"A Novela das 8" é um bom filme
ruim, como aliás muitos que se fazem por aqui.
Mas não é péssimo, horroroso ou
impossível de ser assistido (sem constatar o tempo todo a pobreza dos
recursos). A ideia é boa — simplesmente o resto é falho, fraco: elenco,
direção, roteiro... A ideia, se tivesse sido bem aproveitada, executada, mostraria
o dilema fundamental deste país, desde a Colônia: a distância entre o universo
da fantasia, na falta de termo melhor, e a realidade — ou, conforme frase lida
em ensaio de Roberto Schwarz, saber a
diferença entre compensações imaginárias e realidade, não importa o quanto este conceito em si seja
espinhoso. O que catalisa a distância entre essas duas instâncias no filme é a
boate carioca que inspirou a novela brasileira talvez mais famosa da década de
70: Dancin’ Days. Da novela à boate, as duas “heroínas” atravessam percursos
distintos que se tangenciam. Para quem participou do imaginário da novela, o
filme vale como uma pálida sessão nostalgia, somente no plano imaginário,
obviamente, porque a realidade era dura, minada pela ditadura, e não deixou saudades.
Recentemente, em sala de aula, ao comentar o caráter hiperbólico das imagens
dos poemas de Castro Alves que clamavam contra os horrores da escravidão no
Brasil, voltei-me para uma aluna e disse que nenhuma hipérbole é suficiente
para o sofrimento. Ela argumentou que, embora pudesse ser assim, as hipérboles
cumpriam seu papel no poema, não traíam o que nele se queria expressar.
Voltando ao filme, não há hipérboles ou outros recursos mais expressivos. Há
uma tentativa de realidade, a partir da costura de recortes mal enquadrados.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Direito ao ócio
O ócio deveria ser reconhecido como um direito fundamental do ser
humano, assim como o direito a uma boa noite de sono. Se etimologicamente
negócio é "negação do ócio", então ócio simplesmente poderia ser entendido como
o livre direito de não fazer nada, nada que significasse “produzir”, pelo menos com
fins explícitos ou programados. O Houaiss dá algumas definições curiosas de
ócio: “s.m. 1. cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar; 2. espaço de tempo em que se descansa; 3. falta de ocupação;
inação, ociosidade; 4. falta de disposição física; preguiça, moleza,
mandriice, ociosidade; 5. fig.
trabalho leve, agradável. etim
lat. otìus, 'lazer, repouso'.” A partir da terceira
acepção, o pejorativo se insinua. De tantas definições, o ócio fica ocupado: lazer,
ócio criativo, trabalho leve, agradável... O ócio, no sentido de um direito,
estaria na primeira acepção. Quietação. Nem mesmo a meditação. Simplesmente quietar.
terça-feira, 23 de julho de 2013
Arte antes e depois da guerra
Sem desejar incorrer em qualquer heresia ao falar de
dois filmes aclamados pela crítica, pertencentes a convenções estéticas distintas,
o fato é que a casualidade levou-me a vê-los praticamente em sequência, no
mesmo dia. O primeiro eu assisti no Canal Arte 1, ao zapear o controle ao acaso
na manhã do último domingo. Trata-se de A Fita Branca (2009), filme de Michael Haneke tão perturbador quanto
enigmático, deixando para o espectador uma série de dúvidas sombrias referentes
à maldade, à perversidade e à crueldade humanas. Independente do contexto da
Primeira Guerra Mundial que se aproxima, a ideia é que todo mal nasce no homem
e em suas estranhas formas de vida em comunidade. Ao final do filme, a notícia do
atentado em Saravejo soa menos impactante que tudo o que o espectador acabou de
presenciar, sem deixar de projetar em si as tais sombras. O segundo filme,
desta vez escolhido, foi Hiroshima, mon amour (1959), filme de Alain Resnais que tenta elaborar a angústia
existencial que se projetou sobre a geração que sobreviveu à Segunda Guerra
Mundial. Naturalmente é-me muito mais complicado falar deste filme, pela
própria opção estética e sua filiação à nouvelle
vague. Também não sou boa leitora de Marguerite Duras, roteirista do
filme. Mas percebi que havia visto, em sequência no mesmo dia, dois filmes
em que um elemento agregador meu, muito próprio, se inseriu, além de uma
ligação um tanto mais óbvia: Emmanuelle Riva, a belíssima protagonista de Hiroshima, mon amour, foi dirigida
recentemente por Michael Haneke no premiado Amour
(2012) — a que ainda não assisti. O elemento agregador é um tanto imponderável,
a guerra e suas sombras, o antes e o depois, as possibilidades da arte para
falar do que não tem conserto nem nunca terá.
domingo, 21 de julho de 2013
Mário Quintana
Romance sem
palavras
Há vidas, longas
vidas que deixam em nossa lembrança — não uma história mas um certo ar, um
clima, uma presença apenas.
