A vida não cabe na linguagem. A vida, pressentida na inocência, era só silêncio e voragem. Todo o enigma de uma vida desdobrando-se em camadas sutis que sabem mais ao silêncio, e que ainda assim conhece a urgência da linguagem. Se os físicos foram buscar em Joyce o contorno para um dos abismos da matéria ― os quarks ― é porque abismar-se na matéria é fazer o mesmo na linguagem: a complexidade da matéria pede a complexidade que a linguagem logrou alcançar. Há rumores sobre a matéria estranha, diferente da usual, e que poderia absorver e transformar completamente esta ― como se fosse uma dimensão que não comportasse o mundo que, bem ou mal, o homem esforçou-se por esquadrinhar e lotear, embora cada tarde possa trazer a suspeita de que o homem não se habituou a existir. Mas agora há a matéria estranha. A matéria estranha não cabe no pensamento, não cabe em nada: ela é o grande nada, o fim de toda ilusão, o fim da beleza a que se deu o nome de poesia.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
domingo, 10 de julho de 2011
"Three Quarks for Muster Mark!" (James Joyce)
Ronan O'Neill, Three Quarks for Muster Mark! [strange]
a superfície das palavras
L deixou alguns barcos. Inútil pensar que foram os barcos que buscaram outros rumos. Num relance, na tarde ― tarde e noite são espaços privilegiados de irrupção do inesperado―, L manda uma mensagem aloprada de celular a quem pode ouvi-la. É ouvida. Fala coisas ininteligíveis, porque precisa. Fala em “fala roubada”, em coisas intensamente vividas, coisas que precisam encontrar ouvidos de gente. Corta para outra cena. L deixa desconcertado quem não esperava dar com ela tão de repente e não sabe o que fazer com o fato dela existir e estar simplesmente ali, parada, sozinha, diante da tarde, sem precisar de nada, sequer do olhar que lhe é dirigido. Recebe o desdém com a mesma expressão com que olha o nada. Sustenta o olhar. Seus olhos não dizem nada, e sabe que desconcerta. Vai continuar desconcertando. O que falava a mensagem? Falava ― ameaçava falar ― o que não quer calar. A conexão entre os fatos é a própria superfície com que eles se oferecem: o barco que deixou pareceu-lhe muito estreito para a largueza do que experimentou. Era o que tentava dizer a mensagem, em formulação compatível com o formato e a tarde. Está ecoando, às vezes grita, outras apenas sussurra.
Dogville (ou a condição de órfão)
Young Americans from David Werl on Vimeo.
Para quem suporta levar Dogville até o final, então há uma sequência antológica ao som de Young Americans, de David Bowie. Neste filme todos são jovens e já muito velhos para pisar neste planeta: a crueldade é sua melhor vingança contra o outro indefeso, indefeso porque um pouco mais frágil, apenas isso. A condição de órfão é a de todos: todos caímos na humanidade, e os laços de sangue muitas vezes apenas constituem uma licença maior para o abuso, também conhecido como proteção. O amor recebe muitos nomes, o que não significa que se saiba o que é este sentimento ― ou que ele seja comum ou fácil de sentir. O amor também é o nome que se dá ao que não se sente, palavra vazia a encobrir escusos sentimentos, difíceis de nomear.
cuidar das palavras
Cuidar das palavras ― e esperar ― paciente ― o retorno. Ainda que venha apenas nos momentos de descuido ― distração.
João Cabral de Melo Neto
O ARTISTA INCONFESSÁVEL
Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.
MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.58.
