Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
domingo, 27 de outubro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
terça-feira, 22 de outubro de 2013
acordar
O ruído do ar condicionado
Avisa que amanheceu.
Há um microclima no quarto
Traduzível como o prazer de estar vivo,
Enquanto o mundo soa-me
Um espaço contíguo
Onde outros vivos se movem.
domingo, 20 de outubro de 2013
Paulo Henriques Britto
POÉTICA PRÁTICA
A realidade é um calhamaço
insuportável?
Tragam-me então resumos.
A vida que se leva é um filme inassistível?
Vejamos só os anúncios.
Tragam-me então resumos.
A vida que se leva é um filme inassistível?
Vejamos só os anúncios.
São os limites do corpo intrusões malignas
de um demiurgo escroto?
O corpo não é preciso, e o espírito é impreciso:
eu não é um nem outro.
de um demiurgo escroto?
O corpo não é preciso, e o espírito é impreciso:
eu não é um nem outro.
Anda inconveniente a tal da poesia,
a significar?
Nada como um bom significante vazio
para abolir o azar.
a significar?
Nada como um bom significante vazio
para abolir o azar.
Paulo Henriques Britto. Formas do nada. São
Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 18.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Paulo Henriques Brito
III (De Três Epifanias Triviais)
O hábito de estar aqui agora
aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.
Um belo dia — por algum motivo
é sempre dia claro nesses casos —
você abre a janela, ou abre um pote
de pêssegos em calda, ou mesmo um
livro
que nunca há de ser lido até o fim
e então a ideia irrompe, clara e
nítida:
É necessário? Não. Será possível?
De modo algum. Ao menos dá prazer?
Será prazer essa exigência cega
a latejar na mente o tempo todo?
Então por quê?
E neste exato
instante
você por fim entende, e refestela-se
a valer nessa poltrona, a mais
cômoda
da casa, e pensa sem rancor:
Perdi o dia, mas ganhei o mundo.
(Mesmo que seja por trinta
segundos.)
Paulo
Henriques Brito. Macau. São
Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 72-73.
domingo, 13 de outubro de 2013
sábado, 12 de outubro de 2013
em comum com Clarice Lispector
Sábado é meu dia — diz Clarice em uma de suas crônicas. E hoje em
particular é meu dia também pela criança que continua a viver em mim.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Fernando Pessoa
Sim, por fim uma certa calma...
Certa ciência antiga, sentida
Na substância da vida,
De que não há acabar da alma,
Qualquer que seja a estrada que é seguida...
Fácil visão?
Crença de muitos? Não.
Que o que sinto tem diferença.
É uma vida, não uma crença...
Não é meu: é do coração.
Sol que atingiste o ocidente,
Sei que outro te tornarei a ver —
Um outro e o mesmo no oriente:
Tudo é ilusão, mas nada mente,
O Nada que é Tudo é o Ser.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.256.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
eu, eu, eu...
Talvez, no enunciado “estou sofrendo...”, a questão
não seja alterar o verbo, mas a pessoa do discurso, pois o “eu” parece imperar
absoluto no reino do sofrimento. Não se trata de mudar de domínio: enquanto
houver “eu” haverá sofrimento. “O eu faz parte das coisas que é preciso
dissolver”. (Deleuze, A ilha deserta,
p.249).
Kafka
De todo modo, as baratas estão debaixo da cama —
lentas, semiocultas, empoeiradas, com patas mais espessas e movimentos mínimos.
Parecem não querer serem incomodadas pelas inquietações humanas, que no entanto
lá chegam, em seu nicho empoeirado. Debaixo da cama é, também, um lugar em que certas camadas dos sonhos são permitidas.