Oh! aquelas velhas
tias provincianas...
Vidas de uma
harmonia tão sutil, tão simples e tão lenta que nem se nota.
Como uma valsinha
que alguém fosse tocando ao piano espaçadamente — com um dedo só...
Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva,
2012, p.115.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Mad Max
Um colega da filosofia, outro, falava da intenção de
exibir Mad Max como ilustração da tese de Hobbes sobre o estado de natureza,
creio que o terceiro filme da sequência. Resolvi rever a trilogia, e para minha surpresa
achei o terceiro filme, talvez o que mais prometesse, inclusive pela atuação conjunta de Tina
Turner, o mais fraco — o correto seria dizer irregular. Mas o fato é que o
estado de natureza está lá, progressivamente se instaurando à medida que a
violência avança sobre a vida das personagens. O primeiro filme, futurista, é convencional,
à moda do herói romântico justiceiro, e mostra a gênese da personagem, que vai aparecer
com um etos diferente na sequência da trilogia. Esta, ao adotar uma perspectiva
pós-apocalipse, torna possível observar, sobre as pessoas, o efeito do retorno
ao estado de natureza. A sombra do herói (Mel Gibson) não desaparece, mas as
relações são apenas e unicamente a guerra contínua pela sobrevivência — individual
ou em pequenos grupos — sempre baseados na dominação e na violência. A exceção é
a pequena comunidade edênica que surge no terceiro filme, sem dúvida seu ponto
fraco, fraquíssimo, porque não é um contraponto convincente ao inferno de
Batertown, governado por Tina Turner, parecendo antes os eternos meninos da
terra do nunca. No conjunto da trilogia,
o herói torna-se anti-herói, nômade, errante, solitário, e a moeda de troca
para a sobrevivência, de todos, torna-se a própria troca em si — o que cada um
tem a oferecer em troca da vida, no limite a própria vida.
qual marcador?
Tenho marcadores aparentemente inúteis, vazios, ocos
de sentido. Às vezes vem-me o ímpeto de dar uma arrumada na casa, varrer o
entulho comunicativo. Mas logo em seguida já estou pensando em outra coisa,
esqueço o furor higiênico, para voltar a ele quando vou postar alguma coisa e
tenho dificuldade de me lembrar, num lance rápido, dos tais marcadores inúteis.
Alguns certamente podem estar sobrando, englobando outros (como na enciclopédia
chinesa de Borges), mas qualquer tentativa de ordenar, classificar, trai um
esforço racional que, em si, é apenas uma das faces que reconheço em mim,
forte, sem dúvida, esforçada o suficiente para dar sentido a imagens
disparatadas dos sonhos, quem sabe prevalecendo sobre as demais. Um colega de
filosofia me chamou de racionalista. Perguntei-lhe então, de modo até inocente,
como quem pede esclarecimentos a alguém que sabe mais numa dada matéria, o que
é um racionalista. Ele devolveu-me a pergunta, invertendo de forma irônica a situação.
