 2013, p.292.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
sábado, 8 de agosto de 2015
política e corrupção (existe diferença entre as duas no Brasil?)
“Quando
temos um câncer na presidência da Câmara, que não tem nenhuma responsabilidade
com o orçamento e a recuperação do país, nós temos o fim da política.” José Arthur Gianotti (aqui)
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
narrativa da crise
Os principais veículos de comunicação do país parecem
de acordo no objetivo de criar um clima de incerteza, alarmismo e pânico. Nunca
eu entendi tanto como agora os meandros (sujos) do poder no Brasil. E esse
entendimento faz mal, atordoa, entristece, deprime. Mais grave que os políticos e seus interesses
sórdidos é o modo como os caciques e os blocos partidários estão disputando
entre si o poder de deter e conduzir a narrativa da crise, espetacularizando a
própria atuação. Estão atirando no pé — da democracia.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
...que seria do amarelo?
Sou essencialmente melancólica — a vida me parece
quase sempre um circo trágico. Ao mesmo tempo, coexistindo com isso, tenho um senso
de humor constante, que me faz rir do que em princípio poderia parecer sem
graça. Exemplo? Certas passagens de Machado de Assis, como esta, de “O
alienista”: “Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do
amarelo?” Machado está falando de uma coisa séria, e de repente introduz uma
comparação que quebra a seriedade do tema e confirma a falta de sentido da
ciência do alienista, comparação que é, também, muito próxima do senso comum. Deve
ser isso que faz rir, produz a comicidade. E também imaginar o próprio Machado
escrevendo isso, pilheriando com o leitor.
quarta à noite
Na quarta, bar ótimo, cerveja boa e amigos dando show
de interpretação de “Heart of Gold”. Nem tudo é notícia ruim — e o bar fica
perto de casa.
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