Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 25 de junho de 2013

o acento das manifestações

Nas últimas duas semanas, o assunto principal das/nas salas de aula tem sido as manifestações Brasil a fora. Naturalmente os estudantes — pelo menos os da rede pública — entraram de corpo e alma no movimento. E eles, também naturalmente, vêm perguntar aos professores o que estes estão achando disso. Na “sala de professores”, o assunto também não tem sido outro. Ocorre que, desde meados da semana passada, quando a revogação do aumento das passagens não se mostrou bastante diante de uma pauta imensa de reivindicações, tornou-se evidente que as manifestações tinham tomado outro rumo e ganhando nova força, difícil de precisar, mas claramente direcionados — rumo e força — contra a vaga entidade denominada governo. Não é preciso ter lido Foucault para saber o que se movia, e continua se movendo, por detrás disso, pelo menos em se tratando de Brasil. Então, na sexta-feira, diante de alunos empolgados com as novas manifestações contra “tudo”, sugeri, diante de uma queixa contra o novo acordo ortográfico, que isso se tornasse também uma pauta de reivindicações, e sugeri um brado de ordem: “Idéia com acento!”, “Idéia com acento!”. Naturalmente todos riram, e talvez alguém tenha somado o riso à ironia. O fato é que, naquela mesma noite, uma nova onda de saques se verificou, transmitida ao vivo pela TV, seguida por um domingo solar de esperança e muita violência. O corolário óbvio disso tudo é que não somos europeus, nem mesmo em manifestações. E quem continua chamando para as ruas deve saber que não dá para separar manifestação de arrastão: tudo, em última instância, é manifestação, embora por demandas diferentes. É preciso democratizar o conceito de povo, para poder pensar efetivamente em democracia.

O POPULAR
Luis Fernando Verissimo

Um número recente da ‘Veja’ trazia fotografias sensacionais das (como diria um inglês) “incomodações” na Irlanda do Norte. Todas eram de ganhar prêmio, mas uma me impressionou especialmente. Nela aparecia a versão irlandesa do Popular.  
É uma figura que sempre me intrigou. A foto da ‘Veja’ mostra um soldado inglês espichado na calçada, protegido pela quina de um prédio, o rosto tapado por uma máscara de gás, fazendo pontaria contra um franco-atirador local. Atrás dele, agachados no vão de uma porta, dois ou três dos seus companheiros, também em plena parafernália de guerra, esperam tensamente para entrar no tiroteio. Há fumaça por todos os lados, um clima de medo e drama. Mas ao lado do soldado que atira, em primeiro plano, está o Popular. De pé, olhando com algum interesse o que se passa, com as mãos nos bolsos e um embrulho embaixo do braço. O Popular foi no armazém e na volta parou para ver a guerra. 
Sempre pensei que o Popular fosse uma figura exclusivamente brasileira. Nas nossas incomodações políticas, no tempo em que ainda havia política no Brasil, o Popular não perdia uma. Os jornais mostravam tanques na Cinelândia protegidos por soldados de baioneta calada e lá estava o Popular, com um embrulho embaixo do braço, examinando as correias de um dos tanques. Pancadaria na Avenida? Corria polícia, corria manifestante, corria todo mundo, menos o Popular. O Popular assistia. Cheguei a imaginar, certa vez, uma série de cartuns em que o Popular aparecia assistindo ao Descobrimento do Brasil, à Primeira Missa, ao Grito da Independência, à Proclamação da República... Sempre com seu embrulho debaixo do braço. E de camisa esporte clara para fora das calças. (O Popular irlandês veste terno e sobretudo contra o frio. O Popular tropical é muito mais Popular.) 
Não se deve confundir o Popular com o Transeunte, também conhecido como o Passante. O Transeunte ou Passante às vezes leva uma bala perdida, o Popular nunca. O Transeunte às vezes vai preso por engano, o Popular é o que fica assistindo à sua prisão. O Transeunte, não raro, se compromete com os acontecimentos. Aplaude o visitante ilustre que passa, por exemplo. O Popular fica com as mãos nos bolsos e quase sempre presta mais atenção ao motociclo dos batedores do que à figura ilustre. O Transeunte pode se entusiasmar momentaneamente com uma frase de comício ou um drama na rua, e aí o Popular é que fica olhando para o Transeunte.
O Popular não tem opinião sobre as coisas. Quando o rádio ou a televisão resolvem ouvir “a opinião de um popular” na rua, sempre se enganam. O Popular nunca é o entrevistado, é o sujeito que está atrás do entrevistado, olhando para a câmara.
O Popular não merece nem os méritos nem a calhordice que a imprensa lhe atribui. Alguém que é “socorrido por populares”, outro, menos feliz, que é linchado por populares... Engano. Onde há um bando de populares não há o Popular. O Popular é a antimultidão. Sua única virtude é a sua singularidade. E um certo ceticismo inconsciente diante da História e das coisas. Não é que o Popular desmereça o Poder e os grandes lances da Humanidade, é que ele tem uma fatal curiosidade pelo detalhe supérfluo, um fascínio irresistível pelo insignificante. Nas revoluções, o que atrai o Popular é a estranha postura de um soldado deitado no chão, o mecanismo de um tanque, as lentes de uma câmara. 
O Popular é uma figura tipicamente urbana. Não tem domicílio certo. Seu habitat natural é a margem dos acontecimentos. E este é o seu maior mistério, a chave da sua existência ninguém jamais conseguiu descobrir o que o Popular leva naquele embrulho. E tem mais. O dia em que pegarem um Popular para desvendarem um mistério, será inútil. Vão se enganar outra vez. O Popular verdadeiro estará atrás do preso, assistindo a tudo.

