DA HUMANA CONDIÇÃO
Custa o rico a entrar no Céu
(Afirma o povo e não erra).
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra...
QUINTANA, Mário. Eu passarinho. São Paulo: Ática, 2006, p.41.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
DA HUMANA CONDIÇÃO
Custa o rico a entrar no Céu
(Afirma o povo e não erra).
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra...
QUINTANA, Mário. Eu passarinho. São Paulo: Ática, 2006, p.41.
...durante a pandemia de Covid-19, e ainda estou meio enlutada, porque, no Brasil, o desastre não acabou, não só pelas mortes evitáveis, comprovadas por mais de um levantamento, como também pelo crescente negacionismo científico que afeta as medidas de prevenção sanitária e a cobertura vacinal. Nos links a seguir constam levantamentos das vidas que poderiam ter sido salvas, em torno de 400 mil -- cuja responsabilidade é de um monstruoso ser alçado à presidência da República em 2018:
ENum cartum antigo de Aroeira (1993!), contudo, o monstro já estava desenhado, assim como em inúmeras falas, vídeos, gestos, agressões. Então quem votou nele não pode se dizer inocente ou mal informado.
Em noite tropical
A noite se perfumava
Da brisa do roseiral.
Respirei o ar de Deus
No sono do vegetal,
Mas não gostava da lua
Com seu brilho mineral
Porque sem dizer a ela
Me fazia muito mal
Temer a todo momento
A voz de um policial.
Inês despida na relva
Era uma Inês irreal.
O claro-escuro do ventre
Luzia na noite nua
Como as luzes de um punhal.
Quando depois se vestia
A aurora amadurecia
As copas do pinheiral.
A palavra escrita (1951)
as meninas que tina me deu
são tão novas nem imaginam não sabem
que quando alguém diz
preciso de um tempo para pensar
esse alguém irá embora para sempre
ainda são tão novas
não querem cuidar dos dentes
ter muito dinheiro
morar no mato
encontrar um psicólogo que aceite
o plano de saúde
não sabem nem imaginam
que o espírito se degrada em vício
que alcoolismo não é coisa engraçada
que os homens
gostam de fazer as mulheres
de brinquedo
DAHMER, André. Impressão sua: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p.56. Página oficial do ofício mais conhecido do autor: http://www.malvados.com.br/.
clarice e manuel
― você também veio para aqui...
― sim, caí como letra viva na página em branco ― e abri a porta.
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