Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
A VERDADE DA REPRESSÃO - ANTONIO CANDIDO
Balzac, que percebeu tanta coisa,
percebeu também qual era o papel que a
polícia estava começando a desempenhar no mundo contemporâneo. Fouché a tinha transformado num instrumento preciso e onipotente, necessário para manter a ditadura de Napoleão. Mas criando dentro da ditadura um mundo paralelo, que se torna fator determinante e não apenas elemento determinado.
polícia estava começando a desempenhar no mundo contemporâneo. Fouché a tinha transformado num instrumento preciso e onipotente, necessário para manter a ditadura de Napoleão. Mas criando dentro da ditadura um mundo paralelo, que se torna fator determinante e não apenas elemento determinado.
O romancista tinha mais ou menos
dezesseis anos quando Napoleão caiu, e
assim pôde ver como a polícia organizada por Fouché adquirira por acréscimo (numa espécie de desenvolvimento natural das funções) o seu grande papel no mundo burguês e constitucional que então se abria: disfarçar o arbítrio da vontade dos dirigentes por meio da simulação de legalidade.
assim pôde ver como a polícia organizada por Fouché adquirira por acréscimo (numa espécie de desenvolvimento natural das funções) o seu grande papel no mundo burguês e constitucional que então se abria: disfarçar o arbítrio da vontade dos dirigentes por meio da simulação de legalidade.
A polícia de um soberano absoluto é
ostensiva e brutal, porque o soberano
absoluto não se preocupa em justificar demais os seus atos. Mas a de um Estado
constitucional tem de ser mais hermética e requintada. Por isso, vai-se misturando
organicamente com o resto da sociedade, pondo em prática um modelo que se poderia chamar de “veneziano” ― ou seja, o que estabelece uma rede sutil de espionagem e de delação irresponsável (cobertas pelo anonimato) como alicerce do Estado.
absoluto não se preocupa em justificar demais os seus atos. Mas a de um Estado
constitucional tem de ser mais hermética e requintada. Por isso, vai-se misturando
organicamente com o resto da sociedade, pondo em prática um modelo que se poderia chamar de “veneziano” ― ou seja, o que estabelece uma rede sutil de espionagem e de delação irresponsável (cobertas pelo anonimato) como alicerce do Estado.
Para este fim, criam-se por toda a parte
vínculos íntimos e profundos. A polícia se disfarça e assume uma organização
dupla, bifurcando-se numa parte visível (com os seus distintivos e as suas
siglas) e numa parte secreta, com o seu exército impressentido de espiões e
alcagüetes, que em geral aparecem como exercendo ostensivamente outra atividade.
Este funcionamento duplo permite satisfazer também a um requisito intransigente
da burguesia, dominante desde os tempos de Balzac e dispensado só nos casos de salvação
da classe: a tarefa policial deve ser executada implacavelmente, mas sem ferir demais
a sensibilidade dos bem-postos na vida. Para isso, é preciso esconder tanto quanto
possível os aspectos mais desagradáveis da investigação e da repressão.
Para obter esse resultado, a sociedade
suscita milhares de indivíduos de alma
convenientemente deformada. Assim como os “comprachicos” d’O homem que ri, de Victor Hugo, estropiavam fisicamente as crianças a fim de obterem aleijões para divertimento dos outros, a sociedade puxa para fora daqueles indivíduos a brutalidade, a privação, a frustração, a torpeza, a tara ― e os remete à função repressora.
convenientemente deformada. Assim como os “comprachicos” d’O homem que ri, de Victor Hugo, estropiavam fisicamente as crianças a fim de obterem aleijões para divertimento dos outros, a sociedade puxa para fora daqueles indivíduos a brutalidade, a privação, a frustração, a torpeza, a tara ― e os remete à função repressora.
