Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 8 de julho de 2011

um pedaço do céu

No meio do turbilhão da tarde olhei para o azul e vi um pedaço do céu ― e me ocorreu que o ser humano não faz falta à tarde.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Clarice Lispector

CONDIÇÃO HUMANA

Minha condição é muito pequena. Sinto-me constrangida. A ponto de que seria inútil ter mais liberdade: minha condição pequena não me deixaria fazer uso da liberdade. Enquanto que a condição do universo é tão grande que não se chama de condição. O meu descompasso  com o mundo chega  ser cômico de tão grande. Não consigo acertar o passo com ele. Já tentei me pôr a par do mundo, e ficou apenas engraçado: uma de minhas pernas sempre curta demais. O paradoxo é que minha condição de manca é também alegre porque faz parte dessa condição. Mas se me torno séria e quero andar certo com o mundo, então me estraçalho e me espanto. Mesmo então, de repente, rio de um riso amargo que só não é um mal porque é da minha condição. A condição não se cura, mas o medo da condição é curável.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.165.

Milton Nascimento é gênio... e quem quiser que conte/cante outra

Composição: Milton Nascimento e Fernando Brant. 
AQUI na interpretação clássica de Milton e Elis.

ponta de areia


do modo estranho com que as coisas vão entrando em nossa vida

 Música: Loneliness of the Shot Down Bomber (AQUI)

It's All Over Now, Baby Blue (Bryan Ferry)

recusa

Acabo de receber em casa o livro Poesia da recusa, projeto de Augusto de Campos de tradução de certa estirpe de poetas/poemas que o tradutor assim apresenta: “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas (...) A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo.” (p.16). Cansa, antes mesmo de começar a conferir o volume, esta pomposa declaração de princípios: não informa nada que não já se saiba. Dou uma passada de olho, detenho-me em Hart Crane, a quem Mário Faustino teria homenageado em sua Balada (cuja dedicatória é ainda matéria de controvérsia) e me deparo com isso: “Em 1956, Faustino traduziu dois poemas de Crane, ‘Praise for na Urn’ e ‘Garden Abstract’. Não são, porém, traduções criativas. Antes, versões quase literais, de cunho didático, para a sua ‘Página-Experiência’ no Suplemento Literário do Jornal do Brasil.” (p.294). É cômodo desqualificar o trabalho de quem não está mais aqui para se defender... Só há um porém: a tradução de Mário Faustino pareceu-me mais bonita, entre outros porque primeiro me trouxe o poema em seu frescor e novidade. Traduções são traduções ― disse-me alguém versado, e em versos versado, na questão ― cada uma atende uma demanda própria ― desde que recubra o que cabe na palavra tradução. Há várias possibilidades de recusa. Pode-se pensar que não há literatura ou poesia fora do espectro que recobre a palavra recusa ― de quê? O leitor também costuma ter suas recusas, nem sempre é fácil contorná-las, mas se elas encontram expressão na arte, isso pode sinalizar que não há uma poesia da recusa pairando acima das contingências que a ensejaram: porque uma hora vai sempre aparecer alguém que necessita dela. Na palavra recusa está pressuposta a palavra escolha: escolhemos os poetas que amamos; traduzir é escolher. Se Dylan Thomas nasceu falando uma língua diferente da minha, isso não impede que sinta necessidade de sua poesia. Aí vem sempre alguém lembrar, pelo menos aqui no Brasil, que a melhor leitura é a que se faz no original, que poesia não se traduz (cansei de ouvir isso nos eventos de que participei na Universidade), que as traduções que pratica "procuram preservar as características formais do original. São, nesse sentido, estudos de dicção e estilo. Mas o meu lema é oferecer ao público somente poemas que efetivamente continuem poemas depois de traduzidos. Daí a necessidade de captar, além da sua forma, a sua 'alma', o que traz para o tradutor o problema de identificar-se com o texto e abdicar de uma programação inteiramente premeditada." (p.17). E traz para o leitor uma enorme sensação de incompetência, para qualquer coisa, inclusive ler poesia. Será preciso lembrar tanto a própria erudição para alcançar a vontade de poesia do outro? Um poema que não continue poema depois de traduzido foi bem traduzido? É passível de tradução? Não sei responder a estas questões. O que sei é que se há quem se proponha a traduzir é porque existe, na outra ponta, a demanda de leitura. E se as melhores traduções, as mais desejadas, são ainda as bilingues, é porque o leitor quer, por ele mesmo, quando pode, fazer a comparação. A título de, segue a versão que Augusto de Campos propôs para o poema de Hart Crane:

JARDIM ABSTRATO

A maçã no seu galho é tudo o que ela quer, ―
Suspensão cintilante, mímica do sol.
O ramo arrebatou-lhe o sopro, e sua voz,
mudamente cingida aos declives e alturas
De ramo a ramo acima, turva-lhe a visão,
Prisioneira da árvore e seus dedos verdes.

