O forte calor que está fazendo há dias faz pensar
na atualidade de um livro de 1981, de Inácio de Loyola Brandão, “Não verás país nenhum”, cujo título altera substancialmente o sentido do conhecido verso de
Olavo Bilac, “Não verás país nenhum como este.” O tom laudatório cede à imagem
apocalíptica de uma terra devastada: não verás país nenhum. E, de fato, alguém
está vendo alguma coisa, algum país (nação) a que se sente efetivamente
pertencendo? Não, a não ser que consiga chamar de nação uma geografia hostil.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Emily Dickinson
Púrpura
– é moda duas vezes –
Nesta época do ano
E quando uma alma se percebe
Como Soberana.
Purple – is fashionable
twice –
This season of the year,
And when a soul perceives
itself
To be an Emperor.
DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira.
São Paulo: Iluminuras, 2008, p.118-119.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Sebastião Uchoa Leite
INSÔNIA RESPIRATÓRIA
Antes nunca
Ouvira o invisível poema
Do respirar: não
Ouvia nada
Só o silêncio dos órgãos
Mas o segredo da vida
Era isso
Quando ninguém
Se lembra do corpo
Que de fato
É feito da mesma matéria
Do sono
LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras,
2008, p.38.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Sebastião Uchoa Leite
DUAS OU TRÊS COISAS
É ríspida
Respira o ar amargo
Arisca
Secreta
Nada fala
Xiita do oculto
Tal Emily Dickinson
Dura e pura
Ou insônia crítica
Da língua irônica
LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras,
2008, p.52.
Sebastião Uchoa Leite
FOCOS
Poesia é a sombra
Em guarda atrás de alguém
Ou na frente
Abrindo o caminho
Diminui ou alonga o vulto
Conforme o foco solar
Abre-se ou estreita-se
No jogo hiperrealista
Entre o eu e a margem
LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras,
2008, p.22.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
sobre a beatitude (Clarice Lispector)
“A
beatitude começa no momento em que o ato de pensar liberou-se da necessidade da
forma. A beatitude começa no momento em que o pensar-sentir ultrapassou a
necessidade de pensar do autor — este não precisa mais pensar e encontra-se
agora perto da grandeza do nada. Poderia dizer do ‘tudo'. Mas ‘tudo’ é
quantidade, e quantidade tem limite no seu próprio começo. A verdadeira
incomensurabilidade é o nada, que não tem barreiras e é onde uma pessoa pode
espraiar seu pensar-sentir.”
Clarice
Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.90.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
água viva
"Estou
cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo
conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar
e vejo as espessas espumas mais brancas e que durante a noite as águas
avançaram inquietas. Vejo isto pela marca que as ondas deixam na areia. Olho as
amendoeiras da rua onde moro. Antes de dormir tomo conta do mundo e vejo se o
céu da noite está estrelado e parece azul-marinho porque em certas noites em
vez de negro o céu parece azul-marinho intenso, cor que já pintei em vitral.
Gosto de intensidades. Tomo conta do menino que tem nove anos de idade e que
está vestido de trapos e magérrimo. Terá tuberculose, se é que já não a tem. No
Jardim Botânico, então, fico exaurida. Tenho que tomar conta com o olhar de
milhares de plantas e árvores e sobretudo da vitória-régia. Ela está lá. E eu a
olho.
Repare
que não menciono minhas impressões emotivas: lucidamente falo de algumas das
milhares de coisas e pessoas das quais tomo conta. Também não se trata de
emprego, pois dinheiro não ganho por isto. Fico apenas sabendo como é o mundo.
Se
tomar conta do mundo dá muito trabalho? Sim. Por exemplo: obriga-me a me
lembrar o rosto inexpressivo e por isso assustador da mulher que vi na rua. Com
os olhos tomo conta da miséria dos que vivem encosta acima.
Você
há de me perguntar por que tomo conta do mundo. É que nasci incumbida.”
Clarice
Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.60-61.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
liberdade
O mar me traz o que alcanço experimentar como paz. Pisar
na areia é adentrar um território em que se desfruta de rara liberdade,
inclusive sem perceber. Talvez seja disso, da sensação de liberdade, que venha
a paz. Havia hoje uma espécie de bailado de pipas, de um esporte chamado
kitesurfe. De repente percebi como estar nesse outro território é também
quebrar a cadeia da percepção racional, para que outras coisas sejam vistas,
sentidas. Foi assim que vi o bailado. Vi um homem que parecia estar andando em
círculos. Mas não me detive nas pessoas. A liberdade que o mar oferece cria uma
espécie de indiferença sagrada entre os que estão ali, como se todos fossem
cultores de um deus que se confunde com o próprio altar, e que em vez de
receber traz a oferenda, é essa própria oferenda. O pôr do sol foi
deslumbrante, trazendo aos poucos tons maravilhosos para o céu e a água. E foi
enquanto caminhava na beira do mar, ao pôr do sol, que vi duas meninas
brincando de fugir das ondas que avançavam, aquele movimento de brincar com as
margens ondeantes. Ali estava a liberdade, na fluidez imprecisa do mar, fazendo
o corpo experimentar, sem perceber, uma fronteira inofensiva.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Incêndios (Denis Villeneuve, Canadá-França, 2010)
Ouvi falar do filme Incêndios numa entrevista da atriz Marieta Severo, quando comentava
a adaptação teatral da peça de mesmo nome, no teatro Poeira. A atriz enfatizava
de tal forma a força dramática da peça de que foi adaptado o filme que
não havia outro jeito senão assisti-lo. O filme, uma história trágica, é
desconcertante, e pede uma segunda visada. Há o contexto contemporâneo, um país
em guerra civil, e um fundo mitológico de que o espectador pode suspeitar ao
perceber as marcas feitas no pé de um recém-nascido, filho da protagonista, Nawal
Marwan, que dela será tirado e cuja busca acaba sendo o fio condutor da
trama, contada em dois planos, a busca dela e a busca de seus dois
filhos pelo passado enigmático que ela lhes lega no testamento. A cena inicial
de Incêndios traz o desamparo
estampado no rosto de meninos. Esse desamparo, ao final, vai justificar o
perdão possível.
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