Daí o interesse da literatura pela
polícia, desde que Balzac viu a solidariedade
orgânica entre ela e a sociedade, o poder dos seus setores ocultos e o aproveitamento do marginal, do degenerado, para o fortalecimento da ordem. Nos seus livros há um momento onde o transgressor não se distingue do repressor, mesmo porque este pode ter sido antes um transgressor, como é o caso de Vautrin, ao mesmo o seu maior criminoso e o seu maior policial.
orgânica entre ela e a sociedade, o poder dos seus setores ocultos e o aproveitamento do marginal, do degenerado, para o fortalecimento da ordem. Nos seus livros há um momento onde o transgressor não se distingue do repressor, mesmo porque este pode ter sido antes um transgressor, como é o caso de Vautrin, ao mesmo o seu maior criminoso e o seu maior policial.
Dostoievski percebeu uma coisa mais
sutil: a função simbólica do policial como sucedâneo possível da consciência ― a
sociedade entrando na de cada um através da pressão ou do desvendamento que ele
efetua. Em Crime e Castigo, o juiz de
instrução Porfírio Porfíriovitch vai-se tornando para Raskolnikof uma espécie
de desdobramento dele mesmo.
Mas foi Kafka, n’O Processo, quem viu o aspecto por assim dizer essencial e ao mesmo
tempo profundamente social. Viu a polícia como algo inseparável da justiça, e esta
assumindo cada vez mais um aspecto da polícia. Viu de que maneira a função de reprimir
(mostrada por Balzac como função normal da sociedade) adquire um sentido transcendente,
ao ponto de acabar se tornando sua própria finalidade. Quando isso ocorre, ela
desvenda aspectos básicos do homem, repressor e reprimido.
Para entrar em funcionamento, a
polícia-justiça de Kafka não tem necessidade de motivos, mas apenas de
estímulos. E uma vez em funcionamento não pode mais parar, por que a sua
finalidade é ela própria. Para isso, não hesita em tirar qualquer homem do seu trilho até
liquidá-lo de todo, física ou moralmente. Não hesita em pô-lo (seja por que
meio for) à margem da ação, ou da suspeita de ação, ou da vaga possibilidade de
ação que o Estado quer reprimir, sem se importar se o indivíduo visado está
envolvido nela. Em face da importância ganha pelo processo punitivo (que acaba
tendo o alvo espúrio de funcionar, pura e simplesmente, mesmo sem motivo), a
materialidade da culpa perde sentido.
A polícia aparece então como um agente
que viola a personalidade, roubando ao homem os precários recursos de
equilíbrio de que usualmente dispõe: pudor, controle emocional, lealdade,
discrição ― dissolvidos com perícia ou brutalidade profissionais. Operando como
poderosa força redutora, ela traz à superfície tudo o que tínhamos conseguido
reprimir, e transforma o pudor em impudor, o controle em desmando, a lealdade
em delação, a discrição em bisbilhotice trágica.
Daí uma espécie de monstruosa verdade
suscitada pela polícia. Verdade oculta de um ser que ia penosamente se
apresentando como outro, que de fato
era outro, na medida em que não era
obrigado a recair nas suas profundidades abissais. Aliás, seria mais correto
dizer que o outro é o suscitado pela
polícia. O outro, com a sua verdade imposta
ou desentranhada pelo processo repressor, extraída, contra a vontade, dos porões
onde tinha sido mais ou menos trancada.
De fato, a polícia tem necessidade de
construir a verdade do outro para
poder
manipular o eu do seu paciente. A sua força consiste em opor o outro ao eu, até que este seja absorvido por aquele e, deste modo, esteja pronto para o que se espera dele: colaboração, submissão, omissão, silêncio. A polícia esculpe o outro por meio do interrogatório, o vasculhamento do passado, a exposição da fraqueza, a violência física e moral. No fim, se for preciso, poderá inclusive empregar a seu serviço este outro, que é um novo eu, manipulado pela dosagem de um ingrediente da mais alta eficácia: o medo ― em todos os seus graus e modalidades.
manipular o eu do seu paciente. A sua força consiste em opor o outro ao eu, até que este seja absorvido por aquele e, deste modo, esteja pronto para o que se espera dele: colaboração, submissão, omissão, silêncio. A polícia esculpe o outro por meio do interrogatório, o vasculhamento do passado, a exposição da fraqueza, a violência física e moral. No fim, se for preciso, poderá inclusive empregar a seu serviço este outro, que é um novo eu, manipulado pela dosagem de um ingrediente da mais alta eficácia: o medo ― em todos os seus graus e modalidades.