domingo, 6 de outubro de 2013
sonho-enigma
Da sequência de imagens que consegui organizar e recordar
ao acordar — naquele momento em que se tem ciência de que se trata de um sonho —,
aconteceu-me estar sentada num metrô, ou coisa equivalente, acompanhada de
alguém que não consigo identificar, mas que teria que ceder seu lugar quando
uma outra pessoa chegasse, uma espécie de cavaleiro distinto que tinha aquele
lugar destinado para si. Já não era mais metrô então, mas um evento social. O
cavaleiro chega, o lugar é cedido, e outro personagem sai. Movida quem sabe
pela culpa, quem sabe pelo desejo de entender o porquê do que se passava,
encaminhei-me ao quarto onde o outro personagem, que cedeu o lugar, se
encontrava, e era uma criança, um menino, que sentia frio, mas que parecia
disposto a suportar isso, resignado. Aqui seria preciso dizer que o menino era
negro. Mas por que dizê-lo? Por que isso faria algum tipo de diferença? Já então a cena é outra, e recorro
à minha mãe, que está passando roupa, para conseguir uma forma de agasalhá-lo,
protegê-lo, para que ele não sentisse frio. Minha mãe a princípio nega, então
insisto e consigo. O sonho termina aí. Não sei mais se ainda dormindo ou já acordada,
me dei conta de que aquela criança eu havia expulsado de mim, em troca do mundo
adulto e civilizado das convenções. Pode ser que tenha concorrido no sonho a
própria forma com que os negros eram tratados nos EUA, cedendo seu lugar no ônibus para os brancos. Não
precisaria ir tão longe, pois no Brasil os lugares também são bem marcados, o
que remete ao cavalheiro distinto que se sentaria ao meu lado. Seria bem mais
fácil para mim, talvez, entender o sonho se o menino não fosse negro. Mas ele
não tem só essa diferença em relação a mim: há também a questão do gênero e o
fato de ser uma criança. Ele, efetivamente, é a representação do outro, da
alteridade, da diferença, que por vezes expulso de mim para sobreviver. Ele é
uma diferença que de repente gritou dentro de mim, ou melhor, no seu silêncio
resignado, fez-se ouvir, porque eu tentei escutar. Ter sonhado com isso, ter,
no sonho, ido atrás, reconhecido, procurado proteger, conseguido discernir e
escutar essa diferença frágil e silenciosa é mais do que um consolo: é a
indicação de que um percurso está se fazendo.
acordar com clarice lispector
"O anonimato é suave como um sonho." (de A descoberta do mundo, 1999, p.75)
sábado, 5 de outubro de 2013
Emily Dickinson
Depois de mais cem anos
Ninguém sabe o Lugar
É Paz que não se move
A Dor que ali doeu
Cresceu altiva a grama
O Estranho que foi lá
Só viu a Ortografia
De quem já faleceu
No ar do Verão o Vento
Da trilha há de lembrar
O Instinto guarda a Chave
Que a memória perdeu
After a hundred years
Nobody knows the Place
Agony that enacted there
Motionless as Peace
Weeds triumphant ranged
Strangers strolled and spelled
At the lone Orthography
Of the Elder Dead
Winds of Summer Fields
Recollect the way –
Nobody knows the Place
Agony that enacted there
Motionless as Peace
Weeds triumphant ranged
Strangers strolled and spelled
At the lone Orthography
Of the Elder Dead
Winds of Summer Fields
Recollect the way –
Instinct picking up the Key
Dropped by memory
Dropped by memory
DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira.
São Paulo: Iluminuras, 2011, p.74-75.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
sonhos
O que dizer dos sonhos quando, para se dizer algo
deles, já são matéria transformada pela linguagem, incorporados como narrativa
reconhecível? Sonhei com Bob Dylan, que estava muito próximo de mim, mas havia
um silêncio imposto que impedia a fala, minha e dele. Esse silêncio — suas
circunstâncias — é a parte mais estranha de tudo, praticamente intraduzível, e
trazia consigo uma origem, um agente deflagrador. Havia uma interdição à fala, algo
que foi se construindo, se fazendo, e era doloroso, difícil, e traía fragilidade,
vulnerabilidade, ausência de proteção de minha parte, como se eu tivesse
desamparado alguém que amo. O impedimento de falar era muito incômodo, porque não
era simplesmente algo físico: antes, falar representava uma espécie de perigo,
uma ameaça. A sensação foi única, muito viva e real, intraduzível e praticamente
incompreensível pelo pensamento e seus signos verbais. Havia uma situação
envolvendo um improvável Bob Dylan, frágil e desamparado, e a mim, impedida de
falar por coisas que eu mesmo havia feito, ou fizeram, quem sabe. Mas aqui eu
posso, ainda que me censure.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Emily Dickinson
O Espírito não mostra
A mais íntima Hora –
Que Horror subjugaria as Ruas
Se lhe viesse à Cara
O Porão dentro da Alma
O Subterrâneo Peso –
Só Deus faz um Lugar tão cheio
Ficar silencioso.
Its Hour with itself
The Spirit never shows –
What Terror would enthrall the Street
Could Countenance disclose
The Subterranean Freight
The Cellars of the Soul –
Thank God the loudest Place he made
Is license to be still.
The Spirit never shows –
What Terror would enthrall the Street
Could Countenance disclose
The Subterranean Freight
The Cellars of the Soul –
Thank God the loudest Place he made
Is license to be still.
DICKINSON,
Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras,
2011, p.172-173.
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