Luis Fernando Verissimo. O popular. 3.ed. Porto Alegre: L&PM, 1984, p.11-13. [1ª edição: 1973]

cenário nebuloso e a imprensa calhorda

domingo, 23 de junho de 2013

o futebol como metáfora (incômoda) do país, ou os pés de barro da pátria de chuteiras

“É importante saber que a tia Fifa não é como é por insensibilidade ou elitismo desvairado. Suas exigências, que parecem irrealistas, obedecem a um desejo de ordem social e estética. A tia Fifa sonha com um mundo limpo, em que as desigualdades entre ricos e pobres desaparecem desde que todos sigam as mesmas regras e tenham o mesmo gosto, e por isso a convidam.” (Luis Fernando Verisssimo, hoje, n’O Globo)

“[...] o jogo de Neymar ensina que o movimento emaranhado das ruas tem de achar o jeito inspirado de acertar no melhor. Que saibamos chegar ao mais bonito.” (Caetano Veloso, hoje, n’O Globo)

“Diz o escritor inglês Alex Bellos que, se para os europeus os marcos da memória histórica do século XX são dados pelas Guerras, no Brasil são dados pelas Copas do Mundo. A afirmação sinaliza de maneira ambivalente o quanto a paixão do futebol deu forma à identidade e à memória coletiva brasileira, ao mesmo tempo em que sugere o quanto ela é pautada tradicionalmente pelo jogo, pelo lúdico, e não pelo enfrentamento das realidades. A comparação ganha uma outra atualidade agora, quando o ensaio da Copa do Mundo através da Copa das Confederações vem acompanhado de uma guerra, real e simbólica, onde está em jogo o custo social da tarifa de ônibus, o custo social da Copa do Mundo, o custo social e político do Brasil. Uma inesperada junção à maneira brasileira de guerra com Copa, por isso mesmo muito nova.” (José Miguel Wisnik, ontem, n’O Globo)

um comentário lido na internet e uma visita ao "cronisias"

“O pequenino dinossauro, fofinho, está crescendo. Está ameaçando o laboratório e os funcionários. Espero que quem o incubou ainda o tenha sob controle.
"algumas 'charges' e uma fotografia" (aqui)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"conversa afiada"

A Rede Globo — e Cia. Ilimitada — vai fazer de tudo para capitalizar os protestos em benefício próprio, mirando-os, pela manipulação, contra o PT e a presidente Dilma, e escamoteando o fato de que também é alvo dos protestos. Isso sem falar na figura ridícula que atende pelo nome de Arnaldo Jabor.

domingo, 16 de junho de 2013

Partido da Imprensa Golpista - PIG

Herberto Helder: um idioma sem gramática (para o domingo)

A alimentação simples da fruta,
a sabedoria infusa,
as constelações ao alto zoológicas arquejando, brutais
animais vivos, e à mesa de súbito o ar deslocado nas palavras, como se
por cima do ombro respirasse a memória
assimétrica do mundo, e um idioma sem gramática,
uma rápida música descentrada,
fundassem tudo, e depois corressem
o bafo e o fogo.

