Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dia das Crianças!

Folha de Pernambuco

O Popular (Goiás)

Estrelas (Lô Borges e Márcio Borges)

"Poeira, na noite / a festa da noite / Guerreira, estrela da morte / festa negra amor / mas é tarde". No CD Clube da Esquina. Melodia bonita. Interpretação meio cósmica. Quase uma música incidental no disco.

Torquato Neto

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.


MORICONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.269.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

de um conto de Guimarães Rosa

"O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O." 
(Primeiras estórias)

sessão nostalgia - "losing my religion"

videoclipe original disponível no youtube (aqui)

tropa 2

Sobre Paulo Coelho, escreveu certa feita o crítico Davi Arrigucci Júnior: "Não li e não gostei." Pelo pouco que li, dá pra fazer o mesmo com Tropa de Elite 2: apenas mais uma sessão de "catarse" para o asfalto. Sem contar o mal-disfarçado lançamento em pleno calor do debate presidencial. As cenas de truculência de Tropa de Elite 1 eram de levar ao vômito. A que interesses estão servindo sequências "cinematográficas" que encenam a violência nesse grau de exposição cruel e visceral de suas próprias entranhas? O que o país tem a lucrar com combinações filmadas em alta definição do Jornal Nacional e de Passione, embrulhadas com o bom e velho discurso maniqueísta? Será preciso assistir à continuação para saber que a coisa está muito mais cheia de esquemas do que supõe minha pobre e vã filosofia? Prefiro acreditar no talento de Wagner Moura apostando em Hamlet.

Murilo Mendes: "o vento que vem da eternidade suspenderá os passos"

MAPA

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos"...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

MORICONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.67-69.

domingo, 10 de outubro de 2010

Graciliano Ramos: Paulo Honório e Madalena

"Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.
E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas ― e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.
Emoções indefiníveis me agitam ― inquietações terríveis, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.
Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.
Lá fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do pomar tornavam-se massas negras.
― Casimiro!
Casimiro Lopes estava no jardim, ancorado ao pé da janela, vigiando.
― Casimiro!
A figura de Casimiro Lopes aparece à janela, os sapos gritam, o vento sacode as árvores, apenas visíveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir o comutador. Detenho-a: não quero luz.
O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge do lado de lá da mesa. Digo baixinho:
― Madalena!
A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos.
Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.
― Madalena...
A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a mestre Caetano. Isso me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranqüila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar. Mandrião.
A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos.
Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? Talvez seja até o mesmo pio daquele tempo.
Agora seu Ribeiro está conversando com d. Glória no salão. Esqueço que eles me deixaram e que essa casa está quase deserta.
― Casimiro!
Penso que chamei Casimiro Lopes. A cabeça dele, com o chapéu de couro de sertanejo, assoma de quando em quando à janela, mas ignoro se a visão que me dá é atual ou remota.
Agitam-se em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e tenho vontade de chorar.
Aparentemente estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha, e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito.
Distingo no ramerrão da fazenda as mais insignificantes minudências. Maria das Dores, na cozinha, dá lições ao papagaio. Tubarão rosna acolá. O gado muge no estábulo.
O salão fica longe: para irmos lá temos de atravessar um corredor comprido. Apesar disso a palestra de seu Ribeiro e d. Glória é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso admitir que estão conversando sem palavras.
Padilha assobia no alpendre. Onde andará Padilha?
Se eu convencesse Madalena de que ela não tem razão... Se lhe explicasse que é necessário vivermos em paz... Não me entende. Não nos entendemos. O que vai acontecer será muito diferente do que esperamos. Absurdo."

