Há uma mulher atualmente ocupando o cargo
de Presidente a República. E as pessoas utilizam panelas para hostilizá-la.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quarta-feira, 16 de março de 2016
quinta-feira, 10 de março de 2016
sobre o pedido de prisão do ex-presidente Lula (Brasil, uma desilusão completa)
Mas é mais do que óbvio: há um grupo querendo incendiar o país,
para depois atuar como bombeiro. Mais uma vez o país vai ser conduzido
ao retrocesso, em todos os sentidos. Infelizmente. Pois, afinal, trata-se de um indivíduo perigosíssimo, não é mesmo? Aplausos gerais para os que estão
estourando seus champanhes hoje, agora mesmo. Os mesmos de sempre.
quarta-feira, 2 de março de 2016
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Julio Cortázar
DISCURSO
DO URSO
Eu
sou o urso dos canos da casa, subo pelos canos nas horas de silêncio, pelos
tubos de água quente, do aquecimento, do ar condicionado, vou pelos tubos de
apartamento em apartamento, sou o urso que vai por todos os canos.
Acho
que gostam de mim porque meu pelo conserva os condutos limpos, corro
incessantemente pelos tubos e do que eu mais gosto é passar de andar em andar
escorregando pelos canos. Às vezes puxo uma pata pela bica e a moça do terceiro
andar berra que se queimou, ou grunho na altura do forro do segundo andar e a
cozinheira Guillermina se queixa de que o gás anda ruim. De noite ando calado e
é quando ando mais depressa, apareço no teto pela chaminé para ver se a lua
está dançando lá em cima, e me deixo escorregar como o vento até as caldeiras
do porão. E no verão nado à noite na cisterna salpicada de estrelas, lavo o
rosto primeiro com uma mão, depois com as duas juntas, e isso me produz uma
alegria muito grande.
Então
escorrego por todos os canos da casa, grunhindo contente e os casais se agitam
em seus leitos e reclamam contra a instalação dos encanamentos. Alguns acendem
a luz e escrevem num papelzinho para lembrar-se de reclamar quando virem o
porteiro. Eu procuro a bica que sempre fica aberta em algum andar, por ali meto
o nariz e espio a escuridão dos quartos onde moram esses seres que não podem
andar pelos canos, e fico com pena de vê-los tão desajeitados e grandes, de
escutar como roncam e sonham em voz alta e estão tão sós. Quando eles lavam o
rosto de manhã, eu lhes acaricio as faces, lambo-lhes o nariz e vou-me embora,
vagamente convencido de ter feito um bem.
CORTÁZAR,
Julio. Histórias de cronópios e de famas.
Trad. Gloria Rodríguez. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009,
p. 81-82.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
inocência cruel
Já faz certo tempo que venho censurando em mim
qualquer forma de inocência. Não é um processo consciente. Antes, é uma atenção
muda e tensa aos movimentos ao meu redor. Mas certamente a inocência presente,
aquela que ainda não se revelou como tal, deve escapar ao cerco. E então há a
dor da incerteza em relação... em relação a quê? Pois é, não sei.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
memória
Há um conto de Caio Fernando Abreu intitulado “Pela passagem de uma grande dor”. Pressuposto: a dor, mesmo grande, passa. Quando
passa, costuma deixar cicatrizes, que são marcas da ferida que se fechou. Minha
indagação é: conviver com as cicatrizes deixa a dor, que um dia foram, no
passado? Não. Olhar as cicatrizes não deixa esquecer a dor. A dor, cicatrizada,
não é mais dor. Mas a cicatriz é a memória da dor.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
"Ia-o conseguindo?"
Esta pergunta pontua o entrecho do conto “O Espelho”,
de João Guimarães Rosa, numa digressão que termina por interpelar o leitor. A
narrativa condensa um percurso assaz complexo rumo a si mesmo, que o narrador
descreve ao leitor uma vez finda a experiência com o espelho. A questão resume a
angústia diante de uma transformação ou percurso existencial complexo que
alguém porventura atravesse. Ia-o conseguindo? No labirinto da vida, é uma
pergunta que se faz, sem que se vislumbre uma resposta. A pergunta ecoa nos
labirintos da própria mente.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
impressões na fila do caixa
Ir ao mercado tornou-se um exercício dramático de
descapitalização ― e de votos de abstinência: vou me abster do palmito; vou me
abster do tomate; vou restringir a cebola. Do pão não preciso me abster, pois
já não faz mais parte da dieta há algum tempo. O que sinto, percebo, é que as
pessoas estão sendo maltratadas nessa alta abusiva de preços, e em muitas outras situações. Em nome de
índices fabricados e de contas amargas, os preços dos produtos de consumo diário
dispararam, não sem uma dose de má-fé por parte dos donos de estabelecimentos
comerciais. Em novembro do ano passado, diante da oferta de maçãs avariadas e hiper
inflacionadas, tive um choque de realidade no mercado e considerei a
possibilidade de ir a Brasília dar uma bifa na cara de Eduardo Cunha, o
político mais sórdido do país nos últimos anos. Porque é claro que há uma
relação entre os podres poderes e as maçãs podres, oferecidas aos pobres. Não
fui, claro; perderia meu emprego e ganharia problemas com a justiça. O
brasileiro reclama, com razão, do preço do pão, do tomate, da cebola. O melhor
conselho que ouvi foi também no mercado: deixa apodrecer, não compra.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
o silêncio atravessa o tempo
Já pensei em fechar este blog, excluí-lo, parar de
escrever, ou melhor, de supor que escrevo. Já pensei em editá-lo ― mas mesmo
pensar a sério nisso eu não penso. O que tenho na verdade é preguiça, muita, em
especial de olhar para trás, fazer revisões. Não quero sobre mim a maldição da
mulher de Lot, nem nenhuma outra. A densidade do presente ― do
instante-presente que a cada instante se esvai em passado, virando sal, tempo
estéril e perdido ― é tal que o silêncio muitas vezes é mais convidativo que a
palavra.
domingo, 17 de janeiro de 2016
a morte
Uma das fábulas de Millôr Fernandes termina pela
seguinte fórmula: o importante não é a morte, é o que ela nos tira. Quando me
pergunto o que a morte de David Bowie me tirou, descubro que a fórmula de
Millôr talvez merecesse revisão. A morte importa na medida em que nos tira algo,
essa é a sua dimensão. Ela importa, incomoda, pelo que tira, subtrai.
sábado, 16 de janeiro de 2016
prece espontânea (enquanto preparava o almoço):
― Senhor, livra-me de mim, que do resto eu me livro.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
"O dia em que David Bowie não morreu" (os parágrafos iniciais resumem o que consigo intuir)
Há uma era que se aproxima do fim quando morre David Bowie.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
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