Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 14 de julho de 2011

My Back Pages (1992)

My Back Pages - The 30th Anniversary Concert - 1992 on VimeoNeste link é possível conferir a gravação com melhor qualidade. Aqui a versão original pelo The Byrds.

Alejandra Pizarnik

INFANCIA

Hora en que la yerba crece
en la memoria del caballo.
En viento pronuncia discursos ingenuos
en honor de las lilas,
y alguien entra en la muerte
con los ojos abiertos
como Alicia en el país de lo ya visto.

Alejandra Pizarnik. Poesía completa. Barcelona: Lumen, 2000, p.176.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dylan Thomas: o inseto

"O inseto é decerto o flagelo das fábulas."

antologia: Knockin' On Heaven's Door

dia mundial do rock: aprecie sem moderação

Bon Dylan, The Man In Me, 1970.  

“O mais seguro nesta vida é o que jamais se conhece”

Este verso. O mais seguro na vida é o que jamais se conhece. Li o poema todo na sessão de análise. Não calculei. Abri o livro e li. Eis tudo. Um livro que se abre ― e um pouco mais se sabe, mesmo que seja saber que não sabe. Os românticos recriando Adão e Eva ― ler o livro do mundo.

terça-feira, 12 de julho de 2011

aos navegantes

Arrisco, numa enquete, meu singelo mar à vista... ¿QUÉ TE PARECE ESTE BLOG? É apenas minha vocação para a curiosidade. Está ali, na barra lateral, abaixo dos seguidores. Sem maiores expectativas, exceto a mais recôndita: saber um pouco mais deste espaço pelos passos de quem, com ou sem compasso, ou bússola, aporta seus barcos momentaneamente aqui.

Dylan Thomas: Was there a time...

É impossível ser indiferente a tanta beleza:

Houve um tempo em que os bailarinos com seus violinos
Esqueciam suas agruras nos circos da infância?
Houve um tempo em que choravam sobre os livros,
Mas o tempo engendrou uma larva em seus rastros.
Eles não estão a salvo sob o arco do céu.
O mais seguro nesta vida é o que jamais se conhece.
Sob os signos do céu, os que não possuem braços
Têm as mãos imaculadas, e, assim como o espectro sem coração
É o único intocado, assim o cego é quem melhor vê.

Dylan Thomas. Poemas reunidos. Trad. Ivan Junqueira. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, p.109.

Agora a moldura: li este poema hoje, no ônibus, indo para a análise, enquanto a memória buscava, em vão, lembrar-se de qual teria sido o poema de Dylan Thomas traduzido para o português que havia lido alhures, na blogosfera, muito bonito. Li de relance as considerações do tradutor sobre os poemas que serviram de base, questão sempre complexa na edição de textos, e ao que consta mais complexa no caso de Dylan Thomas. Vai ficar para outro post. A tradução não é bilingue, o vírus da desconfiança falou mais alto que a beleza que arrebatou no momento da leitura, e a carne por fim foi fraca: uma rápida combinação de palavras no Google levou não só ao poema original como ao outro poema que referi acima, e que era este mesmo, vertido para o português por HMBF.

amanhã é dia mundial do rock

...mas nada impede que a comemoração comece hoje: YES!

Bob Dylan: Born In Time

In the hills of mystery
In the foggy web of destiny
You can have what’s left of me
Where we were born in time
[site oficial de Bob Dylan]

segunda-feira, 11 de julho de 2011

o ponto onde começa o silêncio: marguerite duras

Nas histórias de meus livros que remetem à minha infância, de repente não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio que também sentíamos por ela e o amor que sentíamos uns pelos outros, e o ódio também, terrível, nessa história de ruína e morte que era a dessa família em qualquer caso, de amor ou de ódio, e que ainda não consigo entender plenamente, ainda me é inacessível, oculta no mais fundo de minha carne, cega como um recém-nascido no primeiro dia de vida. Ela é o ponto onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, essa lenta labuta durante toda a minha vida. Ainda estou lá, diante daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Nunca escrevi, e pensei que escrevia, nunca amei, e pensei que amava, nunca fiz nada a não ser esperar diante da porta fechada.”

DURAS, Marguerite. O amante. Trad.Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.23. 

William Carlos Williams e Pieter Brueghel

A Parábola dos Cegos, 1568, Pieter Brueghel

IX A PARÁBOLA DOS CEGOS

Esta horrível mas soberba tela
a parábola dos cegos
sem vermelho algum

na composição mostra um bando
de mendigos um a
guiar o outro atravessando

diagonalmente o quadro
desde um lado
para tropeçar enfim num charco

onde a pintura
e a composição terminam atrás
do qual nenhum homem vidente

é representado os rostos
sem barbear dos in-
digentes com seus poucos

e miseráveis pertences vê-se
uma bacia de lavar numa casinha
campônia e a ponta de uma torre de igreja

as faces estão erguidas
como que para a luz
não há nenhum detalhe estranho

à composição cada um
segue os outros bordão
na mão triunfante até o desastre


IX THE PARABLE OF THE BLIND

This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red

in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward

across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog

where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man

is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few

pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire

the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous

to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster


WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 252-253.

