Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 30 de junho de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
decantando o dia de hoje...
...
reserva de pousada em paraty para a 2ª semana de julho, para mim e uma amiga; saindo
de casa com atraso; documento do exame esquecido em casa; horário do exame
perdido; remarcação do exame para mais tarde; conclusão de um trabalho; envio
de e-mail de trabalho; saída para o exame; tráfego intenso na ayrton senna;
parada na etna para comprar uma estante; desistindo de vez da cama box para
comprar uma cama charmosa e bem em conta na liquidação da etna; como as coisas
vendidas nesta loja são bonitas e tentadoras; conclusão da compra da estante e
da cama; saindo em cima da hora para o barra shopping; chegada ao barra
shopping para o exame; informação de que confundi o horário do exame (que,
pelas evidências, não era mesmo para ser feito hoje); remarcação do exame para
amanhã; almoço no barra shopping; aquisição de uma agenda telefônica na
saraiva; retorno para a taquara, com quase uma hora de congestionamento e
lentidão na altura da cidade de deus (um trânsito de testar a paciência de
qualquer motorista), para resolver pendência nas casas bahia; dor de cabeça
intensa, pelo dia cheio de coisas a fazer e resolver, em especial o que
faltava; pausa para uma long neck com bolinho de bacalhau na taquara, para
refrescar o ânimo; rumo das casas bahia, para cancelar a compra da cama com
defeito; enfim, home sweet home.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
fotografia antiga
Como, em tão curto espaço de tempo, alguém
pode se sentir tão diferente? Ninguém nasce só uma vez ― nem mesmo a morte detém
a unicidade, pois é um completo mistério. Mas é como se ao longo da vida ― e deve-se sublinhar esta
palavra, vida ― fosse ocorrendo uma espécie de negociação entre vida e
morte: a cada etapa de renovação (renascimento) que uma pessoa experimenta,
alguma coisa nela morreu. E por isso, às vezes, a vaga sensação de
estranhamento, diante, por exemplo, da imagem que o espelho oferece, ou de uma
fotografia que de repente parece antiga.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
extraindo palavras do silêncio
Ontem,
em mais uma sessão de análise em que me perguntava, antes, e diante de um
trânsito congestionado e desanimador, o que iria dizer, acabei extraindo da
vontade de silêncio (diante de um analista essa vontade muitas vezes é
imperiosa) a constatação de que saí de uma situação bastante complicada
escrevendo ― o que não deixa de acordar algumas cositas neste espaço.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
docência
Não existe ex-professor, assim como não há
ex-médico, ex-engenheiro, ex-advogado, no sentido com que usualmente se diz
“ex-professor”. O aluno pode se tornar ex-aluno, mas isso não necessariamente
remete seus professores à categoria de ex, simplesmente porque o professor,
quando foi seu professor, foi por inteiro, e o trabalho feito não se perdeu ― a não ser que o aluno nunca, de fato,
tenha sido aluno, o que dispensaria, por sua vez, de pensar em ex-aluno. A
oração “quando foi seu professor” não pressupõe esta outra,
“quando foi professor”: o professor não deixa de ser professor quando o aluno
deixa a escola ― deixa de ser aluno ―, pois o exercício de sua profissão não se restringe,
temporalmente, à vivência que o aluno teve com ela.
domingo, 24 de junho de 2012
arca de babel
Ancelmo Gois relata, em sua coluna de O Globo deste domingo, que um
diplomata definiu a Rio+20 como Torre de Noé, em virtude de parecer, pela
diversidade dos participantes, uma mistura de Torre de Babel com Arca de Noé. Trocando em miúdos: confusão a bordo da nave-discurso da sustentabilidade,
com risco de naufrágio.
sábado, 23 de junho de 2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
álvaro de campos senhor de si e de sua poesia
(...)
Tenho desejo forte,
E o meu desejo,
porque é forte, entra na substância do mundo.
PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São
Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.233.
números e enganos
Como fiz letras, declinei de entender de contas e números
mais sofisticados, como esses com que o governo, os economistas e os
tecnocratas nos enganam. Mas penso que enveredar pela ficção é ser mais bem
enganado.
até que o infinito nos separe
Agora moro no 803, números que se completam e se (con)fundem.
Como música de fundo, o magnífico CD Milagre
dos Peixes.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
moldura para tv
Nas Casas Bahia, ao tentar
comprar uma estante, ouço do vendedor, diante das opções disponíveis, simples
molduras de TV LCD: “Não sei o que está acontecendo, as pessoas não estão mais
lendo.”
sair do eterno retorno
No rasto deixado
pelas amizades perdidas, uma constatação: minha baixa imunidade à intimidade. Em
todas as amizades que perdi ― ou abandonei ― não suportei alguma coisa que só posso chamar de
excesso do outro em mim. De tal forma
que não consigo saber se perdi ou provoquei a perda. Há qualquer coisa de incompetência nisso, um viver eternamente amador, uma dificuldade incrível de
perceber limites. Pois, se é para (se) afastar depois, por que permitir a
aproximação? Talvez pela esperança, tímida, de que a vida surpreenda.
m a r c a d o r e s
Uma utilidade para os marcadores: apagar em bloco textos e
postagens com prazo de validade vencido.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
C E R T E Z A S
“Distinguirei, no fenômeno chamado certeza, a parte subjetiva e a objetiva ― a certeza em si, e aquilo de que há certeza. Considerada em si, a certeza nada vale. Nenhum de nós tem mais certeza de ter diante de si esta página que tem um perseguido de estar sendo perseguido por numerosos ‘inimigos’, ou um megalômano de ser Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo. O lugar das certezas absolutas, inteiras, que não sentem dúvida nem hesitação, é o manicômio.”
Fernando Pessoa, Textos filosóficos, vol. II, p. 246 (AQUI).
terça-feira, 19 de junho de 2012
flor-de-índio
Enfim, para trás
ficaram a casa e alguns sonhos. No novo lar, ainda a surpresa momentânea de agora
encontrar-me aqui, e não mais lá. Nas Casas Bahia, onde fui buscar complemento
para poder habitar a nova casa, surpreendi-me com a singeleza de meu penúltimo
endereço em Belo Horizonte (um antigo cadastro, mantido pelo site): Rua Flor-de-Índio, bairro Liberdade. Foi lá que comecei a vir para o Rio de Janeiro, através da notícia do concurso,
enquanto me mudava para o Centro, Av. Augusto de Lima. Morei em muitas ruas,
cujos nomes evaporaram de minha lembrança. Não lembro mais o nome da rua em que
residi no bairro Sagrada Família, nem da que morei em Estrelinha (Vitória-ES).
O acaso de um registro datado trouxe-me a singeleza de um nome de rua, onde
muita coisa se deu.
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