RAMOS, Graciliano. S. Bernardo. 83.ed. Ed. revista. Rio de Janeiro: Record, 2006, p.117-120.

duas crônicas lidas em manuais escolares

Uma das crônicas relatava a situação de um sujeito entrando numa loja, dessas que vendiam de tudo (mas anteriores ao fenômeno 1,99), para comprar um objeto de cujo nome ele não se lembrava. Então era curioso o contorcionismo, o verdadeiro malabarismo mental que ele fazia para o vendedor tentando explicar o que queria, enquanto o vendedor ia oferecendo possibilidades, soluções, ou seja, nomes que poderiam equivaler ao objeto. E a crônica era muito bem pensada, pois realmente não dava para atinar que se tratava de um... Me ocorreu, vagamente, que sem as palavras fica mesmo difícil lidar com as coisas. A outra crônica também tinha como cenário uma loja, um comprador e um vendedor. Este, um pouco desligado da vida, está em busca de um aparelho de televisão, e aí o vendedor se apressa em mostrar as muitas qualidades de um televisor que se encontrava ligado, e em torno do qual estava reunido um grupo expressivo de pessoas, um tanto quanto agitadas. O vendedor começa a explorar isso, as diferentes emoções manifestadas diante do televisor, esmera-se nos detalhes, enaltecendo o poder do aparelho (tratava-se de fato de um comprador ingênuo e um vendedor esperto, mas portando uma certa malícia que deu lugar a formas mais agressivas de persuasão), e acaba convencendo o comprador. Só que se tratava de um jogo de copa do mundo, não sei se final, Brasil e qualquer coisa, e o comprador se encaminha ingenuamente, por sugestão do vendedor, em direção ao aparelho para desligá-lo e levá-lo para casa.

Sérgio Buarque de Holanda: a crítica como profissão

Praticamente todos os críticos brasileiros atuantes na imprensa nos decênios de 1940 e 1950 serviram-se da teoria, mas ao mesmo tempo não descuravam do papel de mediação que a atividade jornalística exigia. Isso fica muito claro num depoimento que Sérgio Buarque de Holanda faz no prefácio a Tentativas de mitologia (1979), seu segundo livro de crítica (o primeiro é Cobra de vidro), sobre como se deu seu retorno à crítica literária no decênio de 1940 e as incumbências a que isso o obrigou:

“Com igual zelo eu me lançara a outras ciências humanas, e sobretudo à literatura e à filosofia, chegando mesmo a acumular acerca dessas especializações apreciável grau de informação e leitura. Se essa versatilidade de minhas preocupações não justificava por si só o primeiro convite que recebi para professor universitário, o fato é que me encaminhou para a crítica literária em jornais de mais de um Estado, numa época em que a imprensa diária não dispensava os rodapés de crítica. [...] Quando aceitei a incumbência de fazê-los, movido por necessidades mais imperiosas que minha vontade ou vocação, o remédio era fazer o que se podia esperar sobretudo de um crítico literário, por pouco que a palavra ‘literário’ não precisasse ser interpretada numa acepção demasiado estrita. O caso foi que logo cuidei de enfronhar-me em tudo quanto houvesse de mais atual então e de mais fecundo no tocante às técnicas de criação e crítica literária, comprando ou encomendando no estrangeiro publicações especializadas, ou apelando para a boa vontade de amigos melhor informados que eu no assunto, que se prontificaram a emprestar-me livros ou revistas de que ia necessitando. Já tinha em casa bom número de obras, geralmente em francês ou alemão, acumuladas durante anos, que seriam de bom serviço para a atividade a que agora era chamado. De repente, um inesperado convite recebido da Divisão Cultural do State Departament em Washington, D.C., através da embaixada no Rio de Janeiro, para uma visita de três meses aos Estados Unidos, iria permitir-me trazer, de volta ao Brasil, toda uma pequena bibliografia do new criticism anglo-americano, que já ia encontrado, entre nós também, adeptos fervorosos e em geral pouco transigentes. A rapidez e a facilidade relativa com que, de posse de tamanho e tão variado acervo, passei a absorver muitos conhecimentos que haviam escapado até então a minha órbita, confundiram num primeiro momento, até amigos meus dos mais chegados, como Afonso Arinos de Melo Franco ou Otto Maria Carpeaux, e houve quem manifestasse de público sua surpresa diante da massa de informações que passaram de súbito a revelar meus escritos sobre coisas que nunca, antes, eu mostrei conhecer tão intimamente. Manuel Bandeira, ao registrar minha volta à crítica, após uma fase de profundo desinteresse pela poesia e a ficção, e de sedução pelos estudos históricos, comentou: ‘Ninguém diria também que voltasse de ponto em branco, a par de tudo o que se passara no mundo das letras. Tomou pé da noite para o dia’. Referi-me à facilidade ‘relativa’ desse meu aprendizado, porque, apesar da opinião em contrário de amigos, a facilidade foi mais aparente que verdadeira. Só eu sei o que isso me custou de aplicação obstinada, às vezes quase desesperada, de arrebatamentos, vigílias, insônias, leituras ou releituras, paciências, impaciências, horas de transe e desfalecimentos. Para sair-me sofrivelmente da empreitada que aceitara, teria de passar por isso, sem me descuidar de desfazer depois as marcas do meu esforço ainda sensível. Parecia-me indispensável dissipar essas marcas, que eram como andaimes destinados a desaparecer na construção acabada. Com isso, a preocupação de não sobrecarregar meus textos com nomes e citações de autores mal conhecidos da maioria dos leitores, sabendo que eles servem principalmente para impressionar os inseguros e os basbaques, e até com o cuidado de não mostrar tudo o que eu conhecia de tal ou qual matéria em discussão ― mas sem incorrer no risco de passar por mal informado, defeito que seria imperdoável em um crítico, personagem naturalmente presunçoso, pois que se faz passar, no fundo, por onisciente ―, procurava alijar de meus escritos tudo quanto tivesse um ar de coisa postiça, e dar, com isso, ao conjunto, um aspecto de razoável espontaneidade." (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Tentativas de mitologia. São Paulo: Perspectiva, 1979, p. 15-16.)