William Carlos Williams: TO HAVE DONE NOTHING
NADA TER FEITO
Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito
é feito de
nada
e o ditongo
eu
seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo
do verbo
auxiliar
ter
tudo
que tenho feito
dá no mesmo
se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos
morais
físicos
e religiosos
pois tudo
e nada
são sinônimos
quando
a energia in vacuo
tem o poder
de confusão
que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito
TO HAVE DONE NOTHING
No that is not it
nothing that I have done
nothing
I have done
is made up of
nothing
and the diphthong
ae
together with
the first person
singular
indicative
of the auxiliary
verb
to have
everything
I have done
is the same
if to do
is capable
of an
infinity of
combinations
involving the
moral
physical
and religious
codes
for everything
and nothing
are synonymous
when
energy in vacuo
has the power
of confusion
which only to
have done nothing
can make
perfect
William Carlos Williams. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.58-61.
sábado, 9 de julho de 2011
Mário Faustino
MITO
Os cães do sono ladram
Mas dorme a caravana do meu ser;
Ser em forma de pássaro,
Sonora envergadura
Ruflando asas de ferro sobre o fim
Dos êxtases do espaço,
Cantando um canto de aço nos pomares
Onde o tempo não treme,
Onde frutos mecânicos
Rolam sobre sepulcros sem cadáver;
E sonho outros planaltos
Por mim sobrevoados na procela;
E sonho outras legendas
Em mim argamassadas pelo vento,
Trabalhadas em mim por mãos sem tato;
E sonho o que foi parco
Mas meu e por que raro perdido;
E sonho o que foi vasto
Mas de alheio me pesa sobre os ombros,
Globo de ásperos polos,
Continentes de medo
E mares onde o sangue é trilha e nódoa;
Deitado no vitral
Da noite intensa, exata,
Assim um Fazedor empunha o cetro
Ornado de serpentes;
Assim refaz o que foi feito à sua
Augusta semelhança
Contrafação de um gesto mais difícil
Sonâmbulo e remoto ― contundente;
E enquanto nuvens quedam
De incenso carregadas, de semente,
Levanto-me e estrangulo
O ato de nascer que me divide
Em morna derrisão
Disforme difidência de um presságio;
O Fazedor anula
O inferno que o refina
E alçando-se ao poente mais seguro
Mergulha na verdade
Acesa que o derrota e reduz ao
Dormente ser de vidro e cor que sonha;
Os cães do sono calam
E cai da caravana um corpo alado
E o verbo ruge em plena
Madrugada cruel de um albatroz
Zombado pelo sol ―
FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.77-78.
Emily Dickinson
Conheço vidas cuja ausência
Não me dá Saudade ―
Outras ― um só momento longe delas
Seria a Eternidade ―
Estas um Número pequeno ―
Duas ― não mais ― seriam ―
Aquelas ― um Horizonte de Mosquitos
Facilmente encheriam.
I know lives, I could miss
Without a Misery —
Others — whose instant's wanting —
Would be Eternity —
The last — a scanty Number —
'Twould scarcely fill a Two —
The first — a Gnat's Horizon
Could easily outgrow —
Without a Misery —
Others — whose instant's wanting —
Would be Eternity —
The last — a scanty Number —
'Twould scarcely fill a Two —
The first — a Gnat's Horizon
Could easily outgrow —
Emily Dickinson. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.254-255. Tradutores de Emily Dickinson para a língua portuguesa.
Desolation Row: Dewey Paul Band (live Bob Dylan tribute)
All these people that you mention
Yes, I know them, they’re quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can’t read too good
Don’t send me no more letters, no
Not unless you mail them
From Desolation Row
...e por falar em José Paulo Paes
Ítalo Moriconi não encontrou na poesia de José Paulo Paes motivo suficiente para arrolar um de seus poemas entre Os cem melhores poemas brasileiros do século (Rio de Janeiro: Objetiva, 2001). Talvez o poeta interiorano tenha ficado demais em casa.
ÉCLOGA
lentos bois,
passam por mim
os dias
Os melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção Davi Arrigucci Jr. 3.ed. São Paulo: Global, 2000, p.214.
poesia: a arte de ficar em casa
“Pondo entre parênteses todo o arsenal de alusões da prática literária que o antecedia, Williams se acercava das coisas em estado de inocência para vê-las com olhos novos.”
José Paulo Paes. WCW: a arte de ficar em casa. In: William Carlos Williams. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 18.
