Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fernando Pessoa: um pouco de desassossego para fechar o dia

102. (trecho)

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe é ainda pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade de nossa própria vida.
Isto não vem a propósito de nada.
  
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.130.

neologismo

desenlance: desfazer o lance. Etimologia: desenlace ("desfazimento de nó ou laçada; afastamento ou libertação do que envolve ou abraça) + lance ("o que acontece, aconteceu ou pode acontecer; episódio, caso, fato, acontecimento"). Significados associados a desenlace: "acabamento, arremate, concluimento, conclusão, desenlaçamento, desenredo, desfecho, despedida, encerramento, encerro, epílogo, êxito, fecho, fim, final, finalização, finda, liquidação, perfazimento, remate, resultado, solução, sucesso, terminação, término, términus, termo (ê), ultimação." Guardo de memória uma fala do Raduan Nassar, numa entrevista lida faz tempo, datada de 1992, de que havia muita gente escrevendo bobagem por aí, cuja contrapartida seriam "orelhas prolixas dispostas a ouvir as maiores lorotas". Naturalmente me incluo entre os que estão a escrever bobagens, sem querer sugerir, naturalmente, a contraparte indicada na entrevista. Fonte dos significados assinalados entre parênteses: Dicionário Houaiss da língua portuguesa.

"Positively 4th Street" (Bob Dylan/Bryan Ferry acoustic cover)

"It's All Over Now, Baby Blue" (cover by Bryan Ferry)

"It's All Over Now, Baby Blue" (cover by Van Morrison)

Antonio Candido e a crítica literária

“Na verdade ̶ diz Antonio Candido ̶ abrangemos coisas demais sob o rótulo de crítica. Propriamente dita, ela talvez seja, antes de tudo, apreciação de cunho pessoal, como a desenvolveu o jornalismo no século XIX. Se não quisermos dar demasiada extensão ao termo, seria conveniente, para clareza das posições, distingui-lo, se não na prática, ao menos em princípio, da estilística, da história, da teoria, da erudição e da estética literária. Em cada uma dessas, o chamado ‘coeficiente humanístico’, isto é, a quota de subjetivismo em toda investigação intelectual, pode esbater-se a favor dos rigores técnicos; no limite, poder-se-ia mesmo admitir, nelas, a redução total do arbítrio. Mas na crítica propriamente dita, este é não apenas inevitável, mas recomendável e benéfico. Para escândalo de muitos, digamos que a crítica nutrida do ponto de vista pessoal de um leitor inteligente ̶ o malfadado ‘impressionismo’ ̶ é a crítica por excelência e pode ser considerada [...] aventura do espírito entre livros. Se for eficaz, estará assegurada a ligação entre a obra e o leitor, a literatura e a vida cotidiana  sem prejuízo do trabalho de investigação erudita, análise estrutural, filiações genéticas, interpretação simbólica, atualmente preferidas pelo investigador de literatura, prestes a envergar de novo a toga do retórico. Inversamente, se ela não existir, perder-se-á este ligamento vivo, e os críticos serão especialistas, no sentido que a palavra assumiu na ciência e na técnica. Ora, isto poderia ser riqueza de um lado, mas, de outro, empobrecimento essencial, pois as águas ondulantes da literatura revelam muitos dos seus arcanos aos barcos ligeiros, mais do que à perspectiva solene dos couraçados.”

CANDIDO, Antonio. Um impressionismo válido. In:___. Textos de intervenção. Seleção, apresentação e notas Vinicius Dantas. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002, p.46, destaques meus. Texto publicado originalmente em 1958.



VEJA — E a crítica literária em jornais e revistas?
CANDIDO — No Brasil, até trinta anos atrás, a crítica se fazia em artigos de cinco a dez páginas nos rodapés dos jornais, semanalmente. Escritos por pessoas intelectualmente sérias, produziam uma visão empenhada, que ao mesmo tempo informava e formava o leitor. Isso acabou. O último crítico desse tipo foi Wilson Martins [...].

