Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 30 de abril de 2012

relendo grande sertão: veredas (XVII): "o real roda e põe adiante"

“O Menino me deu a mão: e o que mão a mão diz é o curto; às vezes pode ser o mais adivinhado e conteúdo; isto também. (...) Para que refletir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido ― porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe adiante. ― ‘Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos’ ― me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajuda e amortece ― só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu.”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 154-155.

domingo, 29 de abril de 2012

Manuel Bandeira, sempre uma descoberta

O MARTELO

As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas. 

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.168.

dansa ligeira

“E aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E êles negaceavam e pulavam, numa dansa ligeira, de sorriso na bôca e faca na mão.”

Rosa, João Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga. Sagarana. 6.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, p.362-363.

Uma coisa são os acordos ortográficos, com as modificações na norma de grafia das palavras; outra é a criação lexical de um autor como Guimarães Rosa, infelizmente desrespeitada nas sucessivas edições de sua obra. A edição da Nova Fronteira é bem irregular. Na edição de 2001 de Sagarana lê-se assim o trecho citado:

“E aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E eles negaceavam e pulavam, numa dança ligeira, de sorriso na boca e faca na mão.” (p.410)

O que é lamentável, pois em Guimarães Rosa as palavras querem dansar, na frase e no universo do leitor, insinuar, no ‘s’, o movimento que elas vivificam...

relendo grande sertão: veredas (XVII)

“Mas lá não cheguei. Em certo ponto do caminho, eu resolvi melhor minha vida. Fugi. De repente, eu vi que não podia mais, me governou um desgosto. Não sei se era porque eu reprovava aquilo: de se ir, com tanta maioria e largueza, matando e prendendo gente, na constante brutalidade. Debelei que descuidassem de mim, restei escondido retardado. Vim-me. Isso que, pelo ajustado, eu não carecia de fazer assim. Podia chegar perto de Zé Bebelo, desdizer (...). Não podia? Mas, na hora mesma em que eu a decisão tomei, logo me deu um enfaro de Zé Bebelo, em trosgas, a conversação. Nem eu não estava para ter confiança nenhuma em ninguém. A bem: me fugi, e mais não pensei exato. Só isso. O senhor sabe, se desprocede: a ação escorregada e aflita, mas sem substância narrável.”  

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 151-152.

relendo grande sertão: veredas (XVI)

“Zé Bebelo, olhando, me olhou, notou moleza. ― ‘Tem dó não. São os danados de façanhosos...’ Ah, era. Disso eu sabia. Mas como ia não ter pena? O que demasia na gente é força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 150.

sábado, 28 de abril de 2012

you can dance

mas é de fato um dia muito bonito!...

29 de abril ― Dia Internacional da Dança
Meia volta, toda a volta,
Muitas voltas de dançar...
Quem tem sonhos por escolta
Não é capaz de parar.
(Fernando Pessoa, Quadras, I, 109, p. 38)

eternal circle

Álvaro de Campos

(...)
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora,
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza é Tudo,
E fora d’Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.224.

teresinha

cantiga = canção antiga

quinta-feira, 26 de abril de 2012

relendo grande sertão: veredas (XV)

“Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: ― ‘Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...’ ― ciente me respondeu. Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos.”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 74.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Álvaro de Campos: "E toda a realidade é um excesso, uma violência"

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas,
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
(...)

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.224.

o poema de ontem à noite

O poema de ontem à noite,
irrecuperável,
lido pouco antes de dormir.
Álvaro de Campos a latejar
na memória,
impossível e próximo:
e qualquer coisa de sagrado
se aproxima de mim.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Luis Fernando Verissimo: "controlar a demência solta no mundo"

SOZINHOS

Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:
Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.
― Ronca.
― Não ronco.
― Ele diz que não ronca ― comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.
Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar e sai cedo. Ficam os dois sozinhos.
― Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer ― diz ela. E em seguida tem a ideia infeliz. ― É o que eu vou fazer! Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.
― Humrfm ― diz o velho.
Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias ideias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.
Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.
Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.
― Rarrá! ― diz a velha, feliz.
Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha também ronca!
― Rarrá! ― diz o velho, vingativo.
E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida. Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio ― por causa dos roncos ― não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes. É um diálogo sussurrado.
"Estão prontos?"
"Não, acho que ainda não..."
"Então vamos voltar amanhã..."


VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.31-33.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

littera

Tomar posse da linguagem, um patrimônio que não se possui.

senso comum

Vivemos uma época de avanço ímpar, que está revolucionando a forma de lidar com o conhecimento. Mas o problema ainda parece residir neste. Algumas verdades do senso comum parecem resistir à erosão do tempo e das revoluções científicas que o homem opera. Basta abrir os ouvidos ao que as pessoas dizem umas às outras nas ruas, nos ônibus. Por exemplo: a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. 

um verso de JCMN, e o mundo serena da loucura

AS CARTAS DE DYLAN THOMAS

A capacidade de sim
que é incapaz de assentimento;
a incapacidade de ser,
ao fazer, massa e não fermento:
o incapaz de tocar a massa
sem lhe mudar o fazimento.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.47.

the boundaries of life and death (animação)

domingo, 22 de abril de 2012

e amanhã é dia de são jorge

Deus o ouvirá?

“A angústia, a angústia era contranatural! ‘Meu Deus! Meu Deus! ― pensou nosso herói voltando um pouco a si, reprimindo no peito um pranto surdo ―, dá-me firmeza de espírito na profundidade sem fim de minhas desgraças!”

Dostoiévski, Fiódor. O duplo: poema petersburguense. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Ed. 34, 2011, p.217.