Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quinta-feira, 20 de março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
Carlos Pena Filho
SONETO DAS DEFINIÇÕES
Não falarei das coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito
à música das cores e dos ventos.
Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.
Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.
Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.
Os melhores poemas de Carlos Pena Filho. 4.ed. são Paulo:
Global, 200, p.91.
terça-feira, 18 de março de 2014
Paulo Henriques Britto
Dentro da noite que construo aos
poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o
tédio
que descasco e rejeito, em que
dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou
luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto,
ou como
um outro pano mais definitivo.
Paulo Henriques Britto. Mínima lírica. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013,
p.27.
domingo, 16 de março de 2014
Emily Dickinson
Cirurgiões
precisam ter cautela
Com
sua lâmina afiada –
Por sob as finas incisões se agita
A Vida – essa Culpada!
Surgeons
must be very careful
When
they take the knife!
Underneath
their fine incisions
Stirs the Culprit – Life!
DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras,
2008, p.240-241.
sábado, 15 de março de 2014
Stéphane Mallarmé
A TUMBA DE EDGAR POE
Tal que a Si-mesmo enfim a Eternidade o guia,
O Poeta suscita com o gládio erguido
Seu século espantado por não ter sabido
Que nessa estranha voz a morte se insurgia!
O Poeta suscita com o gládio erguido
Seu século espantado por não ter sabido
Que nessa estranha voz a morte se insurgia!
Vil sobressalto de hidra ante o anjo que urgia
Um sentido mais puro às palavras da tribo,
Proclamaram bem alto o sortilégio atribu-
Ído à onda sem honra de uma negra orgia.
Um sentido mais puro às palavras da tribo,
Proclamaram bem alto o sortilégio atribu-
Ído à onda sem honra de uma negra orgia.
Do solo e céu hostis, ó dor! Se o que descrevo —
A ideia só — não esculpir baixo-relevo
Que ao túmulo de Poe luminescente indique,
A ideia só — não esculpir baixo-relevo
Que ao túmulo de Poe luminescente indique,
Calmo bloco caído de um desastre obscuro,
Que este granito ao menos seja eterno dique
Aos voos da Blasfêmia esparsos no futuro.
Que este granito ao menos seja eterno dique
Aos voos da Blasfêmia esparsos no futuro.
Mallarmé.
Trad. Augusto de Campos. 4.ed. São Paulo: perspectiva, 2010, p.67.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Emily Dickinson
No
fim nos guia a Experiência –
Sua acerba amizade
Não há de dar a um Axioma
Uma Oportunidade
Experiment escorts us last –
His pungent company
Will not allow an Axiom
An Opportunity
DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira.
São Paulo: Iluminuras, 2011, p.158-159.
domingo, 9 de março de 2014
chove...
CANTIGAS
ESQUECIDAS – III
Paul Verlaine
Chora no meu coração
Como chove na cidade;
Qual será tal lassidão
Entrando em meu coração?
Como chove na cidade;
Qual será tal lassidão
Entrando em meu coração?
Ó doce rumor da chuva
Pela terra e sobre os tetos!
Coração que se enviúva,
Ó, a cantiga da chuva!
Pela terra e sobre os tetos!
Coração que se enviúva,
Ó, a cantiga da chuva!
Chora sem qualquer
razão
No coração que se enfada,
Pois! Nenhuma traição?…
Este luto é sem razão.
No coração que se enfada,
Pois! Nenhuma traição?…
Este luto é sem razão.
É bem certo a pior dor
A de não saber por quê
Sem amor e sem rancor
Coração tem tanta dor!
A de não saber por quê
Sem amor e sem rancor
Coração tem tanta dor!
Tradução José Lino Grünewald. Disponível aqui.
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo: Companhia
das Letras, 2009, p.199-200.
Jacques Prévert
PRODÍGIOS DA LIBERDADE
Nos dentes da
armadilha,
a pata da raposa.
E o sangue sobre a
neve,
o sangue da raposa.
E marcas sobre a neve,
as marcas da raposa
que foge com três
patas,
sob o sol já poente,
levando entre seus
dentes
uma lebre ainda viva.
Carlos Drummond de
Andrade. Poesia traduzida. São Paulo:
Cosac Naify, 2001, p.307.
sábado, 8 de março de 2014
sexta-feira, 7 de março de 2014
quinta-feira, 6 de março de 2014
nome próprio — o próprio nome
Diz o
poeta que só o sonho é inevitável. Mas o nome que se tem, dito próprio, também.
“Fiz uma breve avaliação de posses e cheguei à conclusão espantosa de que a
única coisa que temos que ainda não nos foi tirada: o próprio nome.” (Clarice
Lispector, Um sopro de vida). O marcador
“ainda” sinaliza uma possibilidade perturbadora. Não somos donos do dia — é o
que parece nos sugerir a noite.
Paulo Henriques Britto
CREDO
Se cada coisa
dada a perceber
impõe a crença
em sua forma e peso
e cor, e
impinge a supersticiosa
aceitação da
causa de ela estar
ali e não
noutro lugar qualquer,
e ainda mais —
a cega convicção
de que esse
estar ali é tão real
quanto o se
estar aqui a perceber
e elaborar para
consumo próprio
(e momentâneo)
uma religião inteira
de cores, formas,
pesos, causas — tudo
isso que é
necessário crer — então
como exigir de
nós, que a cada instante
cremos em tanta
coisa, ainda mais fé?
Paulo
Henriques Britto. Mínima lírica. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.51.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Assinar:
Postagens (Atom)