***
Um exemplo dessa redução degradante é o
comportamento do delegado com o encanador, no filme Inquérito sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, de Elio Petri.
O delegado, que é também o criminoso,
resolve brincar com o destino e como
que provar o mecanismo autodeterminante da polícia, a sua finalidade em si mesma. Para isso, dirige-se a um transeunte qualquer, escolhido ao acaso, e confessa que é o matador procurado, dando como prova a gravata azul celeste que usa e fora vista nele. Convence então o pobre transeunte a ir à polícia e relatar o fato, dando-lhe para levar como indício (e evidentemente como baralhamento do indício) diversas gravatas iguais, que mostrariam como era a do assassino.
que provar o mecanismo autodeterminante da polícia, a sua finalidade em si mesma. Para isso, dirige-se a um transeunte qualquer, escolhido ao acaso, e confessa que é o matador procurado, dando como prova a gravata azul celeste que usa e fora vista nele. Convence então o pobre transeunte a ir à polícia e relatar o fato, dando-lhe para levar como indício (e evidentemente como baralhamento do indício) diversas gravatas iguais, que mostrariam como era a do assassino.
Chegando à polícia, o transeunte, que é
encanador, dá de cara com o assassino que se confessara na rua, e que ia
delatar; mas que agora está no seu papel de delegado. Este o interroga com
brutalidade e o pressiona física e moralmente para dizer quem era o assassino
que se desvendara a ele na rua. Mas o pobre diabo, completamente desorganizado
pela contradição inexplicável, não tem coragem para tanto. Com isso, vai ficando
suspeito, vai-se caracterizando legalmente como possível criminoso, até desaparecer
dos nossos olhos, trôpego, arrasado, por uns corredores sujos que levam aonde
bem suspeitamos.
A força que o paralisa, e que nos
paralisaria eventualmente, vem de uma
ambigüidade, misteriosa na aparência, mas eficaz, cuja natureza foi sugerida acima: o repressor e o transgressor são o mesmo, não apenas fisicamente e do ponto de vista dos papéis sociais, mas ontologicamente (o outro é o eu).
ambigüidade, misteriosa na aparência, mas eficaz, cuja natureza foi sugerida acima: o repressor e o transgressor são o mesmo, não apenas fisicamente e do ponto de vista dos papéis sociais, mas ontologicamente (o outro é o eu).
Tudo nesse episódio é modelar: a
gratuidade com que se escolhe o culpado; a
imposição de um comportamento não intencional (ir à polícia com as gravatas azuis no braço, delatar um criminoso sem nome, que não interessa); o baralhamento da verdade, quando ele constata que o homem que se denunciara como assassino é também o delegado; a transformação do inocente em suspeito e do suspeito em delinqüente, aceita pelo próprio inocente, do fundo da sua desorganização mental, forjada pela inquirição.
imposição de um comportamento não intencional (ir à polícia com as gravatas azuis no braço, delatar um criminoso sem nome, que não interessa); o baralhamento da verdade, quando ele constata que o homem que se denunciara como assassino é também o delegado; a transformação do inocente em suspeito e do suspeito em delinqüente, aceita pelo próprio inocente, do fundo da sua desorganização mental, forjada pela inquirição.
O fulcro desse processo talvez seja
aquele momento do interrogatório em que o delegado pergunta ao pobre diabo, já
zonzo, qual é a sua profissão.
“― Sou hidráulico”, responde ele.
O delegado esbraveja:
“― Qual hidráulico qual nada! Agora toda
a gente quer ser alguma coisa bonita! O que você é é encanador, não é?
En-ca-na-dor! Por que hi-dráu-li-co?!”
E o desgraçado, já sem fôlego nem prumo:
“― Sim, sou encanador.”
(Cito de memória porque não tenho o
roteiro.)
