Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bandeira

Nietzschiana

― Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
― Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 162.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Leraning to Fly (Pink Floyd): "A soul in tension that's learning to fly"


hoje é dia mundial do rock!

Fonte da imagem: Acid Fingers 
(ouça o melhor do rock na Rádio UOL)

os quatro elementos: Fernando Pessoa e o esoterismo

“Apesar de ter afirmado não haver pertencido a qualquer Ordem Iniciática, o interesse de Fernando Pessoa por ocultismos pronunciou-se de diversos modos. Acreditava ‘na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Superior, que presumivelmente criou este mundo’. Este e outros preceitos de que tinha convicções são fundamentos da seita esotérica e magista, Ordem Rosacruz, de que foi simpatizante e estudioso. Resulta daí seu interesse por astrologia. Ergueu não só o mapa astrológico de Portugal, como também de seus três heterônimos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Em apontamentos deixados para servir de prefácio ao seu livro de poemas Ficções de interlúdio, o poeta aborda a influência dos quatro elementos (fogo, água, terra e ar) sobre todas as coisas e sobre a personalidade de Caeiro, para explicar sua existência: ‘Referem-se os astrólogos os efeitos em todas as cousas à operação de quatro elementos - o fogo, a água, o ar e a terra. Com este sentido poderemos compreender a operação das influências. Uns agem sobre os homens como a terra, soterrando-os e abolindo-os, e esses são os mandantes do mundo. Uns agem como o ar, envolvendo-os e escondendo-os uns dos outros, e esses são os mandantes do além-mundo. Uns agem sobre os homens como a água, que os ensopa e converte em sua mesma substância, e esses são os ideólogos e os filósofos, que dispersam pelos outros as energias da própria alma. Uns agem sobre os homens como o fogo, que queima neles todo o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses sãos os libertadores. Caeiro teve essa força. Que importa que Caeiro seja de mim, se assim é Caeiro? Assim operando sobre Reis, que ainda não havia escrito alguma cousa, fez nascer nele uma forma própria e uma pessoa estética. Assim operando sobre mim mesmo, livrou-me de sombras e farrapos, deu-me mais inspiração à inspiração e mais alma à alma. Depois disso, assim prodigiosamente conseguido, quem perguntará se Caeiro existiu?’

um trecho de Clarice Lispector

"Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda." 

"Aprendendo a viver", A descoberta do mundo, Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.160.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

a luz de Caetano - "A Luz de Tieta" (1996)

"Existe alguém em nós / Em muitos dentre nós / Esse alguém / Que brilha mais do que / Milhões de sóis / E que a escuridão / Conhece também / Existe alguém aqui/ Fundo no fundo de você/ De mim/ Que grita pra quem quiser ouvir/ Quando canta assim:/ Eta eta eta eta/ É a lua, é o sol, é a luz de Tieta/ Eta, eta!"

sábado, 10 de julho de 2010

a vida secreta das palavras

"A Vida Secreta das Palavras" (Isabel Coixet, Espanha, 2005) é um filme sobre o desamparo humano quando a comunicação não é possível, ou se faz de forma precária. Pouco é dito, pouco acontece, mas ensaia-se um caminho para a redenção. O que pode a linguagem? O que as pessoas efetivamente dizem umas às outras, pergunta-se Clarice Lispector em uma de suas crônicas. Paradoxalmente, quando pouco pode ser dito é que parece acontecer o encontro, atravessando a angústia do silêncio que isola. Alguma coisa de humano subsiste para que o encontro propiciado pelas palavras possa acontecer. Não se pode pensar esse encontro fora da dimensão do humano (ou humana). Mas então o homem de fato existe? Seria ele algo mais que aquilo que a linguagem lhe faculta? Ou o humano é dado pelos limites da linguagem, pelo que a linguagem faz dele? O que  é o humano? Quando nos encontramos de fato com o outro? O filme parece sugerir que até da mais funda incomunicabilidade a vida pode surpreender, e o humano palpitar, acontecer... Seria assim um despertar da linguagem, sugerido pela imagem do segredo, ou vida secreta, das palavras... Segue o trailer.

domingo, 4 de julho de 2010

Chico Buarque de Holanda é pura sofisticação

"O Crocodilo" - Nanni Moretti

Como em qualquer bom filme italiano, ninguém se entende, mas dá-se boas risadas... e de mais a mais, eles conseguiram reeleger o Berlusconi, então é mesmo a história de falar de corda em casa de enforcado. Surpreendente, refinado, irônico, político. Segue uma ótima crítica.