voz
Quem se deslocou foi a noção de centro. Qualquer lugar
pode ser um lugar de enunciação. Se vai efetivamente sê-lo é outra coisa.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
o papa a caminho
Dois filmes envolvendo a figura do papa, mas com
perspectivas diferentes, talvez pudessem aplacar — ou quem sabe nublar de vez — a
ansiedade que deve estar tomando conta das autoridades do Rio de Janeiro quanto à visita do Sumo Pontífice ao Brasil na próxima semana, mais
especificamente à cidade maravilhosa, em face dos últimos acontecimentos. Um
deles é Habemus Papam (2011), do
consagrado Nanni Moretti, que com seu humor característico tenta humanizar o
Vaticano, mediante pequenos lances dramáticos e potencialmente cômicos do
cotidiano. A ideia de um papa que surta quando entrevê a efetiva responsabilidade
que tem pela frente — e o próprio desfecho do filme — dão a dimensão da
possível incompatibilidade entre estar à frente do comando da Igreja e conhecer
efetivamente os dramas e angústias de seus fiéis, talvez nem mais tão fiéis
assim. E é essa incompatibilidade, ou distância, que é explorada na comédia
dramática O Banheiro do Papa (2007),
uma coprodução Uruguai-Brasil-França. O caráter teatral, de encenação do
exercício do papado, que Habemus Papam
sugere, fica evidente na distância que o então papa João Paulo II mantém da
população de Melo, pequena cidade da fronteira Brasil-Uruguai, que se preparou de
todas as formas para recebê-lo, não por motivos religiosos, mas por ter visto na
visita do Sumo Pontífice uma oportunidade de ganhar dinheiro com os brasileiros
que acorreriam ao local, e que teriam, entre outras, a necessidade de se
alimentar, por exemplo. É então que o protagonista tem a ideia de construir o
banheiro — não para o papa, mas para aqueles que iriam vê-lo. O papa chega,
acena, celebra sua missa e vai embora. Os brasileiros não aparecem. A proporção
que tudo toma acentua o contraste entre as expectativas do lugarejo pobre,
bastante pobre, e o caráter de encenação da visita do papa — a mudança esperada não veio. E se os fiéis que
o filme de Moretti encena têm seu quê de sofisticação, aqueles de Melo são
fiéis às necessidades mais básicas de sobrevivência. Daí, talvez, a ideia
engenhosa do protagonista, na ausência do dinheiro — e de um divã.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
agente da passiva
Reportagem da revista Época (versão impressa) da semana passada anuncia que “Somos todos
vigiados” e, logo de saída, convida um engenheiro especialista no assunto para
dizer que “A única saída, neste momento, seria parar de usar a internet.” O
fato de sermos vigiados não é nenhuma novidade. Na versão impressa, evitou-se o
agente da passiva, mas não na digital. O agente da passiva do momento, digo, o
espião, é o governo americano, mas eu, por exemplo, já fui vigiada por meus
pais, pela Igreja, pela escola, depois pela sociedade, pelos amigos, e, numa etapa
seguinte, pelo que vou chamar aqui de “ambiente de trabalho”. Estou casca e
fruta prontinha para ser espionada pelo Google. Porque o aprendizado daqueles
mecanismos foi tão intenso e eficaz (família, escola, religião, sociedade...)
que o espião nem mais se faz necessário: está em mim. E eu já tenho o contra-aprendizado:
conheço-o melhor do que ele a mim.
Fernando Pessoa e os versos que valem por poemas inteiros
"Os que mais me conhecem ignoram-me de todo." (aqui)
terça-feira, 16 de julho de 2013
a difícil coragem
Tanto tempo não me arrisco
Nas palavras,
Exceto as burocráticas
— Brutocráticas:
Que gastam por fora.
Essas outras, gratuitas,
Tão minhas
Abrem clareiras por dentro.
Fernando Pessoa: o cansaço e o perdão
Tenho
dó das estrelas,
Luzindo
há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão —
Qualquer coisa assim
Como um perdão?
Fernando
Pessoa. Poesia 1918-1930. São Paulo, Companhia
das Letras, 2007, p.323-324.
domingo, 14 de julho de 2013
a descoberta da vida
Lia (o verbo reler, no caso de Clarice, não se aplica),
antes de dormir, a crônica “A descoberta do mundo”, inserta em uma coletânea do
gênero, quando, ao chegar neste trecho, voltei e voltei mais uma vez: “Ou será
que eu adivinhava mas turvava minha possibilidade de lucidez para poder, sem me
escandalizar comigo mesmo, continuar em inocência a me enfeitar para os meninos?
(...) Seria minha ignorância um modo sonso e inconsciente de me manter ingênua
para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos?” Foi então que, um pouco
nebulosamente, foi-se me revelando um dado, talvez o que faltava, de um enigma
de minha história pessoal — não digo “o enigma” porque seria subestimar a vida.
Eu entendi, eu encontrei a peça que faltava, não de maneira clara e lógica e
cristalina, mas como essas coisas conseguem se dar ao nosso entendimento. E
então jorraram imagens durante a noite, que confirmaram minha cegueira.
Talvez então isso que Clarice disse possa ter algum sentido para mim: “Porque
eu sempre soube de coisas que nem eu mesma sei que sei.” Clarice Lispector é
única. E eu não sei se alguma coisa está melhor hoje pelo fato dessas coisas se
terem dado, mas entender junto com
Clarice Lispector é conhecer sem se brutalizar.
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