"You Ain't Goin' Nowhere" - Bob Dylan (1967)

A Pequena Miss Sunshine (EUA, Jonathan Dayton e Valerie Faris, 2006)

É claro que todos (ou quase) assistiram Little Miss Sunshine, essa pérola do cinema independente americano e também um ótimo road movie. O encontro entre seres muito diferentes, que por acaso pertencem à mesma família, é galvanizado pela inocência da little miss sunshine. Um desses encontros é particularmente interessante: o niilista nitzscheano e o fracassado proustiano. Já ao final, eles travam um diálogo, numa espécie de passarela de madeira que adentra o mar (tem um nome para isso, que me escapa agora), numa combinação muito interessante dos dois referenciais citados. Um deles, creio que o proustiano, diz algo assim: os anos de sofrimento foram os melhores da minha vida, pois neles eu cresci. E é de fato assim. A cor amarela domina, viva e brilhante.

sábado, 9 de outubro de 2010

asas do desejo

Não é comentário, não é resenha, não é nada: é só uma fala atravessada por um desejo. Começo a assistir "Asas do Desejo", mas o filme tem uma densidade que não combina com sono. Mas é fatal começar a ver e entender tudo: "Quando a criança era criança,/ não sabia que era criança." O que dizer depois disso? Adultos maltratam-se inutilmente. Que anjos maravilhosos são aqueles, que nunca vi? Talvez, quando assistir ao filme inteiro, até apague este post, mas é que a parte inicial me trouxe uma saudade imensa de alguma coisa que nunca vi, ou vi e não fui capaz de reconhecer. Pois o desejo imediato suscitado pelo filme em mim foi acreditar que exista alguma coisa parecida com anjo que volta e meia passa perto de mim e me protege.

sessão nostalgia - Duran Duran

"Queda que as mulheres têm para os tolos" – Machado de Assis (1861)

Nota do editor Oséias Silas Ferraz:

A declaração de que se tratava de tradução seria um artifício para disfarçar a autoria [...]. José Paulo Paes não entra em detalhes, mas é dos únicos a falar em tradução, a partir do original de um certo Olona, autor satírico espanhol que escreveu peças com o mesmo tema. A dúvida, no entanto, existia e só foi esclarecida pelo professor francês Jean Michel Massa, em Machado de Assis traducteur, ensaio que compõe a segunda parte de sua tese de doutoramento [...]. Apenas a primeira parte da tese foi publicada no Brasil, A juventude de Machado de Assis. Devido talvez às questões embaraçosas (para a crítica) levantadas sobre as traduções de Machado, o ensaio nunca foi publicado e permanece pouco divulgado. [...] Pesquisador atento, Massa enumera os textos que serviram de base a Queda... O Petit traité de l’amour des femmes pour les sots (1788), de autoria presumida de Champcenets (citado na parte XII de Queda...) apresentaria afinidades, mas não seria ainda o texto traduzido. Esse é finalmente identificado por Massa: De l’amour des femmes pour les sots, publicação anônima atribuída a Victor Henaux [...]. Encerra-se, assim, a polêmica sobre a originalidade do texto: ao contrário do que ficou estabelecido pela crítica machadiana, Queda que as mulheres têm para os tolos é uma tradução.” (FERRAZ, Oséias Silas. Nota do Organizador. In: ASSIS, Machado de. Queda que as mulheres têm para os tolos e outros textos. Belo Horizonte: Crisálida, 2003, p.9-10.)