E ela se sonha enfim a própria árvore.
O vento, que a possui, tece-lhe as veias jovens,
Retendo-a para o céu e seu rápido azul,
E afoga a febre de suas mãos no sol.
Ela não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e sombras a seus pés.

CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.300-301.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Torquato Neto: a linguagem na contramão

Torre de Babel, Escher, 1928

“... & depois da tempestade já não temos tempo de levantar a questão de uma nova Torre de Babel sintática: ela já explodiu sua possibilidade, seus alicerces, suas palavras. As palavras inutilizadas são armas mortas (a linguagem de ontem impõe a ordem de hoje). A imagem de um cogumelo atômico informa por inteiro seu próprio significado, suas ruínas: as palavras arrebentadas, os becos, as ciladas etc. etc. ad infinitum.”


NETO, Torquato. Torquatália {do lado de dentro}. Org. Paulo Roberto Pires. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p.312.

afastando-se do discurso

"Eu estou depois das tempestades", disse Riobaldo. 

"Não estou procurando nada nos olhos de ninguém", disse Bob Dylan. 

Já eu trago a tempestade no olhar: tudo o que preciso tenho aqui, nesta escrita intempestiva, inclusive o distanciamento do discurso, do olhar do outro.

Hart Crane: Garden Abstract

JARDIM ABSTRATO

A maçã sobre seu ramo é seu desejo, ―
Brilhante suspensão e mímica do sol.
O ramo aprisionou-lhe o sopro, e sua voz
Mudamente articulada na queda e na ascensão
De galho sobre galho acima dela ofusca-a
Prisioneira da árvore e de seus dedos verdes.

E sonha-se ela assim a própria árvore,
Possuída pelo vento, que lhe tece as veias jovens,
Segurando-a contra o céu e o azul breve
Mergulhando no sol a febre de seus braços.
Não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e das sombras a seus pés.


GARDEN ABSTRACT

The apple on its bough is her desire,—
Shining suspension, mimic of the sun.
The bough has caught her breath up, and her voice,
Dumbly articulate in the slant and rise
Of branch on branch above her, blurs her eyes.
She is prisoner of the tree and its green fingers.

And so she comes to dream herself the tree,
The wind possessing her, weaving her young veins,
Holding her to the sky and its quick blue,
Drowning the fever of her hands in sunlight.
She has no memory, nor fear, nor hope
Beyond the grass and shadows at her feet.

FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.292-293.

manu chao

Fabiano Martins

Aquedar e quedar

Ouça a voz,
Ela pulsa em teu peito
à noite.
É a voz que reconhece
em si mesmo;
que te acorda na manhã
pós-pernoite

Não afoito
siga
como os pássaros
vão...
todos cuspindo ar;
como os braços
que a tudo abraçam
abarcam teu peito
a quedar
e quedar

Não há pleito
inerente
ao que te fala
essa voz
Ela diz
condescendente
algo forte
e atroz
É faca de dois gumes
por certo
É tão direto, o que diz; é tão completo...
Descinge a ternura
para além do olhar;
cessa os idos para além
da janela;
quer à queda
quedar e quedar.

do blog do Fabiano Martins

álbum de fotografias

Ontem, enquanto aguardava na rodoviária a chegada de minha mãe, enganando o quanto podia o frio e tentando em vão enganar o cansaço (já passava das onze da noite), uma pessoa (uma moça, mais especificamente) me abordou pelo nome:
― Mariana?
― Sim?
― Sou eu, K.
― !?
E continuei na íntima interrogação (e espanto) enquanto durou a conversa. Impossível reconhecê-la. Não pelo pouco que convivemos na faculdade, mas pelo muito que o tempo, relativamente curto aliás, lhe fez. Num curto interregno de 10 anos quanto uma vida se transforma! Os traços do rosto de hoje não deixavam entrever os traços que a memória guardou do rosto esquecido de outrora. Daquelas pessoas ficaram-me uma ou duas, e um álbum de fotografias, a que volta e meio volto. Meu maior susto, em tudo, foi a possibilidade de tornar-me também irreconhecível a alguém, não porque quero ser lembrada (em alguns casos quero exatamente o oposto), mas pela transformação em si.  