Herberto Helder. Ofício cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p.515.

sábado, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Emily Dickinson

Um Vão na Pedra Tumular
Faz do feroz Lugar
Um Lar —


A Dimple in the Tomb
Makes that ferocious Room
A Home —

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008, p.106-107.

domingo, 9 de junho de 2013

a arte num conto de Cortázar

“Simulacros”, conto de Histórias de cronópios e de famas (Julio Cortázar. Trad. Gloria Rodríguez. 12.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.21-24), coloca para o leitor o desafio de pensar o papel e o lugar da obra de arte. A estranha família dedica-se a construir um patíbulo no jardim de sua casa, sem precisar o fim ou as motivações de fazê-lo:

“Somos uma família estranha. Neste país onde as coisas se fazem por obrigação ou fanfarronada, gostamos de ocupações livres, das tarefas sem importância, dos simulacros que de nada adiantam. Temos um defeito: a falta de originalidade. Quase tudo o que resolvemos fazer foi inspirado — digamos francamente, copiado — de modelos célebres. Se contribuímos com alguma novidade é sempre inevitável: os anacronismos ou as surpresas, os escândalos. Meu tio mais velho diz que nós somos como as cópias de papel carbono, idênticas ao original, a não ser que de outra cor, outro papel, outra finalidade. [...] Fazemos coisas, mas contar é difícil porque falta o mais importante, a ansiedade e a expectativa de estar fazendo coisas, as surpresas tão mais importantes que os resultados, os fracassos em que toda família cai no chão feito um castelo de cartas e durante dias e dias não se escuta mais do que lamentações e gargalhadas. Contar o que fazemos é apenas uma forma de preencher os vazios inevitáveis, porque às vezes estamos pobres ou presos ou doentes, às vezes morre alguém ou (custa dizê-lo) alguém trai, renuncia, ou entra para a Direção do Imposto de Renda. Mas disto não se deve deduzir que vamos mal ou que somos melancólicos. Moramos no bairro de Pacífico e fazemos as coisas toda vez que podemos. Somos muitos a ter ideias e vontade de levá-las à prática. Por exemplo o patíbulo, até hoje ninguém chegou a acordo sobre a origem da ideia [...].” (p.21)

O estranho patíbulo vai se fazendo, erguendo, ganhando forma, assim como ganha forma e proporção o escândalo ao redor dele, da família que o constrói, do jardim onde está sendo construído: “A essa altura dos acontecimentos as pessoas da rua não podiam deixar de perceber o que estávamos fazendo, e um coro de protestos e ameaças nos estimulou agradavelmente a encerrar a jornada com a montagem da roda. [...] A polícia chegou no momento em que a família, reunida na plataforma, comentava favoravelmente o bom aspecto do patíbulo.”

A terceira irmã — a mesma que se comparava ao rouxinol mecânico de Andersen e cujo romantismo dava náuseas no narrador — era a única afastada do grupo no momento da chegada da polícia, e a ela “coube dialogar pessoalmente com o subcomissário; não foi difícil convencê-lo — prossegue o narrador — de que estávamos trabalhando dentro de nossa propriedade, numa obra a que só o uso poderia conferir um caráter inconstitucional, e que os comentários da vizinhança eram produto do ódio e fruto da inveja.” (p.24) Deslocado de seu uso e contexto habitual, nada impede que uma obra seja tomada artisticamente, exceto a cegueira do utilitarismo. Que esta obra seja um patíbulo, ou um simulacro deste, só faz pensar nos mecanismos de morte e vida que animam a produção em série e em larga escala do universo capitalista, avesso ao caráter artesanal e genuinamente coletivo de qualquer coisa, a não ser que essa coisa possa ser institucionalmente chamada de “arte”, e seja colocada num lugar socialmente previsto para alojá-la, a que as pessoas se dirijam para encontrar e apreciar o que chamam de arte, porque assim se convencionou fazê-lo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"o homem não é a medida de todas as coisas" (o pensamento de Spinoza)

“Nossos valores, nossas noções testemunham, por assim dizer, sobre nós, não sobre a natureza das coisas; expressam as maneiras como somos afetados pelas coisas e como reagimos a elas, mas não podem explicar o real ou servir à compreensão da natureza, a não ser por obra da superstição ou do preconceito ou até de um racionalismo desembestado que desejasse meter a natureza no cubículo da razão humana.”

Homero Santiago. Spinoza: superstição e ordem moral do mundo. In: MARTINS, André (Org.). O mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p.211.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Dora Ferreira da Silva

A VIDA

Árvore que consome o tronco
nos galhos
nas dissipadas folhas
floração. Frutos.
Livre de seu penoso
e jubiloso trânsito por este mundo

erguei voo — pássaro — cujo nome
só a boca dos arcanjos pode pronunciar
erguei voo
leve de todo lastro
livre de todo apego:
notas musicais libertas do instrumento
pousada em paz
após laboriosa partitura
que também jaz
completa.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.271.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

reflexão a caminho do trabalho

— Deus?...
— No céu, apenas nuvens... (o efêmero, o transitório, o informe, a presença ausente).