Vê-se que o pobre homem, a exemplo de
toda a sua categoria profissional, tinha adotado uma designação de cunho
técnico (idraulico, em italiano), que
o afasta da velha designação artesanal encanador (stagnaro, em italiano), e assim lhe dá a ilusão de um nível
aparentemente mais elevado, ou pelo menos mais científico e atualizado. Mas o policial
o reduz ao nível anterior, desmascara a sua autopromoção, tira para
fora a sua verdade indesejada. E no
fim, é como se ele dissesse:
“―Sim, confesso, não sou um técnico de nome sonoro, que evoca
inocentemente alguma coisa de engenharia; sou mesmo um pobre diabo, um
encanador. Estou reduzido ao meu verdadeiro eu,
libertado do outro”.
Mas na verdade, foi a polícia que lhe
impôs o outro como eu. A polícia efetuou
um desmantelamento da personalidade, arduamente construída, e trouxe de volta o que o homem tinha superado. Sinistra mentalidade redutora, que nos obriga a ser, ou voltar a ser, o que não queremos ser; e que mostra como Alfred de Vigny tinha razão, quando anotou no seu diário:
um desmantelamento da personalidade, arduamente construída, e trouxe de volta o que o homem tinha superado. Sinistra mentalidade redutora, que nos obriga a ser, ou voltar a ser, o que não queremos ser; e que mostra como Alfred de Vigny tinha razão, quando anotou no seu diário:
“Não tenho medo da pobreza, nem do
exílio, nem da prisão, nem da morte. Mas tenho medo do medo”.
(Publicado
em Opinião, nº 11, 15-22 de janeiro
de 1972.)
Revista
Discurso, São Paulo, nº 10, 1979,
p.1-5.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Romance XXIV ou Da Bandeira da Inconfidência — Cecília Meireles
Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
brilham fardas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são reinóis, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e das colônias inglesas.
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).
Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
"Que estão fazendo, tão
tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Leem notícias nas Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?"
(Antiguidades de Nimes
em Vila Rica suspensas!
Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade — essa palavra,
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)
E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.
Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência. 9.ed. São Paulo: Global, 2012, p.81-83.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
os enganos do verbo enganar
Há vários dias
venho querendo escrever sobre isso, os enganos do verbo enganar. Tudo porque um
pensamento me ocorreu recentemente: não querer se enganar traz pressuposto um
ego centralizador, que se toma como baliza e referência dos acontecimentos. Pensei
isso de mim mesma, acerca de uma de minhas angústias circulares e recorrentes.
É ridículo não querer se enganar, percebi então. O engano é inevitável, ainda
que as cautelas e a aplicação da inteligência sejam intensas. A favor disso
consta uma matéria superficial que li recentemente, que diz ser mito a ideia do
uso de apenas dez por cento da capacidade do cérebro. Segundo a reportagem, nosso
cérebro, ao contrário, vem sendo usado em sua potência máxima — daí as panes,
os apagões, os surtos, os transtornos disso e daquilo. Fiquei tentada a conferir
as várias acepções do verbo enganar no Houaiss.
Emendei pelo atalho da forma pronominal, enganar-se, talvez na origem dos
outros sentidos: ”ter impressão
sensorial, percepção, julgamento, avaliação etc. que não corresponde à
realidade; iludir(-se)”. Mas o que é a realidade, afinal, senão aquilo que
nos dá os sentidos e a percepção? “Meus ouvidos enganaram-se” (ou enganaram-me?),
“Minha percepção me enganou”, etc. Não obstante toda a luta para não enganar-se,
persiste um fundo de incerteza que, pelo menos no âmbito das decisões pequenas
e pessoais, faz da vida uma areia movediça.
Liberdades – Luis Fernando Veríssimo
É livre quem pode fazer o que quiser — dentro das
suas limitações de espaço, tempo, energia e recursos. Só se é livre dentro de
certos limites. Portanto, toda liberdade é condicional.
***
Só é totalmente livre quem pode exercer a sua vontade sem
qualquer limitação moral ou material. Isto é: o tirano. Assim, a liberdade
suprema só existe nas tiranias.