VEJA — O aparecimento da crítica universitária contribuiu para isso?
CANDIDO — Sim. E o rodapé revelou-se insuficiente face às suas exigências. Se, de um lado, ela se fortaleceu, através da publicação de livros e revistas especializadas em crítica literária, de outro se enfraqueceu, com o êxodo dos universitários. O vazio nos jornais e revistas passou, então, a ser preenchido através do colunismo literário ̶― a pessoa recebe o material enviado pelos próprios editores, retira uma ou outra frase e faz sua coluna. Não há dúvida de que isso é muito útil para informar o público, e não vejo mal nenhum nisso. O caso é que se sente falta de uma nova fórmula, curta mas com tônus, músculos críticos mais acentuados.

CANDIDO, Antonio. Nos limites do possível. Veja, São Paulo, n. 371, p. 3-6, 15 out. 1975. Entrevista concedida a João Marcos Coelho.

Manuel Bandeira: um poema musicado

Baladilha arcaica

Na velha torre quadrangular
Vivia a Virgem dos Devaneios...
Tão alvos braços... Tão lindos seios...
Tão alvos seios por afagar...

A sua vista não ia além
Dos quatro muros que a enclausuravam,
E ninguém via ― ninguém, ninguém ―
Os meigos olhos que suspiravam.

Entanto fora, se algum zagal,
Por noites brancas de lua cheia,
Ali passava, vindo do val,
Em si dizia: ― Que torre feia!

Um dia a Virgem desconhecida
Da velha torre quadrangular
Morreu inane, desfalecida,
Desfalecida de suspirar...

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.96.

Uma boa surpresa: encontrei uma versão musicada do poema, pela cantora Ana Cristina ― segue o link da Rádio UOL (aqui). Site oficial da cantora (aqui).

Raimundo Carvalho

Procissão dos homens

Nossa Senhora da Penha,
sou um homem casado,
pai de três filhos,
todos bem criados.
O mais velho é juiz,
o do meio, delegado.
O caçula é o padre
que nos perdoa
o crime organizado.

Nossa Senhora da Penha,
que tortura eu sofria
vendo meus filhos crescerem
em porte, beleza e graça;
a casa cheia de amigos
bebendo de nossa taça!

Mas um dia, uma onda
altíssima, implacável,
levou meu filho mais velho.
O do meio foi queima de arquivo,
o padre foi visto boiando
de bruços num manguezal.

Nossa Senhora da Penha,
Nossa Senhora da Terceira Ponte,
Nossa Senhora da Terceira Margem,
minha aposentadoria não dá pra nada.

Nossa Senhora da Penha,
meus filhos estão sorrindo,
braços abertos para mim,
lá embaixo.

In: Instantâneo: poesia e prosa: fermento literário. Vitória: Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, 2005, p.220. [Trata-se de uma coletânea de autores capixabas]

"Meu Pranto Rolou" (Raul Sampaio, Ivo Santos e Benil Santos)

Luis Fernando Verissimo

Tirinha utilizada em questão de vestibular da UFMG/2006. Foi postada em fevereiro do corrente, mas a sua utilização para fins de um exercício sobre pronomes e o humor gerado pela situação me fez trazer a postagem para agora. Alguns alunos juraram de pés juntos que na verdade são "minhocas" que estão falando, e não "cobras", o que acionou algumas minhocas na minha cabeça, e me fez pensar algo em torno de nossa insignificância, "minhocas metafísicas diante do nada", algo sugerido pelo primeiro quadrinho. Mas é claro que só nas fábulas animais falam. 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sérgio Sampaio