A pesquisadora da Unicamp Ana Cláudia Suriani da Silva afirma que o estudioso francês não forneceu dados conclusivos que sustentem seu argumento, mas corrobora a tese da tradução, propondo uma versão bilíngue com o original e a versão machadiana: “A edição bilíngue de Queda que as mulheres têm para os tolos que eu publico pela Editora da Unicamp neste ano do centenário da morte do escritor segue intencionalmente os princípios tradicionais da crítica textual para oferecer uma base mais segura para pesquisas futuras. Estabelece definitivamente o texto traduzido por Machado e traz em espelho o texto de Victor Hénaux, o que permite que original e tradução sejam lidos lado a lado por um público que agora não se restringe mais ao próprio Machado e a uma meia dúzia (ou menos) de críticos.(Jornal da Unicamp).

Obs: segue a transcrição das duas páginas iniciais conforme edição da Crisálida. O editor manteve a grafia original do texto.

QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS

Advertencia

Este livro é curto, e talvez devera sel-o mais.
Desejo que elle agrade, como me sahe das mãos; mas é com pezar que me vanglorio por esta obra.
Fallar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a maioria de um e outro sexo?
Diz-se que a materia é rica e fecunda; eu accrescento que ella tem sido tratada por muitos. Se tenho, pois,  a pretenção de ser breve, não tenho a de ser original.
Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas paginas conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escriptos. Propriamente fallando, é uma comparação scientifica, e eu obteria a mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores a idéa de aprofundar um tão importante exemplo.
Quanto á imparcialidade que presidio a redacção deste trabalho, creio que ninguem a porá em duvida.
Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espirito, é com um desinteresse, cuja extenção facilmente se comprehenderá.
  
I

Il est des nouds secrets, Il est des sympathies.

Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em materia de fazendas, perolas e rendas, e que, desde que adoptam uma fita, deve-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausiveis.
Partindo deste principio, entraram os philosophos a indagar se ellas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emittiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituido por outro, não tinha esse outro senão o merito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceo por muito tempo este systema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobrio: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nelle a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!

ASSIS, Machado de. Queda que as mulheres têm para os tolos. Belo Horizonte: Crisálida, 2003, p.17-19.

FLICTS

"Nada no mundo é Flicts ou pelo menos quer ser" 
(Ziraldo. Flicts. São Paulo: Melhoramentos, 2005, p.30)

Emily Dickinson: "as palavras sentidas em silêncio"

As palavras na boca dos felizes
São músicas singelas
Mas as sentidas em silêncio
São belas

The words the happy say
Are paltry melody
But those the silence feel
Art beautiful ―

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.246-247.

"viajar é mais" (Toninho Horta)

O post "a história de um jipe" tem estado entre os mais visitados. Sinal de que o Clube da Esquina tem boa música a oferecer. Ou então de que a fantasia de um manuel, o audaz  revigora a imaginação. Tomo notícia da existência de um documentário, "A Música Audaz de Toninho Horta" (informações aqui).

Emily Dickinson: "Whether my bark went down at sea..."

Se ao mar se foi meu barco
Se enfrentou as procelas ―
Se em busca de ilhas encantadas
Abriu as dóceis velas ―

Em que místico porto
Está seguro agora ―
Esta a missão que têm os olhos
Pela Baía afora.


Whether my bark went down at sea ―
Whether she met with gales ―
Whether to isles enchanted
She bent her docile sails ―

By what mystic mooring
She is held today ―
This is the errand of the eye
Out upon the Bay.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 106-107.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010