Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 14 de julho de 2013

a descoberta da vida

Lia (o verbo reler, no caso de Clarice, não se aplica), antes de dormir, a crônica “A descoberta do mundo”, inserta em uma coletânea do gênero, quando, ao chegar neste trecho, voltei e voltei mais uma vez: “Ou será que eu adivinhava mas turvava minha possibilidade de lucidez para poder, sem me escandalizar comigo mesmo, continuar em inocência a me enfeitar para os meninos? (...) Seria minha ignorância um modo sonso e inconsciente de me manter ingênua para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos?” Foi então que, um pouco nebulosamente, foi-se me revelando um dado, talvez o que faltava, de um enigma de minha história pessoal — não digo “o enigma” porque seria subestimar a vida. Eu entendi, eu encontrei a peça que faltava, não de maneira clara e lógica e cristalina, mas como essas coisas conseguem se dar ao nosso entendimento. E então jorraram imagens durante a noite, que confirmaram minha cegueira. Talvez então isso que Clarice disse possa ter algum sentido para mim: “Porque eu sempre soube de coisas que nem eu mesma sei que sei.” Clarice Lispector é única. E eu não sei se alguma coisa está melhor hoje pelo fato dessas coisas se terem dado, mas entender junto com Clarice Lispector é conhecer sem se brutalizar.

sábado, 13 de julho de 2013

riders on the storm

my back pages

learning to fly

cássia eller (lindíssima) e edson cordeiro

rockin' in the free world

dia do rock: todas as homenagens ao gênero mais difícil de adjetivar

"But what's puzzling you is the nature of my game"

terça-feira, 9 de julho de 2013

ponto de encontro (zé renato e milton nascimento)

o que os sonhos desnudam

Os sonhos têm suas próprias razões. Difícil é lidar com a força agressiva de suas imagens. 

a alma que as roupas não escondem

Ao me vestir, escolher as roupas que vou usar, tenho a impressão de que sou urbana. No entanto, há algo que as roupas não escondem. Um espelho de shopping deu o flagrante: num vislumbre rápido, percebi todo um conjunto perfeitamente caipira. Esperto era Rubem Braga, que tinha uma amostra de suas raízes na cobertura de Ipanema em que vivia.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Labirinto, labirintite, orientação.

Uma crise aguda (e inesperada) de labirintite levou-me ao hospital na sexta-feira. Na verdade, a crise teria me deixado em casa, passando mal a perder de vista, perdendo as forças e os sentidos. Quem me levou foram minhas vizinhas, a quem eu tive a presença de espírito de chamar em meu auxílio, quando me dei conta da gravidade do que estava acontecendo e ainda tinha forças para me erguer da cama. Sugestão de minha mãe, que mora longe, em outra cidade, outro estado, a quem liguei em primeira instância. Os sintomas e a manifestação da labirintite são deveras desagradáveis, e não há que descrevê-los aqui, nem é este o propósito. Mas há um sintoma que não sei se é comum a quem passa pelas crises: a sensação imensa de fragilidade. Porque é incerto o desfecho, se o socorro — o outro, digo — não aparecer. Apareceu, como costuma acontecer comigo. Depois tudo se ajeitou, quem de direito foi avisado etc. etc. etc. 

domingo, 30 de junho de 2013

Verissimo n'O Globo de hoje

ALTERNATIVA
Ao contrário da morte, de uma ditadura se volta, preferencialmente com uma lição aprendida. Para mudar isso aí, prefira a vida — e o voto
LUIS FERNANDO VERISSIMO, 30/06/13

