“Como a noite pode se fazer presente. Feita só de si
mesma, é absoluta, cada espaço é seu, impõe-se com sua mera presença, com a
mesma presença do fantasma que você sabe estar bem na sua frente, mas está por
todo lado, inclusive às suas costas, e caso se refugie num pequeno foco de luz
ficará prisioneiro, porque ao redor, como num mar que circunda seu pequeno
farol, está a insuperável presença da noite.” (Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa.Trad. Nilson
Moulin. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.38-39).
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
domingo, 8 de setembro de 2013
sábado, 7 de setembro de 2013
deserção suave
Generalizar sobre o ser humano, elaborando abstrações,
não me interessa ou diz respeito. Precisei de uma semana para apreender a
inversão dos parâmetros contemporâneos que se opera em “A Pele que Habito”, um
Almodóvar trágico. De mim sei o que posso saber hoje, e o que posso saber a
cada instância da linha descontínua da existência parece sofrer das
irregularidades do terreno. O que posso saber de mim hoje mostra (a mim) alguém
diferente de quem já me supus ou acreditei em outras paragens, ainda que
aparentemente sob a mesma pele. O que mais me espanta é como algumas pessoas —
e aqui traio a intenção de não generalização — conseguem estar sempre iguais, operação
que parece demandar um esforço admirável de acomodação. Vejo a pele que habito
envelhecendo aos poucos, enquanto o ser que espreita sob ela... é... é o que o
cotidiano permite, o que as energias de hoje permitem. Eu preciso agradecer aos
amigos, os poucos que o abraço de hoje consegue abrigar, por não desistirem de
mim, apesar do (tão) pouco que tenho conseguido fazer ou oferecer. E preciso também
reconhecer que tenho me obrigado a estar mais presente. Nenhum clichê de
amizade, apenas uma deserção suave dos lugares comuns.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
verissimo, domingo, n'o globo
POETAS
Luis Fernando Verissimo
1/09/13
Ainda não sabemos tudo sobre Marte, mas sabemos o
bastante para dizer que ele nos decepcionou. Marte foi um blefe. Os tais canais
vistos pelas lunetas antigas, provas de que haveria alguma forma de vida
inteligente no planeta, mesmo que fosse só de engenheiros, não eram canais.
Nenhum vestígio de qualquer tipo de vida apareceu em Marte, muito menos o de
uma civilização de homenzinhos verdes, ou de qualquer outra cor, com a
capacidade para invadir a Terra. Anos e anos de literatura premonitória e
previsões terríveis foram desperdiçados. Nos apavoraram por nada. Como no
Iraque, também não havia armas de destruição em massa em Marte.
Mas, se Marte revelou ser um imenso parque de
estacionamento, que não ameaça a Terra, isso não quer dizer que não existam
civilizações lá fora que cedo ou tarde entrarão em contato conosco, exigindo
nossa submissão ou anunciando a invasão.
Nada nos assegura que, se ainda não fomos invadidos
por exércitos extraterrenos, não tenha havido — ou esteja havendo neste momento
— missões de prospecção e espionagem, feitas por destacamentos avançados ou por
agentes isolados. Não quero assustar ninguém, mas vou contar. Já tive contato
com um desses agentes extraterrestres. Desconfiei quando ele disse “Vocês são
engraçados...” e eu perguntei: “Vocês”, quem? “Vocês” brasileiros? “Vocês”
carecas? “Vocês” míopes? Destros? Cardiopatas? E ele respondeu: “Vocês, gente.”
E me confessou (já tinha bebido um pouco) que não
era deste mundo, era de outro, e estava prospectando o Universo inteiro atrás
de um planeta para ser colonizado pelo seu. Achava que tinha, finalmente,
encontrado este planeta. Era a Terra. No seu relatório, recomendaria que a
Terra fosse ocupada e sua principal riqueza natural explorada, pois era o que
faltava no planeta do qual viera.
Perguntei qual era a riqueza natural que nós
tínhamos e eles não e o extraterrestre respondeu: “A poesia.” E perguntou:
“Você sabe que a Terra é o único planeta do universo conhecido em que as
pessoas dão nome aos ventos?” Fiquei lisonjeado com aquilo, pensando: “Taí,
somos todos poetas e não sabíamos”, e perguntei o que fariam com os poetas da
Terra no planeta dele.
— Comê-los, claro — respondeu ele.
E explicou que não havia mais poetas no seu planeta
porque já tinham comido todos. Ou como eu imaginava que eles tinham se tornado
uma civilização tão avançada?
a poesia existe para que a vida ganhe ritmo
Mas peço perdão
pela heresia
de pressupor
uma finalidade
para a poesia.
domingo, 1 de setembro de 2013
a pele que habito (pedro almodóvar, 2011)
O filme “A Pele Que Habito” traz latente questões não
redutíveis a uma abordagem simplificadora. Depende muito da forma com que é
apropriado pelo espectador. Por exemplo, o papel libertador da arte, ou a
possibilidade de se ir muito além da pele, ao contrário do caráter
aparentemente epidérmico (sem que isso soe uma redundância) da
contemporaneidade. De todo modo, é um Almodóvar bastante subversivo — e
perturbador.
enfim, manoel de barros
EU
NÃO VOU PERTURBAR A PAZ
De
tarde um homem tem esperanças.
Está
sozinho, possui um banco.
De
tarde um homem sorri.
Se
eu me sentasse a seu lado
Saberia
de seus mistérios
Ouviria
até sua respiração leve.
