Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

memória

Há um conto de Caio Fernando Abreu intitulado “Pela passagem de uma grande dor”. Pressuposto: a dor, mesmo grande, passa. Quando passa, costuma deixar cicatrizes, que são marcas da ferida que se fechou. Minha indagação é: conviver com as cicatrizes deixa a dor, que um dia foram, no passado? Não. Olhar as cicatrizes não deixa esquecer a dor. A dor, cicatrizada, não é mais dor. Mas a cicatriz é a memória da dor.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

"Ia-o conseguindo?"

Esta pergunta pontua o entrecho do conto “O Espelho”, de João Guimarães Rosa, numa digressão que termina por interpelar o leitor. A narrativa condensa um percurso assaz complexo rumo a si mesmo, que o narrador descreve ao leitor uma vez finda a experiência com o espelho. A questão resume a angústia diante de uma transformação ou percurso existencial complexo que alguém porventura atravesse. Ia-o conseguindo? No labirinto da vida, é uma pergunta que se faz, sem que se vislumbre uma resposta. A pergunta ecoa nos labirintos da própria mente.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

impressões na fila do caixa

Ir ao mercado tornou-se um exercício dramático de descapitalização ― e de votos de abstinência: vou me abster do palmito; vou me abster do tomate; vou restringir a cebola. Do pão não preciso me abster, pois já não faz mais parte da dieta há algum tempo. O que sinto, percebo, é que as pessoas estão sendo maltratadas nessa alta abusiva de preços, e em muitas outras situações. Em nome de índices fabricados e de contas amargas, os preços dos produtos de consumo diário dispararam, não sem uma dose de má-fé por parte dos donos de estabelecimentos comerciais. Em novembro do ano passado, diante da oferta de maçãs avariadas e hiper inflacionadas, tive um choque de realidade no mercado e considerei a possibilidade de ir a Brasília dar uma bifa na cara de Eduardo Cunha, o político mais sórdido do país nos últimos anos. Porque é claro que há uma relação entre os podres poderes e as maçãs podres, oferecidas aos pobres. Não fui, claro; perderia meu emprego e ganharia problemas com a justiça. O brasileiro reclama, com razão, do preço do pão, do tomate, da cebola. O melhor conselho que ouvi foi também no mercado: deixa apodrecer, não compra. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

o silêncio atravessa o tempo

Já pensei em fechar este blog, excluí-lo, parar de escrever, ou melhor, de supor que escrevo. Já pensei em editá-lo ― mas mesmo pensar a sério nisso eu não penso. O que tenho na verdade é preguiça, muita, em especial de olhar para trás, fazer revisões. Não quero sobre mim a maldição da mulher de Lot, nem nenhuma outra. A densidade do presente ― do instante-presente que a cada instante se esvai em passado, virando sal, tempo estéril e perdido ― é tal que o silêncio muitas vezes é mais convidativo que a palavra.

domingo, 17 de janeiro de 2016

a morte

Uma das fábulas de Millôr Fernandes termina pela seguinte fórmula: o importante não é a morte, é o que ela nos tira. Quando me pergunto o que a morte de David Bowie me tirou, descubro que a fórmula de Millôr talvez merecesse revisão. A morte importa na medida em que nos tira algo, essa é a sua dimensão. Ela importa, incomoda, pelo que tira, subtrai. 

ainda ecoando

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

sedução, trapaça e rock'n roll

O cinema educa. A televisão, via de regra, vulgariza. Dito isso, devo confessar que a netflix me reconciliou com a rotina de assistir filmes, da qual tinha me apartado desde que me mudei para o Rio, há sete anos. Por que não vou ao cinema morando na cidade maravilhosa? Pela distância, basicamente, o que inclui os percalços do trajeto, digo, do acesso. Em segundo lugar, pelos valores impraticáveis dos ingressos. A isso se soma certa falta de paciência com o público, tanto aquele das grandes redes de cinema abrigadas em shoppings, quanto o outro, em tese mais sofisticado, dito cult, com ar intelectualizado. Nos dois casos, talvez seja mesmo apenas preconceito meu. Ambos conversam durante os filmes, abrem latas de refrigerante, fazem barulho com seus pacotes enormes e caros de pipoca, e isso é o que mais (me) aborrece, porque afinal é um serviço pago, em que o silêncio deveria ser princípio e não regra, e o público que frequenta cinema no Brasil foi educado pela TV.

Então a netflix foi um achado. Aqui cito uma pérola de Paulo Leminski: “podem ficar com a realidade / esse baixo astral / em que tudo entra pelo cano // eu quero viver de verdade / eu fico com o cinema americano”. E com o independente, o iraniano, o francês, o europeu... Qualquer história boa e bem contada, exceto os filmes de terror. Um detalhe interessante: na última sequência de filmes a que assisti, regalia permitida pelas férias, percebi que a trapaça sustenta boa parte dos personagens mais interessantes do cinema. Trapaça, aqui, no sentido de propensão à mentira, aos truques, a uma imaginação que leva-os a convencer e dominar os demais, espectador incluído. É o que se pode observar, por exemplo, no ótimo Headhunters (2012). São sedutores, os trapaceiros.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Orides Fontela

PARTILHA

Partilharemos somente
o que em nós se
continua:
a singeleza
a luta
a esperança.

Partilharemos somente
esta maior intensidade:
absoluta palavra
que nos pertence integralmente.

Partilharemos somente
o pão unificado
e a água sem face.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.258.

sábado, 2 de janeiro de 2016

um país infecto

Acho o Brasil infecto ― disse Drummond em sua correspondência com Mário de Andrade. Continua o missivista: “O Brasil não tem atmosfera mental; não tem literatura; não tem arte; tem apenas uns políticos muito vagabundos e razoavelmente imbecis ou velhacos.” A missiva é de 1924. Portanto, estamos sintonizados com Drummond.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

trégua (ou recesso)

Esta é a melhor época do ano ― seu finzinho. Passou o frisson do Natal, aquela expectativa midiática toda em torno de uma ceia que poderia descambar em barracos natalinos. Sobreviveu-se aos próprios barracos, com um arranhão ou outro, que um bom vinho e o analista vão resolver. São cinco dias sagrados, entre 26 e 30 de dezembro, em que ainda se está em 2015 e ainda não é 2016. Uma adorável suspensão de (quase) tudo, que permite ao ser palmilhar a superfície das coisas, sem penetrá-las ou ser muito afetado por elas. Um mar caribenho em que não se vislumbra qualquer pontinha de iceberg desmancha-prazeres, porque o clima está ameno, agradável, está um clima metafórico. No dia 31 começará a contagem regressiva para o novo ano, o Ano Novo, e será dada a largada a uma nova maratona de sabe-se lá o que. Angústias, incertezas, previsões e notícias ruins, ataques, mortes violentas, a crise nossa de cada dia ― enfim, todo o rosário da desgraça humana a que Brás Cubas assistiu em seu célebre delírio. Mas, por enquanto, nesses breves cinco dias, vive-se o nirvana do tempo, um parêntese generoso nas (e das) solicitações, demandas e necessidades

Carlos Drummond de Andrade

POEMA DA NECESSIDADE

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião. 10 livros de poesia. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.47.