O que me fascina nos fractais, além da arte, é a possibilidade que a ciência tem de ressignificar o Universo e, por conseguinte, o que o homem é e sabe de si. Quem duvidará de um sonho depois de saber que a palavra fractal remonta ao adjetivo latino fractus, que significa "irregular", "quebrado". O dicionário diz melhor: rad. fract- + -al; ver frang-. Neste encontramos: do verbo latino frango, 'quebrar, despedaçar, fraturar, partir; rasgar, dilacerar, esfarrapar; fender, abrir, rachar, romper, esmigalhar'... Segundo José Augusto Carvalho, o verbo latino frango é raiz de vários alomorfes, como em fragoso, franzir, fração, frágil, fragmento, fratura, franzino, infrator, refratário, infringir, náufrago (de nau-fragus, isto é, 'que quebra o navio') etc. (aqui). Cuidado: Nau Frágil.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
domingo, 5 de dezembro de 2010
sábado, 4 de dezembro de 2010
"Na noite escura da alma" - acerca de James Joyce
Há um texto sobre James Joyce, escrito por Luís Gúsman, focalizando Finnegans Wake, de que transcrevo alguns trechos, nodais em relação à obra do escritor irlandês: "Na noite mais profunda, um homem sonha com um livro que nunca vai a escrever porque como Dante, sabe que se existe inferno, existe um só. Sonha com Dublin, a sétima cidade da cristandade, sonha com a noite desta cidade. (...) Na noite escura da alma alguém sonha com o redespertar (...) Na noite mais escura confia em que a linguagem o devolva a sua morada para explicar com a luz do dia por que a história é um pesadelo do qual não podemos despertar. Na noite mais escura este homem descobre que todas as línguas são uma só, busca a língua do redespertar. (...) No redespertar este homem confia em que a linguagem o leve de volta à morada, e une a linguagem a uma geografia. Na noite mais profunda o homem joga com as palavras e 'nigth/mare' se converteu em 'nigth/maze'. O pesadelo se converteu em labirinto. Mas no tratamento da noite o surpreende uma extranha dor no peito. (...) Esta pedra leve da cristandade se converteu em um peso. (...) Na noite mais escura redecora a carta de seu irmão Stanislaus: 'Fizeste o dia mais longo da literatura e agora estás conjurando a noite mais profunda.' Ele sabe que o mundo da noite não pode ser representado pela linguagem do dia; é nessa certeza que se baseia sua contra-argumentação. Todos crêem, até ele mesmo, que se trata de representar a linguagem do sonho. (...) A língua se retorce, explode, mas é necessário voltar à linguagem. Escreve em outra língua: 'Je suis au bout de l'anglais'. Por isso é que na noite mais profunda afirma a frase mais abismal: ‘I have put the language to sleep'. Colocar para dormir a língua, ninguém foi tão longe. (...) 'I'm at the end of English', estou no limite do inglês. Então suspende a língua, coloca-a para dormir. (...) Todos estão intrigados para ver até onde está disposto a chegar com a linguagem. Nesta travessia, vai perdendo amigos. Ele o disse: 'Coloquei para dormir a língua inglesa'. E fez para ver de que maneira sonha uma língua. Mas o espinho na carne não deixa de perturbá-lo, se trata de redespertar, trata-se de encontrar em vão a língua do pesadelo. À noite mais profunda segue o despertar. Toma café da manhã Bloomsday em um tapete que representa o Liffey correndo através de Dublin para desembocar no mar da Irlanda. A figura no tapete também leva seu próprio escudo de armas. É que pela manhã é preciso voltar à casa, transformar o Finnegans em um livro deste mundo." (Jornal do Brasil, Caderno de Idéias, 06/01/1991, p.9.)