Se
eu me sentasse a seu lado
Descobriria
o sinistro
Ou
doce alento de vida
Que
move suas pernas e braços.
Mas,
ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na praça, quieto.
Manoel
de Barros. Poesia completa. São
Paulo: Leya, 2010, p.35.
Rubem Braga
O padeiro
Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira
no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento — mas não encontro o pão
costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da
véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve,
é um lock-out,
greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o
povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do
governo.
Está bem. Tomo o meu café
com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me
lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o
pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os
moradores, avisava gritando:
— Não é ninguém, é o
padeiro!
Interroguei-o uma vez: como
tivera a ideia de gritar aquilo?
"Então você não é
ninguém?"
Ele abriu um sorriso largo.
Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a
campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa
qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir
a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é
o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...
Ele me contou isso sem mágoa
nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que
estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu
também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que
deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina —
e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o
jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
Ah, eu era rapaz, eu era
rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que
levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia
uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na
porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade
daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o
padeiro!"
E assobiava pelas escadas.
Rubem
Braga. 200 crônicas escolhidas. 29.ed. Rio de Janeiro: Record,
2008, p.321-322.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Cecília Meireles
SUGESTÃO
Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Flor que se cumpre,
sem pergunta.
Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.
Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.
Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.
Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.
À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.
Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Não como o resto dos homens.
serena, isenta, fiel.
Flor que se cumpre,
sem pergunta.
Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.
Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.
Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.
Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.
À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.
Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Não como o resto dos homens.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
terça-feira, 27 de agosto de 2013
uma nota de humor no fim da tarde
Aconteceu no ponto de ônibus. Que, no Rio de Janeiro,
dependendo do bairro, é também ponto das vans. As vans trabalham em geral com
um trocador, que vai cantando o destino à medida que passa nos pontos. Por
exemplo: “sulacap-taquara-recreio” — a que se costuma acrescentar: “vaga sentado”.
Tudo isso prolongando o “o” de sentadooo. Talvez seja impossível reproduzir em
palavras o pequeno chiste que o inusitado de uma situação ensejou. Um gari
dependurado no carro de coleta de lixo passou no ponto cantando um destino
qualquer das vans, não esquecendo a “vaga sentadooo”. Naturalmente se ele,
depois de um dia pesado de trabalho, tinha disposição para brincar com os
passageiros também cansados que aguardavam no ponto, por que não retribuir? E,
de fato, ficou engraçado, algumas pessoas riram, talvez pela surpresa de alguém
extrair humor do que comumente é opaco.
Cecília Meireles
NESTE LONGO EXERCÍCIO DE ALMA...
Ciência, amor, sabedoria,
— tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
— tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
domina-se a lágrima,
vence-se o abismo:
— cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
— cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.
domingo, 25 de agosto de 2013
alguns trabalhos premiados no 40º Salão Internacional de Humor de Piracicaba (SP)
Trabalho de José Antonio Costa Jota A (Brasil), vencedor na categoria tiras
Trabalho de Rafael Correa (Brasil), menção honrosa em charge
Trabalho de Angel Boligan (México), vencedor do prêmio temático de futebol
Trabalho de Goran Divac (Sérvia), vencedor da categoria cartum e do Troféu Zélio de Ouro
caetano hoje n'o globo
“Mas tenho de manter a
minha fama de mau. O que desejo, no entanto, é tomar o 2 de Julho baiano deste
ano como exemplo do que deve ser o 7 de Setembro nacional. Li no Jânio deFreitas (...) palavras indignadas
com a agressão à emergência do Hospital Sírio-Libanês perpetrada pelos grupos
violentos que se tornaram um lugar-comum do estágio final de cada passeata. Já
me referi aqui à arriscada simplificação que a mídia faz quando separa os
protestos, que começam pacíficos, dos atos de ‘vandalismo’ que em geral a eles
se seguem: muita gente que não joga pedra se sente representado por quem joga —
e muitos dos que saem sem esse intuito muitas vezes aderem, no calor da hora,
aos atos agressivos. Todos sabem (a Globo mostrou os vídeos da Mídia Ninja) que
a incitação à barbárie por vezes parte de policiais infiltrados e disfarçados (...).
Mas as depredações de bancos e butiques responde a uma raiva anticapitalista
que é parte do impulso político que fez nascer as manifestações. Também às
formas meio filosóficas, meio literárias de expressão de tal sentimento
engendradas por leitores de Deleuze e Foucault, como Antonio Negri e Michael
Hardt (...). Seja como for, um 7 de Setembro violento seria uma burrice. Meu
colega Sidney Waismann me procurou para propor algum gesto público que
prevenisse a hecatombe que o artigo de Jânio de Freitas esboça (a partir do que
leu em redes sociais). Sidney sugere chamar Zuenir, Alba Zaluar, Francisco
Bosco, quem sabe companheiros músicos e outros criadores e pensadores, e pedir
audiência com Beltrame. Por outro lado, expor aos manifestantes a questão não
formulada: a violência é mais eficaz? Ele lembrou que Zuenir evoca Gandhi,
Luther King e Mandela como exemplos. Se sairmos pela paz na Independência, o
país lerá concentradamente a pergunta “Cadê Amarildo?” e tentará respondê-la. O
mundo passa por convulsão. Nós precisamos de sabedoria. Dizer que passeata
pacífica é armação da mídia golpista é pobreza que ajudará os piores argumentos
dos reacionários. O artigo de Francisco Bosco foi iluminador. Para mim,
violência no 7 de Setembro seria simplesmente burrice.”
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