Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Muddy Waters in The Last Waltz

Vladimir Maiakóvski

ALGUM DIA VOCÊ PODERIA? 

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco 
e mostrei oblíquas num prato 
as maçãs do rosto do oceano. 

Nas escamas de um peixe de estanho 
li lábios novos chamando. 

E você? Poderia 
algum dia 
por seu turno tocar um noturno 
louco na flauta dos esgotos? 

1913

Maiakóvski: poemas. Trad. Boris Shnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. 8.ed. São Paulo: Perspectiva, 2011, p.66. Tradução deste poema: Haroldo de Campos.

a força do vento, do que está blowin' in the wind

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

flores do jardim da infância

Eu queria estar colhendo flores, muitas flores, das sementes que plantei na aurora da vida ― quando a palavra inocência não fazia sentido, porque não era requisitada. 

canção maravilhosa, interpretação perfeita de milton nascimento

Voa Bicho
Telo Borges / Márcio Borges

Ah, andorinha voou, voou, fez um ninho no meu chapéu
e um buraco bem no meio do céu
e, lá vou eu como um passarinho, sem destino nem sensatez
sem dinheiro nem pro pastel chinês
ah, andorinha voou, voou, fez um ninho na minha mão
e um buraco bem no meu coração
e, lá vou eu como um passarinho, como um bicho que sai do ninho
sem vacilo, nem dor na minha vez
ah, andorinha voa veloz, voa mais do que minha voz
andorinha faz a canção que eu não fiz
andorinha voa feliz, tem mais força que minha mão
mas sozinha não faz verão
(versão com Telo Borges)

homem elegante

"você tem a coisa mais preciosa que existe: candura" 
(clarice lispector dirigindo-se a chico buarque)

memórias póstumas de brás cubas: um narrador cruel e cético

CAPÍTULO XIII / UM SALTO

UNAMOS agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos.
Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada, a palmatória, e ainda assim... Ó palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é a mestra das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho — ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.
Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta página: Ludgero Barata — um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calças, — umas largas calças de enfiar —, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados, moleques. Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.
[...] 

Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo, 2008, p.70-72.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

memória:

AVAREZA

Os momentos mais belos de nossa vida, desconfio que ficam para sempre esquecidos, porque a memória, essa velha avarenta, os rouba e guarda a sete chaves no baú.

Mário Quintana. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p.688.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

as palavras cautelosas

Quando, na caminhada noturna, vou chegando perto de uma região mais sombreada e vazia, lembro-me do acontecido no último Natal, e percebo que esse acontecido quer encontrar lugar nas palavras, está pedindo por isso, porque se recusa a tornar-se esquecimento. Fico imaginando que milagres poderia conceber a partir das palavras, e contudo ainda não consegui encontrar aquelas que vão dar ao acontecido o contorno que ele está pedindo. Então hesito.

quando a calma invade a alma

A prática mais ou menos regular de atividade física ― caminhada e natação ― trouxe-me inúmeros benefícios. Não sei se por efeito ou força disso, eu me percebi mais alheia ao mundo, às coisas, às pessoas. Creio que se intensificou, antes, uma transformação que vinha em curso lento e quase imperceptível, um movimento desde sempre meu, remontando à infância. O mantra tomado de empréstimo a Álvaro de Campos: “Fique eu só com o grande sossego de mim mesmo / É um universo barato”. Só com o grande sossego de mim mesmo(a). Quanta coisa neste verso elíptico, em que o eu e seu reflexo (mim mesmo) miram-se sossegadamente. Sobretudo isso: o grande sossego advém também de ser um universo barato.

sonho de um carnaval (que gente triste possa entrar na dança)

e quem não gosta de carnaval?

Nesta madrugada a prefeitura deixou alguns banheiros químicos aqui na rua. Tive esperança de que estivessem aqui só provisoriamente, destinados a outro lugar. Foliões de uma agremiação local fazem saber que o barulho ― muito ― será aqui também. 

desordem

Sonhei com este espaço. Aparecia-me caótico, com erros e furos, contrariamente ao modo com que o percebo, e não era uma questão de marcadores. Depois, ou concomitantemente, eu entabulava uma conversa meio acadêmica meio nonsense com alguém, versando sobre idiossincrasias minhas que não fazem qualquer sentido, depois de passado o sonho, e portanto não são traduzíveis. Por fim aparecia uma tradutora, conhecida minha e de meu interlocutor, para ajudar nos trabalhos.

José Paulo Paes

IVAN ILITCH, 1958

Trrrim, bocejo, 
Roupão, chinelos, 
Gilete, escova,
Água, sabão, 
Café com pão, 
Chapéu, gravata, 
Beijo, automóvel, 
Adeus, adeus.

Gente, trânsito, 
Sol, bom-dia, 
Escritório, 
Relatório, 
Telefones, 
Almoço, arroto, 
Contas, desgosto, 
Adeus, adeus. 

Clube, vento, 
Grama, tênis, 
Ducha, alento, 
Bar, escândalos, 
Pedro, Paulo, 
Mulher de Pedro, 
Mulher de Paulo, 
Adeus, adeus. 

Lar, esposa, 
Filhos, pijama, 
Janta, living, 
Jornal, cismares,
Tricô, vagares, 
Hiato, ausências, 
Bocejo, escada, 
Adeus, adeus. 

Quarto, cama, 
Glândulas, êxtase, 
Dois em um, 
Dois em nada, 
Dever cumprido, 
Luz apagada, 
Adeus, adeus. 

Horas, dias, 
Meses, anos, 
Cãs, enganos, 
Desenganos, 
Vácuo, náusea,
Indiferença, 
Cipreste, olvido, 
Há Deus? adeus. 

José Paulo Paes. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.141-142.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

a experiência da dor e da morte

A morte de Ivan Ilitch é um livro que se lê devagar ― devagar no sentido da expectativa de leitura e do(s) sentido(s) do que está sendo narrado. Esse sentido vai chegando sem alarde, e nunca chega de todo, como se a leitura continuasse depois de finda a narrativa e a vida de Ivan Ilitch. Tudo é muito doloroso, morte e vida compõem o mesmo teatro hediondo que causa horror a Ivan Ilitch no final trágico de sua vida, vida que trazia a morte em embrião: “Quando ele viu de manhã o criado, depois a mulher, em seguida a filha, o médico, cada um dos movimentos deles, cada uma de suas palavras confirmavam para ele a terrível verdade que se revelara naquela noite. Via neles a si mesmo, tudo aquilo de que vivera, e via claramente que tudo aquilo era não o que devia ser, mas um embuste horrível, descomunal, que ocultava tanto a vida como a morte.” (TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Trad. Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009, p.72). 

the man in me (bob dylan): canção maravilhosa

palavrões engatilhados

Como pedestre contumaz, convivo com as infrações cometidas pelos motoristas, de variada espécie, a mais comum sendo o avanço do sinal vermelho, limitando ainda mais o tempo de travessia do pedestre. A rua é deles, dos carros e seus proprietários, os pedestres que se virem. Pois eu, além de me virar, tenho para essas situações alguns palavrões engatilhados, que pronuncio antes para dentro, mas que saem como resposta reflexa ao desrespeito. "Corno", por exemplo, eu sempre falo. Não vai mudar nada, mas também, se eu for atropelada, por exemplo, a única coisa que vai mudar é que vou deixar de existir ― morrer ―, porque a impunidade grassa como os cornos neste país. Nada vai mudar. Mas eu, dizendo meu xingamento, ainda que para dentro, fico mais forte, e adio minha morte.

My Ambition (The Finks)