Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 3 de junho de 2013

"o homem não é a medida de todas as coisas" (o pensamento de Spinoza)

“Nossos valores, nossas noções testemunham, por assim dizer, sobre nós, não sobre a natureza das coisas; expressam as maneiras como somos afetados pelas coisas e como reagimos a elas, mas não podem explicar o real ou servir à compreensão da natureza, a não ser por obra da superstição ou do preconceito ou até de um racionalismo desembestado que desejasse meter a natureza no cubículo da razão humana.”

Homero Santiago. Spinoza: superstição e ordem moral do mundo. In: MARTINS, André (Org.). O mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p.211.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Dora Ferreira da Silva

A VIDA

Árvore que consome o tronco
nos galhos
nas dissipadas folhas
floração. Frutos.
Livre de seu penoso
e jubiloso trânsito por este mundo

erguei voo — pássaro — cujo nome
só a boca dos arcanjos pode pronunciar
erguei voo
leve de todo lastro
livre de todo apego:
notas musicais libertas do instrumento
pousada em paz
após laboriosa partitura
que também jaz
completa.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.271.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

reflexão a caminho do trabalho

— Deus?...
— No céu, apenas nuvens... (o efêmero, o transitório, o informe, a presença ausente).

quarta-feira, 22 de maio de 2013

pequenas canções

Houve um tempo, bom, em que eu amanhecia ouvindo pássaros cantando nas imediações de onde vivia. Eles não sei onde viviam, mas é como se vivessem onde eu vivia. Hoje, às vezes, um pássaro ou outro canta pela manhã, e isso é o bastante para trazer de volta todos aqueles pássaros daquelas já distantes manhãs, ou quem sabe me levar até elas.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Manuel Bandeira

TEMA E VOLTAS

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto na noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento,
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 192.

domingo, 5 de maio de 2013

farmácia e arte

Um programa casual assistido no canal 113 falava da arte moderna na Galeria Tate. Uma das instalações, Pharmacy, aparentemente sem muito sentido ou graça, teve sua proposta sumariada por seu criador, cuja fala lançou um interessante paralelo: as pessoas acreditam nos remédios vendidos em frascos na farmácia, mas tendem a não acreditar na arte. Seria interessante inverter essa relação — propôs ele: acreditar mais na arte e menos nos remédios.

Emily Dickinson (fé e ciência)

A Certeza Química
Que Nada se perde
Encoraja no Desastre
Minha instável Fé –

As Faces dos Átomos
Se eu irei fitá-las
Quanto mais os Seres Findos
Que já estão lá!


The Chemical conviction
That Nought be lost
Enable in Disaster
My fractured Trust

The Faces of the Atoms
If I shall see
How more the Finished Creatures
Departed me!

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.74-75.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

"meu tempo é quando"

Um verso pode permanecer muito tempo incógnito (para quem o leu), até que um dia certa conjunção de experiências e lembranças resgata-o do fundo insondável onde se mistura à vida tudo o que se leu, podendo estar para sempre perdido ou não. Foi o que me aconteceu hoje com este verso de Vinicius de Moraes, “Meu tempo é quando”.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

João Cabral de Melo Neto

POEMA DE DESINTOXICAÇÃO

Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.
Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.
Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.
Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.6. 

sábado, 27 de abril de 2013

cais (bem pode rimar com paz)

Emily Dickinson

Tão plausível se torna
Um Sonho acalentado
Que o real para mim já é fictício –
A ficção – é real –

Que Visão suntuosa –
Que riqueza – seria –
Tivesse minha Vida sido um Erro
Corrigido – por Ti


The Vision pondered long
So plausible becomes
That I esteem the Fiction
real
The Real
fictitious seems

How bountiful the Dream

What Plenty
it would be
Had all my Life but been Mistake
Just rectified
in Thee

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.200-201.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Álvaro de Campos, sempre

[...]
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?

Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.477.

Paulo Leminski

HIERÓGLIFO

Todas as coisas estão aí
para nos iluminar.
Discípulo pronto,
o mestre aparece
imediatamente,
sob a forma de bicho,
sob a sombra de hino,
sob o vulgo de gente
como num livro, devagar.

Mestre presente,
a gente costuma hesitar,
nem se sabe se o bicho sente
o que sente a gente
quando para de pensar.

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.339.

Richie Havens (1941-2013)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Cecília Meireles (pela passagem do 21 de abril)

Romance LI ou Das sentenças

Já vem o peso do mundo
com suas fortes sentenças.
Sobre a mentira e a verdade
desabam as mesmas penas.
Apodrecem nas masmorras,
juntas, a culpa e a inocência.
O mar grosso irá levando,
para que ao longe se esqueçam,
as razões dos infelizes,
a franja das suas queixas,
o vestígio dos seus rastros,
a sua inútil presença.

Já vem o peso da morte,
com seus rubros cadafalsos,
com suas cordas potentes,
com seus sinistros machados,
com seus postes infamantes
para os corpos em pedaços;
já vem a Jurisprudência
interpretar cada caso,
− e o Reino está muito longe,
− e há muito ouro no cascalho,
− e a Justiça é mais severa
com os homens mais desarmados.

Já vem o peso da usura,
bem calculado e medido.
Vice-reis, governadores,
chanceleres e ministros,
por serem tão bons vassalos,
não pensam mais nos amigos:
mas há muita barra de ouro,
secretamente, a caminho;
mas há pedras, mas há gado
prestando tanto serviço
que os culpados com dinheiro
sempre escapam aos castigos.

Já vem o peso da vida,
já vem o peso do tempo:
pergunta pelos culpados
que não passarão tormentos,
e pelos nomes ocultos
dos que nunca foram presos.
Diante do sangue da forca
e dos barcos do desterro,
julga os donos da Justiça,
suas balanças e preços.
E contra seus crimes lavra
a sentença do desprezo.

Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência. 9.ed. São Paulo: Global, 2012, p.147-148.

movimentando-se em terreno resvaloso

Num espaço de tempo relativamente curto aconteceram tantas coisas — coisas em demasia, excedendo o limite do narrável, do que se consegue dizer — que mesmo o fio com a palavra pareceu se perder, e o silêncio tornou-se uma necessidade.  É ingênuo supor que a experiência não nos ultrapassa. E nisso a palavra, essa estranha forma de respiração, dobra-se diante do vivido, vivido que quer render a linguagem de outra forma, para que nela possam caber pombos, experiências inusitadas, canções, imagens oníricas, poemas. “Todo abismo é navegável a barquinhos de papel” — diz o narrador do conto “Desenredo”, de Guimarães Rosa. Em tão ilustre companhia vai-se longe na aventura da linguagem, quer-se navegar mares impetuosos, oceanos de sentidos velados. O que pode um corpo? O que pode o amor à linguagem, o desejo de criar através dela? "Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer". (Graciliano Ramos, Memórias do cárcere)