Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

casinha na Gamboa

Hoje, passando pela Gamboa, não pude deixar de me lembrar da célebre menção ao bairro. A geografia é inseparável da literatura. Nos dias de hoje, onde Machado de Assis abrigaria da vigilância pública o casal de amantes? Ainda seria necessário fazê-lo?

estrada antiga

Há uma estrada antiga que resquícios esquecidos do eu reconhecem. A estrada confunde-se com esse lado adormecido do eu ― desperto em sonho ―, dá-lhe contorno. Uma estrada antiga, da infância, nunca esquecida. Coisas, recentes, sem nexo aparente, confluindo para a estrada, num lampejo reconhecida, ainda que envolta em camadas de sonho. As coisas desconexas? Um corte indesejado de cabelo, lembrando outros cortes, tesouradas dadas por força de se proteger. Mais o quê? Estranha vizinhança, e a estrada antiga onde o eu, portando a tesoura, reconhece um corte com a infância. “Que culpa temos nós dessa planta da infância, / de sua sedução, de seu viço e constância?” (Jorge de Lima, Invenção de Orfeu).

Madame Tutli Putli (animação)

mantis flight

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

domingo, 1 de janeiro de 2012

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

[Canto III, Poemas Relativos, XXVII]

Contemplar o jardim além do odor
e a mulher silenciosa entre os semblantes,
e refazê-los todos, todos antes
que o tempo condenado os atraiçoe.

Porque eu quero, em memória, refazê-los:
flor longínqua, mulher não pertencida,
substância inexistente, móvel vida,
intercessão de nadas e cabelos.

E meus olhos ausentes me espiando
entre as coisas caducas e fugaces
a minha intercessão em outras faces.

Orfeu, para conhecer teu espetáculo,
em que queres senhor, que eu me transforme,
ou me forme de novo, em que outro oráculo?

LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. São Paulo: Ediouro, s/d, p.81.

viver

Viver podia ser uma coisa mais realista ― uma sensação que me veio depois de ler os contos de Clarice Lispector escritos para crianças ― A vida íntima de Laura, A mulher que matou os peixes, Quase de verdade, O mistério do coelho pensante. “Você sabe que Deus gosta de galinha? E sabe como é que eu sei que Ele gosta? É o seguinte: se Ele não gostasse de galinha, Ele simplesmente não fazia galinha no mundo. Deus gosta de você também senão ele não fazia você. Mas por que fez ratos? Não sei.” (Clarice Lispector. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010, p.14)

pergunta sem resposta

A minha queridíssima sobrinha Beatriz, que completará cinco anos no próximo domingo, faz-me pergunta para a qual não consigo imaginar resposta: Por que papai do céu fez o ladrão? Na falta de uma resposta, e já numa outra volta da conversa, é-lhe lembrado o que ela havia dito antes: que ela vai ser tudo (quando crescer). Vou ser tudo, menos ladrão ― responde ela. Tudo, para uma criança de cinco anos, é o reino das possibilidades, o sonho abarcando a vida.

PAZ

Peace is a fiction of our Faith -

A Paz é uma ficção da Fé -


DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.44-45.

contra/dicção

É que há algo maior em ação, o que traduziria por sensação de marionete. Se a mitologia concedeu à esperança um lugar único, é porque desde cedo o homem reconheceu o quanto dependia desse sentimento para seguir em frente. Onde está a contradição? Na sensação de impotência diante da força da esperança. Há dois dias, ao rever um poema de Emily Dickinson, pensava no extraordinário poder da palavra proferida, a tal ponto que, sem perceber, o tempo todo se está interferindo no desconcerto do mundo. Guimarães Rosa, mirando Camões, falou no concertar consertado: “Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.” Se tivesse sido dito consertar concertado, mudaria muito? Concertar, consertar... uma partitura também se desarranja, e não é novo o símile entre música e vida ― às vezes mais ruído que sinfonia (ou sintonia). Mas então os ruídos precisariam ser incorporados à partitura.

Dora Ferreira da Silva: flor refletida no olhar

AGORA, AS COISAS SIMPLES...

Agora, as coisas simples
antes cegas em nossos olhos.
E nada tocamos
mãos sobre as cordas mudas.
Se o som desperta é dele
o ouvido em flor. Mas corre o sangue
porque tudo é vivo sob as folhas mortas.
Sozinho se arma o acorde no piano
há surpresas na colheita deste ano, novos grãos na seara.
Sobre o braço em ângulo a fronte repousa
e o olhar reflete
uma flor.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.352.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

ANO NOVO

Prepara-se o jardim.
Há um movimento do botão à flor
em câmara lenta.
O rosto pequeno das violetas
esconde seu perfume nas folhas
sussurrando segredos
                    salta o sabiá na aragem
e suplica à rosa de ontem
que não desfolhe seu rubor.