Envelhecer é chato, mas consolemo-nos: a alternativa é pior. Ninguém que eu conheça morreu e voltou para contar como é estar morto, mas o consenso geral é que existir é muito melhor do que não existir. Há dúvidas, claro. Muitos acreditam que com a morte se vai desta vida para outra melhor, inclusive mais barata, além de eterna. Só descobriremos quando chegarmos lá. Enquanto isto vamos envelhecendo com a dignidade possível, sem nenhuma vontade de experimentar a alternativa.
Mas há casos em que a alternativa para as coisas como estão é conhecida. Já passamos pela alternativa e sabemos muito bem como ela é. Por exemplo: a alternativa de um país sem políticos, ou com políticos cerceados por um poder mais alto e armado. Tivemos vinte anos desta alternativa e quem tem saudade dela precisa ser constantemente lembrado de como foi. Não havia corrupção? Havia, sim, não havia era investigação para valer. Havia prepotência, havia censura à imprensa, havia a Presidência passando de general para general sem consulta popular, repressão criminosa à divergência, uma política econômica subserviente e um “milagre” econômico enganador. Quem viveu naquele tempo lembra que as ordens do dia nos quartéis eram lidas e divulgadas como éditos papais para orientar os fiéis sobre o “pensamento militar”, que decidia nossas vidas.
Ao contrario da morte, de uma ditadura se volta, preferencialmente com uma lição aprendida. E, se para garantir que a alternativa não se repita, é preciso cuidar para não desmoralizar demais a política e os políticos, que seja. Melhor uma democracia imperfeita do que uma ordem falsa, mas incontestável. Da próxima vez que desesperar dos nossos políticos, portanto, e que alguma notícia de Brasília lhe enojar, ou você concluir que o país estaria melhor sem esses dirigentes e representantes que só representam seus interesses, e seus bolsos, respire fundo e pense na alternativa.
Sequer pensar que a alternativa seria preferível — como tem gente pensando — equivale a um suicídio cívico. Para mudar isso aí, prefira a vida — e o voto.

Iago

“Anda, vai; adeus! Põe dinheiro em tua bolsa.
(sai Rodrigo)
Faço assim de meu bobo minha bolsa.
Seria profanar o que aprendi
Gastar meu tempo com um palerma desses
Senão pra lucro meu; odeio o Mouro,
E dizem por aí que em meus lençóis
Ele fez meu papel; não sei se é certo...
Mas, para mim, só suspeitar é o mesmo
Que certeza, no caso. Ele me estima,
O que me facilita abusar dele.”

William Shakespeare. Otelo, o mouro de Veneza. Trad. Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, p.39.

sábado, 29 de junho de 2013

arthur cadre

Graciliano Ramos: Pequena história da República (trecho)

1922
Em começo de 1920 vários municípios sertanejos da Bahia sublevaram-se. Para evitar luta, o governo contemporizou, entrou em combinações com os chefes rebeldes.
Em março ocorreram na capital federal manifestações de operários, logo abafadas severamente. 1921 principiou com agitações deste gênero: greve de trabalhadores marítimos, greves dos operários de construção. E o desassossego aumentou durante a campanha da sucessão, culminou em 1922 com demonstrações de indisciplina e revolta.
É curioso notar que isso não ficava apenas em comício, com discurso e tiro. Havia indisciplina em toda parte: nos quartéis, nas fábricas, nos atelieres, nos cafés, nos quartos de pensão onde sujeitos escrevem. E a revolta, meio indefinida, tomando aqui uma forma, ali outra, manifestava-se contra o oficial, que exige a continência, e o contra o mestre-escola, que impõe a regra. A autoridade perigava.
Afastou-se o pronome do lugar que ele sempre tinha ocupado por lei. Ausência de respeito a qualquer lei.
Com certeza seria melhor deslocar o deputado, o senador e o presidente. Como estes símbolos, porém, ainda resistissem, muito revolucionário se contentou mexendo com outros mais modestos. Não podendo suprimir a constituição, arremessou-se à gramática.

5 de julho
A eleição realizada em março de 22 foi um desastre, como de ordinário. Vencedor o candidato do governo. Pílulas. Continuação da mágica besta; a chapa entregue ao eleitor encabrestado e metido na urna, ata fabricada pelo coronel, o Congresso examinando todas as patifarias e arranjando uma conta para a personagem escolhida empossar-se.
Francamente, aquilo não tinha graça. No começo da República, ainda, ainda: mas agora estava muito visto, muito batido, não inspirava confiança. Necessário reformar tudo.
Como? Ninguém sabia direito o que viria, mas todos concordavam num ponto: não podia vir coisa pior que o que tínhamos. Muito brilho por fora: visita de reis, exposição, projetos de açudes, universidade, numerosos hóspedes ilustres. Por dentro era aquela miséria: doença, ignorância, o coronel safado a mandar, assassino e ladrão.
E alguns rapazes se levantaram, no forte de Copacabana, a 5 de julho de 1922. Mas houve defecções. O marechal Hermes, implicado no movimento, deixou-se prender. Ficaram em Copacabana dezoito doidos que afrontaram a tropa, comandados por Siqueira Campos.

O centenário
Depois disso veio o estado de sítio, com muita prisão. Em seguida fizeram-se grandes festas para solenizar o centenário da Independência.

RAMOS, Graciliano. Alexandre e outros heróis. 56.ed. Rio de Janeiro: Record, 2012, p.180-182.