Sérgio Sampaio é uma figura meio mítica em Cachoeiro de Itapemirim ― uma espécie de anti-Roberto Carlos. Sei pouco dele, quase nada, mas ouvi relatos curiosos, de moradores de outra geração, dando conta do bulício que se criava na cidade quando ele resolvia aparecer, com seu jeitão hippie, visual colorido, bolsa a tiracolo. Por curioso que pareça, o melhor de Sérgio Sampaio fui descobrir quando já morava em Vitória e estudava na UFES. Certa sexta-feira, os professores da Letras resolveram promover um depatepapo (assim se chamava o evento) sobre Sérgio ― e era uma sexta-feira de Vital (o carnaval fora de época de Vitória). Pois o auditório simplesmente lotou, os professores fizeram falas interessantes, algumas memoráveis, tocou-se música, foi passado o vídeo Cachoeiro em Três Tons, sobre os Sampaios ilustres  link do youtube aquiFicou-me em particular a fala do prof. Jorge Luiz Nascimento, relatando dois encontros com o cantor e compositor, um deles pouco antes de sua morte precoce. Aqui algumas informações sobre Sérgio Sampaio, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (link aqui). Dia desses, numa roda, alguém saiu-se com uma piada assaz curiosa, acerca das três utilidades do estado do Espírito Santo: ser a terra do Roberto Carlos; separar o Rio da Bahia (para que a coisa não vire um carnaval só); e uma terceira tão nonsense quanto as outras, mas que em absoluto consigo me recordar no momento. Aí então lembrei de uma quarta, ser a terra do Rubem Braga, com o que o grupo imediatamente assentiu, e já agora se tem aqui uma quinta, terra de Sérgio e de Raul Sampaio. Mas o que eu queria mesmo era lembrar da terceira... E, nesta primavera, se der, "botar meu bloco na rua", nem que isso signifique terminar uma tese, sobre outro Sérgio, que também andou rondando Cachoeiro, embora não fosse de lá ― uma sexta função para minha ilustre e pacata terrinha, estado de espírito (santo) chamada?

"A Carta" (Erasmo Carlos & Renato Russo)

A música é de Raul Sampaio (ES, Cachoeiro) e Benil Santos (RJ, Cabo Frio)
as cenas são do filme "A Casa do Lago"; ficou bonita no vozeirão dos dois.
Informações sobre Sérgio Sampaio podem ser encontradas no
Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (link aqui).

Chico Buarque - "A Banda"

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Antonio Carlos Secchin

“Contrariando o axioma do velho são Tomé, cabe à arte ver para descrer, isto é, recusar os esquemas confortavelmente explicativos da realidade e injetar o vírus da desconfiança em meio a toda unanimidade eufórica.”

SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p.81.

Jorge de Lima: "entre a raiz e a flor, o tempo e o espaço"

Apresentei a análise do poema abaixo como um exercício informal ao prof. Raimundo Carvalho, quando cursei sua disciplina sobre poesia moderna ― mais propriamente poesia modernista ― no Mestrado em Estudos Literários da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), em 2002. Dos vários poemas do cânone modernista brasileiro que lemos e discutimos, este soneto do Jorge de Lima foi o que mais me fascinou. E sequer sei se a escansão, que me levou a versos decassílabos, está correta ― o fato é que o professor, um exímio conhecedor de poesia, resolveu não mexer com ela, ou porque isso não fosse importante para ele, ou porque ele julgasse que no fundo o aluno precisa dar suas cabeçadas para aprender. Acho que se trata da segunda opção. Seguem o poema e a análise:

Entre a raiz e a flor: o tempo e o espaço,
e qualquer coisa além: a cor dos frutos,
a seiva estuante, as folhas imprecisas
e o ramo verde como um ser colaço.

Com o sol a pino há um súbito cansaço,
e o caule tomba sobre o solo de aço;
sobem formigas pelas hastes lisas,
descem insetos para o solo enxuto.

Então é necessário que as borrascas
venham cedo livrá-la da cobiça
que sobe e desce pelas suas cascas;

que entre raiz e flor há um breve traço:
o silêncio do lenho, ― quieta liça
entre a raiz e a flor, o tempo e o espaço.