uma reflexão a menos

Não querer nada ― exceto o esquecimento. Há um querer, um desejar, profundamente estético: só a arte pode satisfazer... Por isso este post também poderia se intitular niilismo. Mas faz frio lá fora, algumas pessoas passaram por aqui e deixaram promessas de diálogos, o frio é mais frio na paisagem, aqui dentro há algum aconchego (minha mãe dormiu aqui esta noite), e pelo não humano consigo vislumbrar minha melhor fortuna.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

um poema de Drummond, a vida e outras reentrâncias

Se tivesse de escolher um poema de Drummond, seria este, aliás há muito escolhido, "Um boi vê os homens". A crueldade do homem, a capacidade para o mal, diria mesmo disposição, está toda ali, nos versos ― e no rastro da tristeza chegam à crueldade. Porque as notícias se sucedem, e a cada vez a consternação é coletiva, mas como entender o enjaulamento, o abuso, a violência, o cárcere privado e o espancamento até a morte de uma criança, de mais uma criança, sem que ninguém tivesse feito nada para impedir? Chamava-se Christian o garoto. Soa cândido, ao final da reportagem, deparar-se com isso: investigadores locais e estaduais estão agora tentando determinar como e por que o sistema fracassou em descobrir o abuso sofrido por Christian Choate. O sistema não fracassou em descobrir: simplesmente não quis ver, porque não lhe interessa a vida, a integridade das pessoas. Aliás, a quem pode interessar? O que vale uma pessoa entre tantas? O que terá verdadeiramente acontecido? Como, de abuso em abuso, essa criança chegou até a morte?

UM BOI VÊ OS HOMENS

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentarem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rastro da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos ― e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia.  Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.167. (Claro enigma) 

Anselm Kiefer, To the Unknown Painter, 1983

imagem obtida aqui 

Alejandra Pizarnik

SALVACIÓN

Se fuga la isla
Y la muchacha vuelve a escalar el viento
y a descubrir la muerte del pájaro profeta
Ahora
es el fuego sometido
Ahora
es la carne 
    la hoja
    la piedra
perdidos en la fuente del tormento
como el navegante en el horror de la civilización
que purifica la caída de la noche
Ahora
la muchacha halla la máscara del infinito
y rompe el muro de la poesía.

Alejandra Pizarnik. Poesía completa. Barcelona: Lumen, 2000, p.49.

domingo, 3 de julho de 2011

David Bowie: Something in the Air

tênue

Só depois percebi a contiguidades entre estes extremos (aqui e aqui). Assim é minha esperança: na abundância se perde; na ausência se reinventa. Porque se todos os loucos que li estiverem certos, não há lugar para meio termo quando o assunto é o homem, aquilo que um dia, numa savana perdida, um bípede intuiu como diferença fundamental, tênue, fugaz talvez, entre ser sapiens e não ser, ainda quando ainda não o era: foi esperança o que aquele bípede sentiu. E me assusto toda vez que a esperança se afasta de mim, pois é como se estivesse negando a herança daquele ser (era já um bípede?), que, se não justificou a humanidade, deu-lhe sua única justificativa ante o vazio que aquela intuição imediatamente descortinou. Nós, ao nos afastarmos da natureza, nos tornamos os únicos seres capazes da solidão. Os animais, as árvores não estão sós, simplesmente porque são o que são, bastam-se em sua substância. A nossa substância pediu mais ao Universo, e nisso ela se viu só, buscando abrigo no semelhante, alimentando aquela remota esperança de... de quê? De ser algo mais que a matéria. 

Em tempo: qualquer leitor versado em filosofia desmonta este meu texto em dois tempos: noções como ser, o ser e substância estão sendo usadas aqui no seu dado mais bruto, imediato. Mas foi brutal e prenhe de consequências a revelação que aquele bípede teve, sentir em si o brotar da esperança. Que deus lhe terá feito isso?

Franz Kafka (narrativas do espólio)

O PIÃO
 
Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E
, se via um menino que tinha um pião, já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas ― era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E, sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e, se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto ele corria até perder o fôlego atrás do pião. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças ― que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos ― afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira. 

KAFKA, Franz. Narrativas do espólio. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.136-137.