Promete a nova noite
a estrela que quisermos.
O CISNE ― constelação que amamos ―
cintila noutro céu.
                    Entre ar e folhagem
o pedido calado alcança
um pássaro estelar.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.291.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

como não?

Ouvi hoje de uma colega de profissão que era imprescindível uma roupa nova para a virada do ano. E então, tomando de empréstimo o Verissimo, me ocorreu que sempre me espanto um pouco mais com a variedade humana. Somos todos da mesma espécie, mas o que encanta uns horroriza outros. Atenuando esses extremos, o que encanta uns espanta outros. Nunca essa coisa de roupa nova havia se colocado antes para mim, mesmo como uma possibilidade. A ideia, à parte a suscetibilidade à nuvem dos discursos, era-me até então indiferente. Este ano pensei mesmo em fazer algo totalmente diferente, uma viagem para um lugar sossegado, reservado e aprazível. Para o próximo ano não está descartada a ideia. Mas por que me lembrei agora da sugestão da roupa nova? Porque estou buscando uma nova roupagem com que vestir meu ser ― o mesmo que sentir em si algum sopro de renovação. Queria poder trocar de roupa por dentro, dar-me de presente novos trajes. Agora talvez esteja entendendo a simbologia da roupa nova na passagem do ano. E porque, via de regra, são roupas brancas. 

duplo, dobro, duplicado...

Súbito interesse em assistir A Dupla Vida de Véronique.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

AION

Flor sideral
docemente arremessada ao éter
guiou-me ao centro da linguagem
ensinou-me a ler como arúspice
entranhas de eventos e pássaros
gerando-me na árvore
do espírito em flor.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.176.

últimos dias do ano

São dias diferentes, estes. Passado o grande entusiasmo que envolve o Natal, resta menos que uma semana para o ano novo. É como se o ano inteiro convergisse para o Natal, e nesses pouquíssimos dias que faltam para o ano terminar fosse possível sentir uma densidade diferente no ar. Uma necessidade forte de recolhimento, de tocar o próprio tempo, afinal um detalhe insignificante no grande concerto cósmico. Nós ocidentais vivemos o tempo de duas formas: o tempo linear e o tempo cíclico. A passagem do ano projeta uma linearidade sobre um fenômeno que é, em essência, cíclico.

Millôr Fernandes sobre Rubem Braga

OUTSIDERS ― Eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis.  [aqui]

Dora Ferreira da Silva

OS POETAS ESTÃO COM MEDO...

Os poetas estão com medo das palavras:
é o sinal evidente que devem detoná-las.
A vida implora: quer ser refeita
sob os escombros. Tantas avenidas
trânsito parado rios enfermiços pássaros
em debandada: encontrarão talvez seu pouso
num disco voador receptivo ao voo e ao canto.
Desencanto do presente. Economia economia
economia e a casa em desordem.
Um pouco de filosofia não fará mal nenhum.
Os jovens poetas leem Giordano Bruno
Nietzsche e sabem que eles mais perto estiveram
do noumeno do que esses fenômenos de efeito
especial ― barulho e repetição. O mal
é o alienígena, bárbaro à vista como sempre
e outrora. Detonem a palavra ― poetas ―
poetas é outro nome de guerreiros e amorosos
do ser. Venham com seus amores transfigurados
com sua energia nuclear. A destruição pela
palavra é redemoinho no ar
para novas configurações do imaginário,
de um novo fabulário que liberte Andrômeda
de seus grilhões e torne o monstro
digestível. Tirem a palavra de sua bainha,
o coração, sem hesitar. A palavra
― sopro cosmogônico― nossa arma de predileção,
nossa bomba amorosa de efeito retardado
mas seguro. O mundo que se desmunda aí está
à espera de aragem sagrada de vossas bocas
dizei um novo Atharva-Veda poetas oficiantes
buscai o ponto de união de tantos cacos
dispersos; dizei o verso que vem aos trancos
e barrancos dependendo de vossa ousadia
e alegria, pois é sempre alegre
o gesto criador, a palavra inicial.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.401-402.

28 de dezembro

Perco o sono no meio da noite, e apesar de ainda ser noite ― madrugada ― já é dia 28 de dezembro. De uns tempos para cá, quando esses rituais de passagem ganharam dimensão para mim, sempre sei o que estou deixando para trás com o ano que finda.