"Bianca" (cena da praia)

Trata-se de um psicopata, sem dúvida, ou de um melancólico, quem sabe. A íntegra do filme só vai confirmar isso. Um filme ótimo, com um humor refinado, típico do Moretti, uma das boas surpresas das mostras a que assistia no Palácio da Artes, em BH. E é o próprio Moretti que faz o psicopata, digo, o protagonista. A seu modo, um filme político.

"Habana Blues" (trecho)

uma singela homenagem... lírico, divertido e delicado

Segue uma crítica pelo UOL Cinema.

Flor do deserto

"Flor do Deserto" (trailer) é uma excelente oportunidade perdida de fazer bom cinema a partir de uma história dramática, potencialmente trágica conforme o ponto de vista. O filme segue o esquema básico de tentar agradar o público, subestimando-o mais uma vez, pois a história da modelo Waris Dirie poderia render uma adaptação cinematográfica bem melhor. Nada se destaca, a não ser a beleza da atriz que interpreta a modelo. O roteiro não convence, é apenas um apanhado de cenas, não há densidade dramática nas atuações. O tema central do filme, a mutilação genital das mulheres, uma prática culturalmente associada à religião muçulmana, não necessariamente uma prática vinculada a esta religião (veja aqui informações fornecidas pela Wikipédia), acaba ocupando uma posição secundária em boa parte do filme, que se perde em cenas por vezes patéticas e infantis. Apenas no final o tema vem à tona em toda a sua força dramática. O que poderia suscitar uma discussão  acerca dos limites da aceitação das diferenças culturais, no que tange à universalidade dos Direitos Humanos, acaba se perdendo em meio a situações prosaicas e secundárias. É a beleza da moça que, em Londres, salva-a de uma deportação e abre-lhe muitas portas, mas antes disso o que efetivamente a salvou - de um destino ainda pior - foi a sua coragem e obstinação, ao fugir sozinha e sem recursos da tribo onde vivia. Isso fica em segundo plano no filme.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

"Alguém Cantando": uma tradução do mistério e beleza da música


Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando ao longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir

Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém

A voz de alguém, quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza da natureza
Onde não há pecado nem perdão
Fonte: site oficial de Caetano Veloso

voluntários da pátria

No conto “São Marcos”, de Guimarães Rosa, há um negro feiticeiro, João Mangolô, descrito pelo narrador como “velho de guerra, voluntário do mato nos tempos do Paraguai”. Trata-se, como se sabe, da guerra do Paraguai, ocorrida na segunda metade do decênio de 1860. As milícias cooptadas para lutar na guerra incluíam grande contingente de escravos – obrigados pelos senhores e/ou aos quais se acenava com a alforria. Essas milícias recebiam o nome de “Voluntários da Pátria”. É o que afirma Boris Fausto: “Calcula-se entre 135 mil e 200 mil o número de brasileiros mobilizados... As tropas foram organizadas com o Exército regular, os batalhões da Guarda Nacional e gente recrutada em sua maioria segundo os velhos métodos de recrutamento forçado que vinha da Colônia. Apesar disso, muitos foram integrados no corpo dos Voluntários da Pátria, como se tivessem se apresentado para combater por vontade própria. Senhores de escravos cederam cativos para lutar como soldados. Uma lei de 1866 concedeu liberdade aos ‘escravos da nação que servissem ao Exército’. A lei se referia aos africanos entrados ilegalmente no país, após a extinção do tráfico, que haviam sido apreendidos e se encontravam sob a guarda do governo imperial.” (FAUSTO, Boris. História do Brasil. 9. ed. São Paulo: Edusp; Fundação para o Desenvolvimento da Educação, 2001, p. 213-214).

em busca da terra do nunca

As fortes imagens divulgadas pela mídia mostrando a devastação provocada pela chuva no Nordeste (aqui) fazem pensar que a pergunta "que país é este?" já não faz mais sentido, pois simplesmente o país tornou-se incapaz de se pensar, e portanto de respondê-la. Na mesma semana em que essa tragédia coletiva aconteceu, um político como Paulo Maluf veio a público dizer que sua ficha é a mais limpa do Brasil, afirmação cujo notório teor de desrespeito aos habitantes do país só passou batido porque estamos em pleno mundial de futebol. Quer dizer, ele fala assim porque confia na progressiva imbecilização coletiva, que faz com que ladrões e corruptos como ele continuem circulando livremente por aí, inclusive com o direito de se elegerem a um mandato político. Quem me representa politicamente? Em quem estou votando a cada eleição? Cargos políticos são de longo prazo, pois em geral os mandatários tendem a se perpetuar neles, fazendo da política uma estranha profissão, cujas manhas se aprendem na prática do ofício. E já que o assunto é futebol, um slogan recente, afixado num carro: "Sou brasileiro. Sou campeão". De quê?