Fonte da imagem: Fractarte.
divagações fortuitas, com selo europeu
“Então decidi que devo fechar os olhos na hora de por os selos nos envelopes feios, que é pra eu não magoar eu mesmo, sei lá. Mas enfim, os meus selos preferidos estão concorrendo a melhor não sei o que esse ano, acho que o mais bonito. Fiquei tão feliz! Já mandei meu voto! Agora eu preciso arrumar mais cupons pra votar mais vezes (preciso arrumar uma forma de sabotar essa eleição) porque, como disse, as pessoas são insensíveis, sem coração, e vão votar nos selos com as bandas horrorosas do anos 70 (o Bob não se inclui, são só os terríveis finlandeses mesmo), vão votar nos selos com fotos de verduras e frutas, nos das fadas e NÃO vão votar nos meus selinhos preto e branco com fotos de 70 anos atrás (...) Lindos! Bom... sou muito materialista mesmo, né? Vou te escrever uma carta daí eu posso usar o selo bonitinho, mas não vou usar nesse envelope grande feio e amarelo (...) isso deveria ser crime. Acabei de recortar a coleção da página da revista, tô te mandando os selos pra que você veja! Lindos! Então, anos atrás eles lançaram uma coleção de selos só com mulheres famosas e já falecidas da Alemanha. Tinha Marlene Dietrich e tals (...) os selos eram lindos! Teve um que eu até mandei colocar numa camiseta a estampa, com a foto da atriz Hidelgard Knef! (anexo foto). Porque pra mim, o selo se tornou mais obra de arte. Eu acho que ainda devo ter algum por aqui nas minhas caixas... um dia te mostro.”
Love Sick - Bob Dylan ("This kind of love I’m so sick of it")
Love Sick: um dos bons momentos do CD Time Out Of Mind. No vídeo, performance vigorosa e apaixonada, atravessada pela melancolia. I’m walking through streets that are dead / Walking, walking with you in my head / My feet are so tired, my brain is so wired / And the clouds are weeping. Letra no site oficial de Bob Dylan.
Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu
II. 10
A máquina ameaça a toda conquista
ao ousar ser no espírito e não na obediência.
Tanta inveja tem da mão do artista,
que corta mais duramente a obra na essência.
Nunca se atrasa, para que, uma vez, lhe escapemos
e, oleosa, na fábrica em silêncio se pertença.
Ela é a vida ― pensa saber mais do que sabemos;
ordena, cria e destrói, decidida e intensa.
Mas para nós o existir ainda é encantado.
Fontes, ainda, em cem lugares. Jogo de puras
forças e aquele que as toca se ajoelha admirado.
Suaves surgem palavras nunca ditas...
E a música, sempre nova, em vibrante arquitetura,
constrói sua casa, nas alturas infinitas.
RILKE, Rainer Maria. Os sonetos a Orfeu. Elegias de Duíno. Trad. Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.84-85.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
All My Love - Led Zeppelin
[essa música me veio hoje como uma lembrança vaga, há tanto tempo não a ouvia]
Carreiras (Domingos Oliveira, Brasil, 2005)
O filme Carreiras é razoável no que se propõe: uma noite na vida de uma jornalista que alopra ao se ver na iminência de perder seu cargo de prestígio dentro da emissora em que trabalha há tempo (há bons comentários sobre o filme, como aqui). Interessa sobretudo apontar a duplicidade de sentido da palavra "carreiras": a carreira profissional e as carreiras de cocaína, consumidas de forma alucinada pela protagonista e seus pares. Isso não só mostra a intimidade entre o poder e o consumo de drogas quanto a fragilidade (vulnerabilidade) de quem precisa agradar sucessivas hierarquias para se conservar nos postos que conquistou. Um retrato cruel dos bastidores do jornalismo de uma grande emissora de televisão, que não é preciso muito esforço para deduzir qual seja. Por que me ocorreu este filme justo agora? Por dois motivos: o primeiro deles fala por si (a farsa da mídia, especialmente a televisão, em torno do suposto combate ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro); o segundo por conta do trecho da Clarice: é que, a uma dada altura, dá a loucura da franqueza na protagonista, e isso a leva ao "inferno", do qual ela não sai ilesa.
Se desse a loucura da franqueza...
"O que é que uma pessoa diz a outra? Fora 'como vai'? Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente, e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criadora inconsciência do mundo."
Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.245.