LIMA, Jorge de. Poesia completa. Org. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p.474. [Para quem se chateia com análises, basta não seguir adiante na leitura.]

Formalmente, trata-se de um soneto com um padrão de rimas bastante interessante, pois por de trás de uma aparente irregularidade (abca aacb ded aea) observa-se, nas finalizações dos versos, a presença de um fonema que se sobrepõe aos demais, a terminação “aço” (rima “a”), presente em seis dos versos, contra duas vezes das demais (rimas “b”, “c”, “d” e “e”), de forma que ocorrem:

a.    rimas entre versos de uma mesma estrofe, observável em todas elas;
b.    rimas entre versos de estrofes contíguas: entre a 1ª e 2ª estrofes (três rimas, uma delas presente quatro vezes) e entre a 3ª e  4ª estrofes (uma rima);
c.     rimas entre versos de estrofes não-contíguas: entre  a 1ª e 4ª estrofes (uma rima, presente quatro vezes) e entre a 2ª e 4ª estrofes (uma rima, presente quatro vezes).

Cumpre ainda o observar a semelhança do padrão de rimas dos dois tercetos finais (ded  e aea), além da rima entre estas duas estrofes, produzindo um conjunto de alta unidade poética. Assim, o padrão de rimas “a b c a/ a a c b/ d e d/ a e a”  constitui uma rede: as rimas “a”, “b” e “c” unem os quartetos; a semelhança de padrão de rimas e a rima “e” unem os tercetos; a rima “a” une os dois quartetos entre si e ao terceto final.
Ou seja, o poema apresenta uma organicidade verificável já a partir de seu padrão de rimas, o qual configura o texto poético como um “tecido”, uma “rede” de remissões, de ecos de sons. Basta fazer a representação gráfica do padrão de rimas para visualizar essa rede de remissões, importante para sinalizar a idéia de unidade, totalidade que subjaz aos aspectos semânticos do texto. No que concerne a esses aspectos, o poema trabalha com dois planos:

a.    um plano “concreto”, material, presentificado na imagem da árvore, significante que não aparece explicitamente no texto em nenhum momento, porém sugerido pela referência a seus componentes (“raiz”, “flor”, “frutos”, “seiva”, “folhas”, “ramo verde”, “caule”, “hastes lisas”, “cascas”, “lenho”) e indicado pelo pronome oblíquo presente no 10º verso  “venham cedo livrá-la  da cobiça”  anaforicamente retomando um elemento já citado no texto, que só pode ser o significante “árvore” (livrá-la: livrar a quem? A construção sintática do texto não leva a outra leitura: livrar a árvore);
b.    um plano “abstrato”, metafísico, presentificado nas categorias de “tempo” e “espaço”.