Gustavo Acioli
Foi através da acidez deste curta, Nada a Declarar, mais propriamente a música que toca nos créditos finais, que prestei atenção ao nome de Gustavo Acioli. É possível escutar no seu site, trata-se da última música do CD Eu, camelô de mim: "Não importam os poemas / O importante é ser poeta."
O Trenzinho do Caipira: Heitor Villa-Lobos
Último movimento da "Bachianas Brasileiras Nº 2", a "Tocata",
William Carlos Williams
EL HOMBRE
Estranha é a coragem
que me dás estrela antiga:
Brilha sozinha na alvorada
para a qual em nada contribuis!
EL HOMBRE
It’s a strange courage
you give me ancient star:
Shine alone in the sunrise
toward which you lend no part!
William Carlos Williams. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.36-37. AQUI outros poemas do autor.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Murilo Mendes:
A OUTRA INFÂNCIA
Meninos que daqui não vejo
Dançam e cantam de roda no terreiro ao lado.
O menino que também brincou de roda
Seria mesmo eu? Creio que não.
(Viramos crianças
Ao imaginar a criança que fomos.)
Já era outro menino, já pensava,
Iluminando-me com duas luas
― Uma na cabeça.
MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994, p.423.
escolher o menos
Escolher o menos. Utilizei esta expressão numa postagem meio intempestiva escrita ano passado (aqui), e já havia mesmo me esquecido, quando hoje, ao refletir sobre uma série de coisas que me são caras, lembrei-me dela ― mas me lembrei assim: quem é que li ano passado que usou esta expressão, escolher o menos? Alguém que li falou isso ― continuei em minhas divagações ― e cheguei mesmo a fazer um post. Mas quem? ― e continuei a buscar contorno para o post que faria, este que ora escrevo, em que a expressão se coadunaria com o restante, só faltando encontrá-la e a fonte. E afinal encontrei, e para minha surpresa não foi lida de ninguém: fui eu mesma que a cunhei, para falar de coisas que eram prementes, dentre as quais o que pretendia aqui. Escrevi então: " É bom notar também que não se trata de nenhum blog campeão de audiência, com grandes pretensões, mas antes uma ilhota, uma micro-ilha, rodeada de milhares de ilhas mais portentosas, dispersas num oceano imenso, que eventualmente configuram arquipélagos, territórios discursivos. A pretensão aqui é mais simples: falar e, com sorte, fazer-se ouvir, quem sabe conseguindo também ouvir." É sobre este falar que vem a propósito a expressão escolher o menos.
Sempre ouvi falar em poeta menor (Manuel Bandeira é emblemático a esse respeito), como também não me escapou o título do conhecido texto de Deleuze, "Kafka: por uma literatura menor", que nunca cheguei a ler, embora tivesse me rondado mais de uma vez na Universidade, nas conversas e nas ementas das disciplinas (sempre maravilhosas, as ementas, as disciplinas era melhor perguntar antes a alguém bem informado). Quando escrevi o texto sobre o livro de poemas traduzidos por Augusto de Campos, fui derivando, por conexões que parecem ter um mecanismo próprio, este texto, no sentido da intenção desses meus escritos de crítica literária (se posso chamá-los assim), para usar o termo de Alexandre Eulálio. Como situá-los? Porque é claro que, por maior que seja minha timidez, estou me aventurando neste campo, e foi então que me ocorreu que a par do poeta menor pode existir a crítica menor: crítica no sentido da palavra crítica ― mas crítica como substantivo feminino também ― me ocorreu imediatamente. A nossa literatura forjou um Rodrigo S.M., nada impede que outras vozes dissonantes, embora com bem menor alcance, possam se lançar. Esta que aqui fala nem sequer pretende (verbo pretensioso, este), apenas sabe-se fazendo um exercício de crítica menor ― em muitos e variados e complexos e contraditórios sentidos. Mas menor, sempre, e mesmo o sentido disso ainda está por se fazer. Pois uma coisa é certa: o que é grande já possui muitos que lhe tomem conta. Menor, sobretudo, porque é o que vai me franquear as portas possíveis.
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