Jokerman - Bob Dylan (completo)
"Freedom just around the corner for you
But with the truth so far off, what good will it do?"
jornal hoje: o ibope do bope
Constrangedor. 88% dos moradores do Rio aprovam as medidas tomadas contra o tráfico, diz a simpática Sandra Annenberg na edição de hoje do jornal hoje, segundo "pesquisa " do ibope: ou será segundo (secundando, por medo) o bope? Entra em cena o outro apresentador, dizendo que a pesquisa saiu depois do 5º dia de ocupação do Complexo do Alemão, que começou assim: entra então em cena um vídeo amador feito por um dos policiais do bope (que está com o ibope alto) mostrando a tropa de elite comemorando a proximidade da invasão (para quem quiser conferir a reportagem, basta clicar aqui). Logicamente as piores partes do vídeo foram expurgadas (para quem quiser sentir náuseas, basta clicar aqui). Voltando ao noticiário, rapidamente muda-se de assunto, e uma das reportagens que vem a seguir é uma matéria especulando acerca de um comunicado da NASA, previsto para hoje, anunciando uma "importante descoberta científica" (a suposta vida fora da Terra, como se alguém ainda duvidasse disso). Já que a vida aqui está difícil, nada como adotar um ar blasé e falar da ciência como se fosse uma amenidade. Em tom ameno e sorridente, o repórter se dirige à correspondente em Nova York, que fala nos mesmos termos, no mesmo intento de tentar fazer graça: "Olha, os últimos informes são de que os homenzinhos ainda não foram encontrados" (aqui). Coincidência ou não, a correspondente emprega a palavra avalanche (avalanche de boatos), a mesma que o comandante do bope empregou para caracterizar a operação nas comunidades cariocas. Só não dá para entender por que estão indo tão longe buscar os homenzinhos... Patético. Enquanto a vida por aqui se dilacera, a imaginação sonha em encontrar vida em outras esferas. A surpresa será se os homenzinhos formos nós.
crítica literária no Brasil
Qual é, a seu ver, a maior dificuldade da crítica no Brasil?
A falta de livros a criticar. Entenda-se: quando digo livros refiro-me aos que possuam um elevado teor espiritual.
Sérgio Buarque de Holanda (entrevista concedida ao jornal Tribuna da Imprensa, em 30/12/1951). Fonte: Encontros: Sérgio Buarque de Holanda. Org. Renato Martins. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009, p.51.
Mário Faustino
ODE
“Esta manhã o ar estava cheio de anjos”
e sua súbita beleza era quase invisível
A manhã era os mesmos e transparentes anjos
e seus frágeis caminhos eram quase visíveis
Agora é noite e um anjo desgarrado
debate-se impotente no pegajoso mar
Numa praia distante suas asas são algas
e misteriosamente a noite está deserta
Ouço o teu canto pobre anjo decaído
mas estou preso e o abutre me contempla
Por que amaldiçoas quem imortal te fez?
a manhã não tem culpa se não vem nunca mais
cheia de anjos indecisos caminhando
sem pés sobre os caminhos do ar
Por que o desespero alma esquecida?
É teu consolo o teres sido um anjo
FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.205.
Nota: é sempre bom não perder de vista as observações que Sérgio Alcides fez acerca desta edição da poesia de Mário Faustino (aqui).
Vitória, Espírito Santo, março de 2002
Eu havia acabado de passar no mestrado em Estudos Literários na Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo). No dia em que recebi a notícia, comprei na banca em frente à universidade o livro Infância, de Graciliano Ramos, e registrei: Vitória, 27-03-02, após minha assinatura. Muita coisa estava ficando para trás. E muita coisa estava acontecendo naquele gesto simples de comprar o livro Infância e marcá-lo com a palavra Vitória, nome da capital do meu estado, Espírito Santo. Um rio subterrâneo fluindo, deixando-me finalmente na minha terceira margem, de onde se abriu em leque minha existência, com toda a dor e medo e sofrimento que tal abertura pode comportar. Mas também com uma alegria íntima de saber que eu estava conseguindo. Conseguindo o quê? Não sei. Apenas sei que estava conseguindo, como sabia de forma pouco palpável no momento, ao comprar o livro.
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