O primeiro verso apresenta esses dois planos, já imbricados (“Entre a raiz e a flor: o tempo e o espaço”), sendo essa união, essa necessária conjunção, retomada no último verso, com ligeira variação sintática (“entre a raiz e a flor, o tempo e o espaço”), reiterando a idéia de unidade indissolúvel. As categorias de tempo e espaço se materializam na concretude de uma árvore: “acontecem” na materialidade da árvore, que (portanto) existe no tempo, obedecendo a uma cronologia, e no espaço. São, em certo sentido, essa árvore.
Entretanto, a materialidade da árvore é “qualquer coisa além” dessas categorias. É a matéria em toda a sua exuberância, palpável pelos olhos e demais sentidos: “e qualquer coisa além: a cor dos frutos/ a seiva estuante, as folhas imprecisas/ e o ramo verde como um ser colaço.” A exuberância da árvore é tal que o “ramo verde” parece querer se desprender, tornar-se ser autônomo (“colaço” = irmão de leite).
Ao mesmo tempo em que aponta para a exuberância da matéria, o poema aponta para a sua precariedade, para a finitude divisada na linha do horizonte, pois o existir é uma contingência, uma forma de manifestação do ser: a matéria existe (“acontece”) enquanto manifestação de uma potencialidade qualquer, e o faz no tempo e no espaço.
Tempo e espaço remetem então à outra face do existir, manifestação transitória de uma potencialidade que é constitutiva da matéria. A existência se configura assim como luta, como combate silencioso (“quieta liça”) entre as forças que impelem à manifestação da matéria, as forças da vida, e forças que levam à sua destruição: “Com o sol a pino há um súbito cansaço,/ e o caule tomba sobre o solo de aço;/ sobem formigas pelas hastes lisas,/ descem insetos para o solo enxuto.// Então é necessário que as borrascas/ venham cedo livrá-la da cobiça/ que sobe e desce pelas suas cascas;// que entre a raiz e a flor há um breve traço: o silêncio do lenho, ― quieta liça”.
O combate, a luta, se dá no próprio cerne da matéria, num movimento contínuo, indicado pela repetição do primeiro verso na última estrofe, fechando o poema. Essa repetição, por outro lado, e em adição ao padrão de rimas anteriormente assinalado, confere ao poema um sentido de organicidade que é a própria condição da existência de qualquer ser: existir é uma potencialidade que se concretiza, no tempo e no espaço. Existir é inseparável da materialidade que o conforma, das categorias de tempo e espaço que o enformam.

João Cabral de Melo Neto

PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO

I

Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.


II

Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.

Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.

Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;

como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.


III

Neste papel
pode teu sal
virar cinza;

pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.

(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)


IV

O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; romper
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)


V

Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.


VI

Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.


VII

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.


VIII

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
cai, fruto!

Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.60-64.

domingo, 19 de setembro de 2010

Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda: episódios de uma amizade

“A esta altura, decênio de 50, a nossa amizade já estava consolidada e a nossa convivência era constante, como foi até sua morte. Mencionarei para terminar um fato pitoresco para mostrar como nos divertíamos, porque inventávamos diários apócrifos de figurões, elaborávamos biografias imaginárias, fazíamos longos exercícios com a Gnomonia de Jaime Ovalle, ― de acordo com aquele enorme senso de humor que era uma de suas constantes. O caso foi que estando ele [Sérgio Buarque de Holanda] ensinando na Itália, onde ficou de 1952 a 1954, eu resolvi lhe escrever uma carta como se fosse de trezentos anos antes, mas dando notícias de coisas presentes. A linguagem era aquela tosca e irregular das Atas da Câmara, Autos de Visitação, etc. Havia problemas difíceis de resolver, como, por exemplo, dar uma notícia sobre Rodrigo Melo Franco de Andrade, nosso grande amigo, que era mineiro, mas Minas ainda não existia... Então inventei a fórmula: ‘natural de Cappitania das Minas que estam pera se achar’. Anoto isto para contar a grande inventividade dele na resposta. Esta veio em mãos, trazida por um amigo comum que viajava de avião. De que maneira relatar este fato no século XVII? Sérgio escreveu: ‘He portador desta Dom Paulo Mendes Dalmeyda que se passa a esa Comquista na máquina Passarola, que ha de inuentar a seo tempo o Padre Berto Lameu de Guzman da villa de Santos nessa marinha’.
Daí se desenvolveu uma correspondência que, devo dizer, era bastante picante. Mas a certa altura eu não agüentei o tranco, porque, estando em Nova York, creio que em 1966, ele me respondeu em inglês do século XVII! De outra feita, quando estava no Chile, mandou em versos uma admirável Carta Chilena, que Manuel Bandeira publicou, porque ele lhe mandou cópia (é a única divulgada). E mais tarde, chegou a mandar uma em latim, desnorteando completamente a minha capacidade que parava no Português de Piratininga.”

CANDIDO, Antonio. Amizade com Sérgio. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, Ano 3, n. 6, p.133, 1987.