domingo, 10 de julho de 2011

Mário Faustino

E SONHOU A MULHER QUE SE CUMPRIRA

E sonhou a mulher que se cumprira.
E sonhou que no ventre da guitarra
Silente uma semente se partira
Em pranto, riso e música, fanfarra
De dor e glória por delfim nascido.
E sonhou a mulher que, enfim florido
Seu trato de terreno roxo, aberto,
Dormia sem sonhar sobre o deserto
Passado que em futuro então se abria
Frutificando em palmas de alegria.
Na lira umbilical Orfeu tocava
Acalanto ilusório à que dormia
E entre as árvores de sonho balançava
A rede filial inda vazia.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. Org. Maria Eugenia Boaventura. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.190. Na edição organizada por Benedito Nunes, em nota é informado que este poema também recebeu o título-dedicatória de Sonnet to a childless mother.

matéria estranha

A vida não cabe na linguagem. A vida, pressentida na inocência, era só silêncio e voragem. Todo o enigma de uma vida desdobrando-se em camadas sutis que sabem mais ao silêncio, e que ainda assim conhece a urgência da linguagem. Se os físicos foram buscar em Joyce o contorno para um dos abismos da matéria ― os quarks ― é porque abismar-se na matéria é fazer o mesmo na linguagem: a complexidade da matéria pede a complexidade que a linguagem logrou alcançar. Há rumores sobre a matéria estranha, diferente da usual, e que poderia absorver e transformar completamente esta ― como se fosse uma dimensão que não comportasse o mundo que, bem ou mal, o homem esforçou-se por esquadrinhar e lotear, embora cada tarde possa trazer a suspeita de que o homem não se habituou a existir. Mas agora há a matéria estranha. A matéria estranha não cabe no pensamento, não cabe em nada: ela é o grande nada, o fim de toda ilusão, o fim da beleza a que se deu o nome de poesia. 

"Three Quarks for Muster Mark!" (James Joyce)

Ronan O'Neill, Three Quarks for Muster Mark! [strange]

a superfície das palavras

L deixou alguns barcos. Inútil pensar que foram os barcos que buscaram outros rumos. Num relance, na tarde ― tarde e noite são espaços privilegiados de irrupção do inesperado―, L manda uma mensagem aloprada de celular a quem pode ouvi-la. É ouvida. Fala coisas ininteligíveis, porque precisa. Fala em “fala roubada”, em coisas intensamente vividas, coisas que precisam encontrar ouvidos de gente. Corta para outra cena. L deixa desconcertado quem não esperava dar com ela tão de repente e não sabe o que fazer com o fato dela existir e estar simplesmente ali, parada, sozinha, diante da tarde, sem precisar de nada, sequer do olhar que lhe é dirigido. Recebe o desdém com a mesma expressão com que olha o nada. Sustenta o olhar. Seus olhos não dizem nada, e sabe que desconcerta. Vai continuar desconcertando. O que falava a mensagem? Falava ― ameaçava falar ― o que não quer calar. A conexão entre os fatos é a própria superfície com que eles se oferecem: o barco que deixou pareceu-lhe muito estreito para a largueza do que experimentou. Era o que tentava dizer a mensagem, em formulação compatível com o formato e a tarde. Está ecoando, às vezes grita, outras apenas sussurra. 

Dogville (ou a condição de órfão)


Para quem suporta levar Dogville até o final, então há uma sequência antológica ao som de Young Americans, de David Bowie. Neste filme todos são jovens e já muito velhos para pisar neste planeta: a crueldade é sua melhor vingança contra o outro indefeso, indefeso porque um pouco mais frágil, apenas isso. A condição de órfão é a de todos: todos caímos na humanidade, e os laços de sangue muitas vezes apenas constituem uma licença maior para o abuso, também conhecido como proteção. O amor recebe muitos nomes, o que não significa que se saiba o que é este sentimento ― ou que ele seja comum ou fácil de sentir. O amor também é o nome que se dá ao que não se sente, palavra vazia a encobrir escusos sentimentos, difíceis de nomear.  

cuidar das palavras

Cuidar das palavras ― e esperar ― paciente ― o retorno. Ainda que venha apenas nos momentos de descuido ― distração. 

João Cabral de Melo Neto

O ARTISTA INCONFESSÁVEL 

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.58. 

William Carlos Williams: TO HAVE DONE NOTHING

NADA TER FEITO

Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito

é feito de
nada
e o ditongo

eu

seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo

do verbo
auxiliar
ter

tudo
que tenho feito
dá no mesmo

se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações

envolvendo os
códigos

morais
físicos
e religiosos

pois tudo
e nada
são sinônimos
quando

a energia in vacuo
tem o poder
de confusão

que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito


TO HAVE DONE NOTHING

No that is not it
nothing that I have done
nothing
I have done

is made up of
nothing
and the diphthong

ae

together with
the first person
singular
indicative

of the auxiliary
verb
to have

everything
I have done
is the same

if to do
is capable
of an
infinity of
combinations

involving the
moral
physical
and religious

codes

for everything
and nothing
are synonymous
when

energy in vacuo
has the power
of confusion

which only to
have done nothing
can make
perfect

William Carlos Williams. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.58-61.