***
Dizer que a minha liberdade termina onde começa a liberdade
do outro é muito bonito. Mas e se a liberdade foi mal distribuída e o meu
vizinho tem um latifúndio de liberdade enquanto a minha é um quintal de
liberdade, liberdade mesmo que tadinha? Não é feio sugerir um reestudo da
divisão.
***
Cuidado com quem dá aos outros toda a liberdade. Geralmente é
quem pode tirá-la.
***
Há os que passam o dia inteiro livres e chegam em casa se
queixando disso. São os motoristas de táxi. Toda liberdade é relativa.
***
Toda liberdade é relativa. Verdade exemplarmente ilustrada
por este diálogo entre o preso e o carcereiro.
— Nunca mais vou sair daqui.
— Calma. Não desanime.
— Não tem jeito. Estou aqui para sempre.
— Vou ver o que posso fazer por você.
— Não adianta. Estou condenado. Desta prisão eu não
saio. Se esqueceram de mim.
— Eu não esquecerei. Voltarei para visitá-lo.
— Promete? — diz o carcereiro.
***
Quem é livre às vezes não sabe. Quem não é livre sempre sabe.
Ou será o contrário? A gente vê tanta gente inexplicavelmente feliz.
***
Alguns são obcecados pela liberdade e prisioneiros da sua
obsessão.
***
Os loucos são livres e vivem presos por isso.
***
Poderia se dizer que livre, livre mesmo, é quem decide de uma
hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avião. Mas
mesmo este depende de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar na
primeira classe. E nunca escapará da dura realidade de que só chegará em Paris
para o almoço do dia seguinte. O planeta tem seus protocolos.
***
Fala-se em liberdade como se ela fosse um absoluto. Mas dizer
“eu quero ser livre” é o mesmo que dizer “eu quero” e não dizer o quê. Existe a
Liberdade De e a Liberdade Para. Não é uma questão apenas de preposições e
semântica. É a questão do mundo. O liberalismo clássico iconizou a Liberdade
Para. Você é livre se tem liberdade para dizer o que pensa e fazer o que quer,
para ir e vir e exercer o seu individualismo até o fim, ou até o limite da
liberdade do outro. A ideia de que a verdadeira liberdade é a Liberdade De é
recente. Livre de verdade é quem é livre da fome, da miséria, da injustiça, da
liberdade predatória dos outros. A ideia é recente porque antes era
inconcebível.
Ser livre do despotismo era automaticamente ser livre
para o que se quisesse, para a vida e a procura individual do paraíso. Foi
preciso uma virada no pensamento humano para concluir que Liberdade Para e
Liberdade De não eram necessariamente a mesma liberdade e outra virada para
concluir que eram antagônicas. A última virada é a decisão de que uma liberdade
precisa morrer para que a outra viva. Não concorde com ela muito rapidamente.
***
Enfim, de todos os crimes que se cometem em nome da
liberdade, o pior é a retórica.
***
Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre,
completamente livre, é a que não tem medo do ridículo.
VERISSIMO, Luis Fernando. Em algum lugar do paraíso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011,
p.181-185.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
o sol
Há uma semana faz um sol imperioso aqui no Rio de
Janeiro — absoluto, quente, sem nuvens para amenizar. O calor, sem exagero,
está infernal, e as praias, lotadas. Em particular sinto-me refém, saindo de
casa apenas para o necessário e optando por não duelar com o sol — o fim de
tarde e a noite tornaram-se horários alternativos para sair, inclusive ir à
praia e entrar no mar sem sentir que a pele está sendo devorada pelo sol. Acredito
que muitos tenham o mesmo sentimento, e olham as praias lotadas com
indiferença. O ar condicionado é indispensável para dormir. Mas, mas, mas... aqui
não temos a pena de morte — pelo menos oficialmente. Parece hipócrita o que estou
dizendo, e em muitos sentidos talvez o seja. Implica a visão a partir de um
certo lugar social. Mas quando vejo comentários raivosos na internet desejando
a implementação da pena capital no país, me espanto e me pergunto de onde vem
tanto ódio.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
sábado, 3 de janeiro de 2015
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
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