P.S. A referida Carta Chilena existe de fato, e está na fila da postagem. Quando à “Gnomonia de Jaime Ovalle”, uma das brincadeiras mais irreverentes daquela geração, segue uma apresentação sucinta e cheia de humor, pelo blog Artilharia Cultural (link aqui).

"Escrever história é um modo de livrar-se (ou emancipar-se) do passado" - Goethe

Elaborar experiências é uma forma de deixá-las para trás... Goethe, conforme informa o estudo de Thiago Lima Nicodemo sobre Visão do Paraíso: "Apesar de efetivamente exemplificativa de um dos fundamentos do historismo, a relação de Goethe com a compreensão do passado não se resume apenas à crítica à História Universal. Partindo do princípio de que a história não podia mais ser um instrumento de investigação de uma razão universal, Goethe, de modo muito fragmentário ao longo de sua obra, procurou formular uma reflexão sobre a história. Uma de suas proposições mais célebres sobre esse tema foi estabelecida em um aforismo composto provavelmente em 1821, no final de sua vida: 'Escrever história é um modo de livrar-se (ou emancipar-se) do passado'.* É muito sugestivo relacionar esse aforismo com considerações presentes em algumas de suas principais obras. Mais especificamente, a ação de livrar-se do passado, ou seja, de romper violentamente com dado passado, construindo uma realidade totalmente nova em seu lugar, nos remete a uma de suas obras essenciais, o Fausto. [...] Seja em um pequeno aforismo, seja em toda uma obra como Fausto, é preciso buscar dialeticamente as origens da negação. Na sua forma original, o aforismo de Goethe conta com uma peculiaridade. A ação de livrar-se do passado é composta a partir de uma expressão idiomática típica da língua alemã: 'vom Halse zu schaffen', ou seja, 'retirar do pescoço' (o passado). A impossibilidade de se traduzir uma expressão como essa da língua alemã obriga [...] a traduzir apenas o sentido geral da frase e, infelizmente, perde-se uma nuança particularmente interessante. 'Retirar do pescoço', mesmo que soe estranho em português, é uma referência corpórea. Na tradução, o 'livrar-se' dá ênfase unicamente à ação, enquanto no 'livrar-se' da versão original sabe-se que o passado está localizado em uma região sensível, no corpo daquele que quer se livrar. Fica, portanto, um pouco mais claro a razão de livrar-se do passado: algo que está no pescoço e que se deseja retirar refere-se a uma sensação de desconforto, de incômodo. Essa agonia imobilizadora, de ser abocanhado por um cão de caça como uma presa, ganhou, com a sedimentação de um mundo urbano e industrial, uma acepção bastante metafórica. Passou a denominar uma das sensações mais características da vida moderna: o worrying, isto é, uma preocupação sem, necessariamente, motivo aparente, que provoca um desconforto contínuo. A ação de livrar-se do passado para Goethe, portanto, alude a um passado presente, contido dentro do próprio ser, que provoca uma sensação de desconforto ou agonia. Escrever história não é livrar-se de qualquer passado, é livrar-se da parcela agonizante de seu próprio passado dentro de si. Fausto, aliás, sucumbe justamente por isso: quando sua empreitada modernizadora termina e não há mais nada a ser feito, ele se dá conta de que o passado que ele fez questão de destruir de modo inescrupuloso é justamente o seu." 


* Em nota, Thiago Nicodemo informa, acerca do aforismo de Goethe: "No original alemão: 'Geschichte schreiben ist eine Art, sich das Vergangene vom Halse zu scheffen'. [...] Na edição brasileira, o aforismo foi traduzido do seguinte modo: 'Escrever história é um modo de desembaraçar-se do passado'. J. W. Goethe, Máximas e Reflexões, 2003, p.30."

NICODEMO, Thiago Lima. Urdidura do vividoVisão do Paraíso e a obra de Sérgio Buarque de Holanda nos anos 50. São Paulo: EDUSP, 2008, p.24-26.